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FGV

Interação universidade- empresa ainda é incipiente e problemática

Publicado em 11 junho 2008

Por Celira Caparica

As parcerias entre universidades e empresas no Brasil contemplam uma pequena parcela da comunidade científica nacional, afirma a economista Márcia Siqueira Rapini, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A pesquisa de Rapini, feita com dados do Diretório dos Grupos de Pesquisa do CNPq, mostra que os conhecimentos e serviços que as empresas têm absorvido das universidades são voltados para atividades rotineiras, de pouca complexidade e sofisticação.

Outro problema é que a iniciativa privada brasileira não costuma investir em pesquisa, como apurou o especialista em economia do desenvolvimento, Ruy Quadros de Carvalho, do Instituto de Geociências (IG) da Unicamp. Seu levantamento mostrou que somente 16% das empresas estudadas por ele realizavam pesquisa tecnológica de maneira sistemática. É nessa pequena porcentagem que estão as melhores parcerias de pesquisa entre a academia e o setor privado e, mesmo nesses casos, as dificuldades ainda são grandes.

A explicação disso, segundo a economista Sandra de Negraes Brisolla, especialista em políticas públicas, também do IG da Unicamp, está no processo de passagem de pesquisa para produto que é difícil e caro. O problema é que a inovação não se limita simplesmente a pegar uma idéia que existe na universidade e aplicar no mercado. Mesmo que uma empresa decida desenvolver um produto que foi idealizado na universidade, é preciso que o projeto passe algum tempo dentro da empresa para que ele possa ser adaptado. Também é necessário que a empresa tenha uma infra-estrutura mínima, para isso, são fundamentais os investimentos em P&D.

Brisolla aponta outras dificuldades para uma interação saudável entre universidade e empresa. Segundo ela, as companhias estão acostumadas a trazer os processos tecnológicos prontos e usar as universidades para fazer adaptações, como por exemplo, substituir materiais caros por outros mais baratos. Muitas delas precisam finalizar seus projetos e, para isso, usam a capacidade científica instalada da universidade para fazer testes e ensaios, ou ainda usam a academia como meio mais econômico de obtenção de uma certificação. “Entretanto, a universidade não ganha nada, não avança nada, na verdade é o uso dos recursos públicos aplicados em pesquisas, pelas empresas”, denuncia Brisolla.

O número de doutores que atuam em P&D, nas empresas analisadas pela pesquisadora, é ainda considerado irrisório comparado com o número desses pós-graduados que as empresas contratam no exterior, onde são mais de mil. Na pesquisa foram analisadas gigantes como a norte-americana IBM e a francesa Rhodia.

Mesmo nas empresas mais arrojadas em P&D, as relações com a universidade não são as ideais. A química Anita Marsaioli, do Instituto de Química da Unicamp, que tem uma parceria com a Natura, empresa do setor de cosméticos, aponta a falta de tempo como um outro fator limitante. Sua orientanda, a também química Carla Porto aproveitou um programa piloto de incentivo à pós-graduação da empresa, pelo qual ela tem 20% do expediente semanal para se dedicar à pesquisa. “O tempo não é suficiente, ela precisa utilizar o período noturno e os seus fins de semana para trabalhar no projeto de doutorado”, afirma Marsaioli.

Entretanto, para Porto, esse não é o único problema. “Os gestores da empresa e a universidade têm visões muito divergentes sobre o meu projeto”. Uma dessas divergências é a exigência da empresa de aplicabilidade e abrangência dos resultados. Isso exige uma maior preocupação com a validação estatística dos resultados, o que nem sempre é exigido pela universidade. O interessante é que esses conflitos acontecem em uma empresa que é empenhada em fazer pesquisa de maneira contínua e sistemática. Esse fator é apontado pelo PINTEC como facilitador da interação universidade-empresa.

Sandra Brisolla, no entanto, também cita exemplos bem sucedidos de interação universidade-empresa, como a parceria da Embraer, terceira maior fabricante mundial de aviões civis e que é contumaz recebedora de financiamentos da Fapesp, a agência de fomento à pesquisa do estado de São Paul, com o ITA, o Instituto de Tecnologia da Aeronáutica. A especialista também lembra da Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias (Embrapa), que sozinha recebe 20% dos recursos de P&D do governo federal e tem grande responsabilidade sobre o desenvolvimento da produção rural brasileira.

Saiba mais sobre a interação da universidade e as empresas: http://inovacao.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1808-23942007000200009&lng=es&nrm=iso