Notícia

Jornal do Commercio (PE)

Interior de São Paulo é celeiro da ciência

Publicado em 21 outubro 2007

Por Eduardo Nunomura, Agência Estado

Responsável por um quarto da produção científica nacional, região fica com mais da metade dos financiamentos federais destinados ao Estado e publica tanto quanto Espanha, Irlanda ou Canadá


São Carlos, Campinas, Piracicaba, Bauru e Ribeirão Preto têm sozinhas mais mestres e doutores a cada 100 mil habitantes do que na capital paulista. Nas cidades do entorno de Araraquara, há quatro vezes mais cientistas. O interior de São Paulo é responsável por um quarto da produção científica nacional e abocanha mais da metade dos financiamentos federais destinados ao Estado.

Das universidades e dos institutos nesta região, sai o conhecimento que abastece e cria empresas tecnológicas. Três em cada quatro projetos de inovação aprovados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) são de fábricas com sotaque caipira. Graças a esses números, São Paulo publica hoje tanto quanto Espanha, Austrália, Irlanda ou Canadá.

"A aprovação dos projetos é em função da demanda, o que indica uma vitalidade intensa do interior", diz o diretor-científico da Fapesp, Carlos Henrique de Brito Cruz. "O interior está bem articulado e competitivo em relação à capital", acrescenta Marco Antonio Zago, presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Os dois são cientistas, um de Campinas e o outro de Ribeirão Preto.

Inovação é a palavra da vez nas pesquisas acadêmicas do interior. Inventos práticos, necessários e alguns com cheiro de revolução. No Centro de Pesquisa em Óptica e Fotônica, do Instituto de Física da Universidade de São Paulo, em São Carlos, um novo equipamento diagnostica tumores sem precisar de biópsia. O aparelho já está em teste em Ribeirão Preto.


Conhecimento

Com o mesmo princípio, surgem outros produtos de fototerapia dinâmica, como os semáforos à prova da falta de energia e o aparelho para detectar e tratar o HPV e alguns tipos de câncer. Por trás das invenções, está o dinâmico e versátil físico Vanderlei Salvador Bagnato e uma equipe de cem pesquisadores. Foram eles os primeiros latino-americanos a realizarem a condensação de Bose-Einstein. Um gás é esfriado, próximo do zero absoluto (0 grau Kelvin ou -273,15 graus Celsius), quando ocorre a condensação. Entender o que se passa nesse momento permitirá desvendar a natureza quântica da matéria.

"A sociedade me dá dinheiro para ver o átomo e tenho que mostrar para que serve isso. Serve para curar o câncer", explica Bagnato.

Nos últimos seis anos, seu laboratório produziu 28 patentes e destas, 12 viraram produtos. Qualquer experimento tem de mirar em educação ou saúde, mesmo que leve tempo. Os LEDs usados no semáforo antiblecaute ficaram prontos após seis anos. Outros projetos iam sendo tocados juntos para satisfazer à demanda por publicação de artigos, um dos fatores de avaliação dos pesquisadores. "O País tem de dar valor ao risco científico, senão vamos estudar só o conhecido e seremos apêndices dos outros."

O físico Luís Alberto Vieira de Carvalho, 37 anos, formado em São Carlos, com doutorado em Berkeley e pós-doutorado em Rochester, segue a linha do coordenador. Quer inovar naquilo que o Brasil não inova. Criou o campímetro portátil para exames de glaucoma nos rincões. O aparelho estrangeiro sai por R$ 80 mil. O nacional custa um décimo desse valor.


Pequenas empresas nascem nos câmpus

Na última rodada de projetos financiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp), o interior paulista reinou absoluto. De 724 pequenas empresas de base tecnológica, 540 eram de fora da capital.

Campinas (com 127 projetos), São Carlos (97) e São José dos Campos (52) foram as cidades com o maior número de aprovações. A boa novidade é que a maioria delas teve como berço universidades ou institutos de pesquisa. É o conhecimento que antes mofava nas bibliotecas indo parar na linha de montagem de fábricas.

A Universidade Estadual de Campibas (Unicamp) é o maior depositante de pedidos de patentes do País, quando se esperaria que companhias ocupassem o primeiro lugar. No Brasil, pesquisa e desenvolvimento é atividade estranha às empresas privadas. No mundo desenvolvido, são rotina para quem quer estar à frente da concorrência. "Universidade não faz patente por milhares. Uma top (de excelência) faz por centenas e uma boa por dezenas. Já publicações científicas nas universidades são por milhares", explica o diretor-científico da Fapesp, Carlos Henrique de Brito Cruz.

Criada em 2003, a Inova Unicamp, agência de inovação tecnológica, é responsável pela gestão dos processos de transferência de tecnologia e de propriedade intelectual. Até o ano passado, foram requeridas 460 patentes, 48 foram concedidas e 45, licenciadas. A eficácia do trabalho da agência resultou no primeiro medicamento comercial surgido de uma pesquisa da universidade. O produto à base de isoflavona da soja reduz os efeitos da menopausa e foi o único dos oito fármacos licenciados pela Inova que chegou às farmácias, graças a uma parceria com a Steviafarma Industrial.

A filosofia da Unicamp e de outras universidades interioranas contaminou. Pesquisadores se sentiram seguros a largar o direito futuro à aposentadoria pública para criar empresas com todos os riscos incluídos. "Uma empresa como a minha é bancada pelo governo num país como os Estados Unidos. Isso reduz o risco", argumenta o empresário José Ellis Ripper, dono da AsGa, de Paulínia, especializada em soluções para telecomunicações. "Desafio qualquer um a encontrar um país que se desenvolveu sem ajuda do governo."


Efervescência fomenta criação de mais institutos

A efervescência científica tem ajudado na criação de outros institutos de pesquisa e empresas de base tecnológica. Conseqüência natural da demanda que surge com o crescente número de pesquisadores formados nas universidades do interior de São Paulo. Um bom exemplo é a Embrapa Instrumentação, de São Carlos. Físicos como Sérgio Mascarenhas, Paulo Cruvinel, Paulo Henrique Valim e Silvio Crestana, atual presidente da Embrapa nacional, se juntaram em 1982 para desenvolver pesquisas para o setor agropecuário. Sem laboratórios, os primeiros estudos ocorreram na própria Universidade de São Paulo (USP).

A Embrapa Instrumentação já produziu 75 patentes, marcas e softwares, um terço do que foi feito pelo órgão nacional, que possui outras 35 unidades em todo o País. Dos seus 25 pesquisadores, 24 têm doutorado e um está no doutoramento. De seus 200 estagiários, os universitários são maioria. Hoje, são 55 projetos em andamento, que contam com R$ 6 milhões de verbas da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep).

Um projeto interessante é o desenvolvido pelo pesquisador Luiz Alberto Colnago, que criou um método de análise em escala de oleaginosas como soja, algodão, girassol e dendê. O Brasil vive a febre do biodiesel, mas faltam estudos que digam quais as melhores opções para sua produção. O País só vai alcançar os esperados 100 bilhões de litros de biodiesel, em 2035, se conseguir responder à questão. Colnago acredita que seu aparelho, montado a partir de um espectrômetro e um tomógrafo, vai ajudar.

O princípio é simples: uma esteira giratória que passa pelos dois equipamentos detecta e separa as melhores dentro das milhões de sementes analisadas.

Washington Luiz de Barros Mello é outro pesquisador da linha "Professor Pardal". Um dia viu um globo de vidro sendo retirado de um poste. Imaginou a peça não como sucata, mas uma redoma que, se embrulhada em papel-alumínio, seria capaz de simular o sol. Foi algumas vezes à oficina para concluir a construção de seu aparelho fototérmico. Com ele, criou um método para livrar as frutas de fungos e, ao mesmo tempo, um analisador de líquidos.