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Internacionalização das universidades aumenta a qualidade da pesquisa, defendem reitores

Publicado em 29 agosto 2019

Por Maria Fernanda Ziegler | Agência FAPESP

Para dirigentes, consolidação do ambiente internacional acadêmico melhora a diversidade

Os reitores das três universidades estaduais paulistas encorajam projetos de pesquisa em colaboração com universidades de outros países e em parceria com a indústria e com empresas privadas. Para os dirigentes da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp), o principal objetivo da internacionalização é a consolidação do ambiente internacional acadêmico, melhorando diversidade e qualidade na pesquisa.

A defesa foi feita durante palestra na São Paulo School of Advanced Science on Science Diplomacy and Innovation Diplomacy, que acontece na USP até o dia 30 de agosto. Organizado pelo Instituto de Relações Internacionais (IRI-USP), o evento teve apoio da Fapesp, por meio da modalidade Escola São Paulo de Ciência Avançada (ESPCA).

A diplomacia científica, segundo os organizadores da Escola, tem por objetivo desenvolver diplomacia por meio da ciência, aproximando países mediante intercâmbios e parcerias entre pesquisadores, universidades e institutos de pesquisa.

“Embora pareçam termos da moda, tanto a internacionalização quanto a inovação são ferramentas importantes para as universidades de pesquisa. A internacionalização assegura a melhora na qualidade. Isso pode ser notado em pesquisas de colaboração internacional que tendem a ter maior impacto, assim como programas de pós-graduação em colaboração com outros países e de graduação com double degree”, disse Vahan Agopyan, reitor da USP.

O mesmo acontece com inovação. “É claro que é sempre bom conseguir traduzir a pesquisa em algo prático. Ao mesmo tempo é um valor muito importante que as universidades de pesquisa tenham uma relação de fundo com a sociedade. É algo importante no século 21: mostrar que o que fazemos nas universidades tem resultados para toda a sociedade”, disse.

De acordo com Agopyan, 40% dos parceiros da USP são top 20 em seus respectivos países. “E 44% dos artigos que publicamos são em parceria com pesquisadores de outros países”, disse. Agopyan afirmou que a USP pretende nos próximos anos estreitar relações com empresas e universidades da América Latina e do Pacífico.

Estratégia X internacionalização aleatória

Sandro Valentini, reitor da Unesp, afirmou que embora a internacionalização seja um elemento importante para diferentes rankings de universidades, o assunto tem ganhado maior relevância em discussões recentes, com maior visibilidade para a diplomacia científica.

“A internacionalização do ensino superior e da pesquisa no Brasil não é um processo recente. Com o suporte de agências de fomento federais e estaduais – no caso de São Paulo, a Fapesp –, cientistas estabeleceram colaborações internacionais seja durante seus estudos fora ou desenvolvendo pesquisa colaborativa”, disse.

Para Valentini, no entanto, esse processo deve ser estratégico e não aleatório, ou centrado no nível individual dos pesquisadores. Ele citou o caso do programa federal de 2011, Ciência sem Fronteiras, com orçamento de cerca de R$ 13 bilhões e com foco principal no intercâmbio de estudantes de graduação.

“No afã de ganhar escala na internacionalização, o processo de mobilidade do Ciência sem Fronteiras foi focado no treinamento individual de estudantes, sem nenhuma relação com as estratégias de internacionalização das instituições de origem desses alunos”, disse.

De acordo com o reitor, apesar de pouco resultado, o programa teve um ponto positivo: a criação de um movimento diplomático para a elaboração de planos estratégicos de internacionalização.

“Durante esse período houve uma série de missões acadêmicas no Brasil, permitindo que a Unesp aproveitasse esse interesse de universidades estrangeiras e começasse a prospectar e propor parcerias de pesquisa de interesse institucional. A Unesp também organizou missões em instituições estrangeiras que resultaram no estreitamento de várias parcerias.”

Valentini fez ainda uma comparação entre o Ciência sem Fronteiras e o último programa de internacionalização lançado pelo governo federal em 2017, o CAPES-PrInt. “Esse programa buscava primeiramente a internacionalização do sistema como um todo, com foco particular no crescimento da inovação e interação da indústria na produção científica no Brasil. No entanto, a principal distinção é que, para poder fazer a inscrição, os institutos tinham de elaborar um plano estratégico. Infelizmente, o orçamento é muito menor, de apenas R$ 1,5 bilhão”, disse.

Marcelo Knobel, reitor da Unicamp, afirmou que, para que haja internacionalização, é preciso atrair pesquisadores estrangeiros. “A principal motivação em estreitar colaboração e trazer estrangeiros para as nossas universidades está no fato de que os resultados são sempre positivos. Quando há estudantes e pesquisadores de outros países integrados à universidade significa que há culturas e maneiras de pensar diferentes. E isso é o básico em uma universidade. Precisamos de visões, ideias e origens diferentes”, disse.

Knobel relatou aos alunos da ESPCA duas experiências realizadas na Unicamp nesse sentido: a inclusão de alunos refugiados do Haiti – adesão da Unicamp à Cátedra para Refugiados, em 2017 – e o Centro Internacional de Desenvolvimento Sustentável e Cidades Inteligentes, que está sendo criado na Unicamp. Com uma área de quase 1,5 milhão de metros quadrados, o hub de desenvolvimento sustentável será lançado em setembro deste ano.

“Esse trabalho está sendo feito em colaboração com universidades estrangeiras, empresas e institutos de pesquisa para trabalhar em conjunto, sempre apontando para metas sustentáveis”, disse.

Em palestra que antecedeu o encontro dos reitores, o diretor científico da FAPESP, Carlos Henrique de Brito Cruz, afirmou que colaboração é muito mais que mobilidade de pesquisadores.

“A mobilidade é uma consequência de haver projetos de pesquisa colaborativos, concebidos e escritos conjuntamente. Valorizamos na Fapesp a ideia de que projetos de pesquisa colaborativa são idealizados e executados em parceria. Portanto, as pessoas vêm e vão, de forma recíproca. Há competitividade e estrutura de pesquisa no Estado de São Paulo, que atrai pesquisadores estrangeiros e permite o trabalho em conjunto. É uma atividade recíproca, que possibilita resultados muito melhores do que se cada parte pesquisasse sozinha”, disse.

A FAPESP tem apoiado a intensificação de pesquisas colaborativas a partir de acordos com agências de fomento, institutos e universidades, ou ações unilaterais – como a atração de professores visitantes e jovens pesquisadores.

Brito Cruz afirmou que, nos últimos anos, houve um aumento da colaboração internacional nas pesquisas apoiadas pela Fapesp. Em 2011, a Fapesp destinou R$ 20 milhões para apoiar pesquisas em colaboração internacional; em 2018 o total de recursos para essa modalidade de pesquisa foi de R$ 180 milhões.

“Isso pode ser percebido no aumento de artigos de coautoria internacional. Em 2010, eram menos de 25%, enquanto em 2018 essa taxa saltou para 40%”, disse.

Agência Fapesp

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