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Interação com empresas aumenta impacto social e econômico de pesquisas feitas na universidade

Publicado em 27 novembro 2019

Por Agência FAPESP

As universidades públicas brasileiras cumprem com excelência as missões de prover educação superior de qualidade e promover pesquisas que contribuem para o avanço do conhecimento e o desenvolvimento do país. Enfrentam, contudo, o desafio de aumentar o impacto científico, econômico e social de sua produção acadêmica.

A avaliação foi feita por participantes do evento “Diálogos pelo Brasil – o impacto intelectual, social e econômico da universidade no Brasil”, promovido pela Academia Brasileira de Ciências (ABC) no dia 12 de novembro, na FAPESP.

“É na universidade que está o estoque de conhecimento para ajudar a sociedade a prosperar, gerar novas empresas e empregos ou descobrir a cura de doenças, por exemplo”, disse Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da FAPESP.

“É errado querer tornar a universidade um apêndice de governos ou de empresas. Ela pode e já contribui com esses setores, fazendo pesquisa básica e aplicada e, além disso, e talvez mais que isso, formando as pessoas que ajudam o país a funcionar melhor e a se desenvolver. Essa é a maior contribuição da universidade à sociedade brasileira”, afirmou Brito Cruz.

Juntas, as seis universidades públicas paulistas – as universidades de São Paulo (USP), Estadual Paulista (Unesp), Estadual de Campinas (Unicamp) e as federais de São Paulo (Unifesp), de São Carlos (UFSCar) e do ABC (UFABC) – graduam mais de 20 mil estudantes e titulam 7,3 mil pós-graduandos por ano, destacou Marco Antônio Zago, presidente da FAPESP.

“Esses jovens sustentam, há décadas, o desenvolvimento social, a atividade profissional moderna e competitiva e a liderança econômica de São Paulo e também se espalham para o restante do país”, disse. “Além disso, as universidades formam lideranças políticas, literatos, artistas, jornalistas, empresários de destaque nacional, políticos e arquitetos que moldam nossas cidades”, afirmou Zago.

No campo da pesquisa, o diretor científico da FAPESP apresentou dados preliminares de um estudo que acompanha a carreira de pesquisa em empresas de quase 2 mil cientistas que tiveram Bolsa da Fundação e atuam hoje no setor privado. Segundo o levantamento, dois terços desses pesquisadores foram formados em oito universidades públicas: USP, Unesp, Unicamp, UFSCar, Unifesp, a Universidade Estadual de Maringá (UEM) e as federais do Paraná (UFPR) e de Uberlândia (UFU).

“Isso corrobora a constatação de que treinar e educar pessoas são atividades fundamentais das universidades públicas. Quando uma empresa no Brasil precisa de alguém para fazer pesquisa procura alguém que estudou em algumas dessas universidades públicas porque sabe que eles serão capazes de solucionar problemas que a empresa enfrenta no dia a dia”, avaliou Brito Cruz.

Além de contribuir para formar os quadros de pesquisadores de companhias estabelecidas no país, as universidades de pesquisa brasileiras também contribuem para a criação de novas empresas, apontou Brito Cruz.

A Unicamp, por exemplo, contabiliza 815 “empresas-filhas” – criadas por estudantes ou pesquisadores egressos da universidade. Esse conjunto de empresas tem faturamento anual de R$ 7,9 bilhões – equivalente a quase quatro vezes o orçamento anual da Unicamp. Os dados são do último levantamento divulgado pela agência de inovação da instituição, a Inova Unicamp.

“Com muito menos recursos, a Unicamp, que é a universidade que mais deposita pedidos de patentes no Brasil, tem criado mais empresas que o MIT [Massachusetts Institute of Technology]”, disse Marcelo Knobel, reitor da universidade.

Artigos em coautoria

A despeito dos ataques que sofrem, as universidades de pesquisa brasileiras têm atuado em colaboração com empresas, o que pode ser medido pelo número de artigos publicados que têm como coautores cientistas do meio acadêmico e do meio empresarial, apontou Brito Cruz.

Um levantamento feito na base de dados Web of Science indica que o número de artigos científicos de pesquisadores de universidades brasileiras em coautoria com empresas tem aumentado 14% ao ano desde 1980.

O ponto fraco, destacou Brito, é que a parceria ainda se concentra em apenas 10 universidades: USP, Unesp, Unicamp, Unifesp, UFRJ, UFPR e as universidades federais do Rio Grande do Sul (UFRGS), de Minas Gerais (UFMG), de Viçosa (UFV) e de Santa Catarina (UFSC) contribuem com 72% desses artigos em coautoria.

“Isso representa um desafio para as diversas outras universidades de pesquisa no Brasil: aumentar a interação com empresas. Cabe avaliar como essa dezena de universidades poderia aprender como levar as outras a terem mais interação com empresas em pesquisa, acelerando o desenvolvimento tecnológico.”, ponderou Brito Cruz.

Uma ironia da situação, destacada por Brito, é que justamente as universidadse que mais fazem e que demonstram indicadores de interação competitivos com as dos EUA e Europa, constumam ser a mais acerbamente criticadas por não interagirem.

Diálogo com o Legislativo

A diretora de inovação da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Gianna Sagazzion, defendeu a parceria entre universidades e empresas para melhorar a posição do Brasil nos rankings internacionais de inovação.

“O Brasil caiu 19 posições nesses rankings nos últimos anos”, afirmou. “É preciso reconhecer que investimentos em ciência, tecnologia e inovação devem ser prioridade e, para isso, a indústria está intensificando o diálogo com o Legislativo”, disse.

Gilberto Peralta, membro do Conselho de Administração da Azul Linhas Aéreas, ponderou que o Brasil só não caiu mais posições nos rankings de inovação por conta do desempenho da Embrapa, Petrobras e Embraer. Essas duas últimas estão entre as que possuem o maior número de artigos científicos em coautoria com universidades no país.

A pesquisa nas empresas

Na avaliação de Brito Cruz, há uma prédisposição no debate sobre o papel das universidades no Brasil segundo a qual essas instituições são os únicos lugares de pesquisa e isso acaba por criar demandas impossíveis de serem atendidas.

As universidades fazem, de fato, muita pesquisa básica e aplicada, mas também há outras instituições que integram o sistema de pesquisa e igualmente realizam investigações orientadas a determinadas áreas. Ele cita o exemplo de institutos de pesquisa com missão dirigida,como o Instituto Agronômico (IAC) e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). “E, mais central ainda para a inovação, há, ou deveria haver, também pesquisa em empresas, onde são feitos desenvolvimentos experimentais e onde a pesquisa para inovação realmente precisa acontecer”, apontou Brito Cruz.

“No Brasil, menos de 20% dos pesquisadores estão trabalhando em empresas, enquanto em países como os Estados Unidos e a Coreia do Sul o percentual é proximo a 80% do total.”, comparou.

“O problema de ter um maior número de pesquisadores em universidades no país faz com que a sociedade se esqueça que é na empresa que deve ser feito o desenvolvimento tecnológico com objetivo econômico e passe a cobrar isso das universidades, em vez de se buscar políticas para que haja mais pesquisadores trabalhando nas empresas, em seus departamentos de P&D”, avaliou.

Essa cobrança das universidades tem provocado uma ampliação dos eixos de sustentação dessas instituições no país, até então apoiado no tripé composto por ensino, pesquisa e extensão, apontou Débora Foguel, professora da UFRJ. “Talvez hoje o modelo de atuação das universidades brasileiras esteja se transformando em um ‘quadripé’, ao incluir o componente da inovação”, disse Foguel.

Pesquisa Multidisciplinar

A fixação por estimular a inovação na universidade também faz com que a pesquisa básica seja subdimensionada e pouco valorizada. As Ciências Humanas e Sociais ficam à margem desse processo, embora algumas vezes se fale em inovação social, apontou a pesquisadora.

Essa área do conhecimento ganharia maior projeção se investisse na pesquisa multidisciplinar em temas mobilizadores como megacidades, migrações internacionais, desigualdades ou até mesmo questões relacionadas à inteligência artificial, avaliou a socióloga Elisa Reis, da ABC. “As pesquisas em Ciências Sociais também deveriam envolver um número maior de pesquisadores em torno de grandes projetos. O tamanho médio dos grupos de pesquisa é de três pessoas, o que pulveriza os recursos”, afirmou.

Na avaliação de Helena Bonciani Nader, professora da Unifesp e vice-presidente da ABC, talvez nem todas as universidades brasileiras deveriam ter como meta se transformar em universidades de pesquisa.“Parte dessas universidades poderia ser um modelo misto, a exemplo da Califórnia, nos Estados Unidos [voltado a capacitar profissionais de base do ensino superior], que é bastante interessante”, afirmou.

Também participaram dos debates Dácio Roberto Matheus, reitor da UFABC, Renato Lessa e Luis Manuel Rebelo Fernandes, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), e Luiz Roberto Liza Curi, presidente do Conselho Nacional de Educação (CNE).

A discussão ocorreu no âmbito de uma série de encontros realizados pela ABC em diferentes regiões do país com o objetivo de discutir os desafios que o Brasil enfrenta nos campos econômico, social e político sob a perspectiva das comunidades científica e acadêmica do país.