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Correio Popular (Campinas, SP) online

Interior que já foi mar

Publicado em 01 abril 2017

Por Guilherme Busch

Um longo estudo realizado por renomados pesquisadores de diferentes entidades de pesquisa e universidades do Brasil e de Portugal revela que a região de Campinas, assim como boa parte do Interior paulista, passou milhões de anos literalmente debaixo d’água. E não foi por causa de uma temporada de chuvas intensas. A região vivia submersa em meio às águas claras e tranquilas de um mar chamado Irati, que tinha mais de 1 milhão de quilômetros quadrados.

Diz a pesquisa que esse cenário ocorreu há cerca de 260 milhões de anos, numa época em que a configuração geológica do Planeta Terra não era exatamente o que os mapas atuais mostram. O período geológico era o Permiano, ou Pérmico, que se estendeu de 298 a 252 milhões de anos atrás — último período da era Paleozóica, após o período Carbonífero e antes do período Triássico do Mesozóico.

Esse mar, descrito nos estudos como tranquilo e de águas cristalinas, tinha uma sequência de praias na área onde hoje fica o município de Santa Rosa do Viterbo (SP), a 200 km de Campinas, na região de Ribeirão Preto. O lugar é tratado pelos pesquisadores como uma das evidências mais fascinantes desse antigo mundo marinho.

O Irati tinha pouca profundidade para os padrões marinhos — no máximo de 200

metros — e na maioria das vezes com lugares muito menos profundos. Ele secou ao longo de cerca de 20 milhões de anos, virou uma área conhecida como o maior deserto do mundo e ainda teve tempo para se recompor e se transformar no que é hoje.

Outra importância foi atribuída pelos pesquisadores ao Mar Irati. As rochas formadas naquela época deram origem ao “reservatório” que hoje armazena toda a água do Aquífero Guarani, um dos maiores mananciais de água doce do mundo.

As constatações são de um amplo estudo realizado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), do Instituto de Ciências da Terra da Universidade do Minho, em Braga, Portugal, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), do Instituto Florestal e do Instituto Geológico do Estado de São Paulo e da Universidade Federal do Paraná. O levantamento envolveu uma equipe de 16 pesquisadores e 13 outros profissionais da área de geociências.

O trabalho de seleção dos sítios geológicos levou três anos, de 2012 a 2015, e foi liderado por Maria da Glória Motta Garcia, professora no Instituto de Geociências (IGc) da USP e coordenadora do projeto de pesquisa apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Ela teve assessoria do geólogo português José Brilha, da Universidade do Minho, em Portugal.

Segundo o trabalho, o Mar Irati englobava o Estado de Goiás, passava por Minas, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, se estendendo ainda ao Uruguai, Paraguai e Norte da Argentina.

Mineração

Em Santa Rosa do Viterbo, foi o trabalho de extração em uma mina de calcário — da empresa mineradora PH7 — que revelou a existência do sítio arqueológico e viabilizou a pesquisa. “A retirada do calcário deixou exposta a estrutura rochosa que nos permitiu visualizar diversos estromatólitos gigantes, fundamentais para o estudo, que só são encontrados aqui e na Namíbia”, disse a paleontóloga Fresia Ricardi-Branco, da Unicamp, que participou do projeto.

Estromatólitos são estruturas sedimentares formadas pela atividade de microalgas em águas rasas. As algas vivem em “tapetes”, que crescem verticalmente ao longo de milhares de anos para formar estromatólitos, assim como ocorre com os recifes de coral. Eles estão em todo o mundo, mas quase sempre são pequenos. Em Santa Rosa do Viterbo não é assim. Lá há um excepcional campo de estromatólitos gigantes, com até três metros de altura. O local é único no planeta e um dos 142 geossítios selecionados para compor o Patrimônio Geológico do Estado de São Paulo.

“Campinas e toda a região estavam submersas nesse momento. Era um mar de pouca profundidade e que secou lentamente por milhões de anos. O clima na região era semi-árido, com vegetação, mas muito pouca quantidade de chuva.”

“Trata-se de um ótimo exemplo de ação da mão humana sustentável e que merece registro. Se a empresa não tivesse iniciado a extração, nós nunca teríamos feito a descoberta em Santa Rosa do Viterbo. A empresa ainda preserva a área e ajudou muito nos estudos”, disse.

O engenheiro de minas Marco Corneti, que trabalha para a PH7, diz que a área está aberta à visitação. “Aqui era um mar calmo, de águas limpas e claras. Os estromatólitos se formaram de algas que foram se depositando no fundo do mar.

Toda a formação calcária tem estromatólitos, mas no caso nosso é que são considerados gigantes e só existem outros semelhantes na Namíbia. Por isso é que são importantes para os pesquisadores do mundo todo. E também atrai outras pessoas interessadas”, afirmou.

Trabalho fez a classificação de sítios geológicos

O objetivo final do trabalho foi classificar os sítios geológicos pelo valor científico e risco de degradação, “de modo a estabelecer prioridades de manejamento e geoconservação”. Entre os 142 geossítios selecionados há locais importantes do ponto de vista tanto científico quanto turístico. Exemplos que aliam ambas as perspectivas são duas grutas. Uma delas é a caverna da Tapagem, popularmente conhecida como Caverna do Diabo, a maior gruta do Estado de São Paulo, no Parque Estadual de Jacupiranga, município de Eldorado, no Sul do Estado.

A segunda caverna fica na mesma região. Trata-se da Caverna Santana, no Parque Estadual do Alto Ribeira (Petar), uma das mais significativas do Brasil em razão dos seus espeleotemas (estalagmites, estalactites e formações rochosas similares). Outro geossítio de importância geomorfológica e turística é o Pico do Itapeva, de 2.025 metros de altura, na divisa de Pindamonhangaba e Campos do Jordão. A montanha, na Serra da Mantiqueira, é formada por granitos e gnaisses muito antigos, pré-cambrianos, portanto, com mais de 550 milhões de anos. Do seu cume avista-se o Vale do Paraíba e, ao fundo, a Serra do Mar, o que dá o toque turístico ao geossítio.

O Vale do Paraíba, aliás, é um vale de rifte, aberto por forças tectônicas que culminaram na formação da Serra da Mantiqueira e da Serra do Mar. No período Oligoceno, todo o vale era coberto por um paleolago, o lago Tremembé, que tem este nome por causa dos terrenos que o formam, pertencentes à formação geológica Tremembé. O geossítio a ser preservado, neste caso, fica na mina de argila da Sociedade Extrativa Santa Fé, em Tremembé. Trata-se do mais importante sítio fossilífero do período Paleógeno (entre 66 e 23 milhões de anos atrás) brasileiro. Foi nas argilas da mina que o doutor Herculano Alvarenga, diretor do Museu de História Natural de Taubaté, descobriu em 1982 os fósseis quase completos de uma ave do terror — terror birds, classificadas nas ordens Gastornithiformes e Cariamiformes —, o predador de topo do paleolago há 22 milhões de anos. (Da Agência Fapesp)

Glossário

Mesossaurus: Gênero extinto de pararépteis marinhos que viveram na Era Paleozoica. Quando adultos mediam cerca de um metro de comprimento.

Pangea: Continente único do Planeta Terra há cerca de 200 a 540 milhões  de anos, durante a era Paleozoica.

Estromatólito: Tipo de rocha fóssil formada por atividade de microrganismos em ambientes aquáticos que, quando acumulados no fundo de mares rasos, formam um recife.

Geossítio: Lugar de interesse para o estudo da geologia, notável sob o ponto de vista científico, didático ou turístico, seja pela singularidade de suas formações ou da natureza mineral do subsolo, seja por seu valor paleontológico.

Varvito: Rocha sedimentar originada durante a glaciação de rios e lagos. Apresenta camadas alternadas, formando um depósito sedimentar de estratificação rítmica (ritmito), sendo que cada varve corresponde a um ano.

Paleontologia: Ciência que estuda a vida do passado da Terra e seu desenvolvimento ao longo do tempo, além dos processos de integração da informação biológica na formação dos fósseis.

Geomorfologia: Ramo da Geologia que estuda as formas da superfície terrestre.

Em Itu, vestígios indicam sinais de um lago glacial

Outro registro de lagos, só que muito mais antigo, fica em Itu. O Parque do Varvito foi criado onde ficava a Pedreira Itu, onde por mais de um século se extraíram lajes de varvito para a pavimentação das calçadas da cidade.

O varvito é uma rocha sedimentar composta de argila e silte. Neste caso, a pedreira era o fundo de um lago glacial, quando São Paulo era coberto por geleiras em algum momento do Permo-Carbonífero.

No quesito geomorfológico, um dos geossítios selecionados foi o Morro do Diabo, no parque estadual homônimo, em Teodoro Sampaio, no extremo Oeste do Estado, divisa com o Paraná. O morro de 600 metros de altura é formado por depósitos de arenito das antigas dunas do deserto Caiuá.

Trata-se de um enorme deserto que cobria o Centro-sul do Brasil no período Jurássico, há 170 milhões de anos, quando a América do Sul encontrava-se colada à África e o nosso País ficava no centro do supercontinente Gondwana.

Segundo Maria da Glória Garcia, o levantamento seguiu a metodologia criada por José Brilha, por ele empregada na elaboração do inventário do Patrimônio Geológico de Portugal.

“Diversos países europeus estão realizando ou já possuem o inventário dos seus patrimônios geológicos, como é o caso de Portugal. No momento, Portugal e Espanha estão dando um passo além, selecionando o melhor dos seus inventários para estabelecer o Patrimônio Geológico da Península Ibérica”, disse.

No Brasil, o trabalho da Comissão Brasileira de Sítios Geológicos e Paleobiológicos (Sigep) merece destaque. Foram publicadas listas com algumas dezenas de geossítios no País, destacados na série Sítios Geológicos e Paleontológicos do Brasil, em que os pesquisadores nacionais sugeriram sítios geologicamente importantes.

“O inventário completo e sistemático, utilizando métodos bem definidos, dos geossítios do Estado de São Paulo é um trabalho pioneiro no Brasil e na América do Sul. Esperamos que, no futuro, mais Estados realizem o levantamento do seu patrimônio geológico, permitindo assim que, aos poucos, seja criado um inventário brasileiro”, disse.

Entre os próximos passos do trabalho as prioridades são passar os dados do inventário ao Instituto Geológico do Estado de São Paulo e criar um site na internet com informações dos 142 geossítios.

“A lista completa foi entregue apenas como relatório técnico à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). É importante que este inventário sirva de subsídio para que o patrimônio geológico seja incluído na gestão do território, seja na criação de leis adequadas de proteção, no geoturismo e na popularização da ciência”, disse Maria da Glória Garcia.

Os artigos The Inventory of Geological Heritage of the State of São Paulo, Brazil: Methodological Basis, Results and Perspectives , de Maria da Glória Motta Garcia e outros, e Inventory and Quantitative Assessment of Geosites and Geodiversity Sites: a Review, de José Brilha, foram publicados na revista Geoheritage. (Da Agência Fapesp)

SAIBA MAIS

O Aquífero Guarani é uma reserva subterrânea de água doce, considerada a maior do mundo, localizada na região Sul da América do Sul (partes do território do Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai). O aquífero ocupa uma extensão de terra de aproximadamente 1,2 milhão de quilômetros quadrados e tem capacidade para abastecer, de forma sustentável, cerca de 400 milhões de habitantes, com 43 trilhões de metros cúbicos de água doce por ano. A profundidade da reserva é de, aproximadamente, 1.500 metros. No Brasil, está presente no subsolo dos seguintes estados: São Paulo, Goiás, Mato Grosso, Mato-Grosso do Sul, Paraná, Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Numa possível falta de água doce no futuro, este recurso será de extrema importância para a humanidade.