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TeSE - Tendências em Serviços Ecossistêmicos

Intensificação do uso do solo leva às mesmas espécies em todos os lugares

Publicado em 01 dezembro 2016

O uso intensivo de campos para cultivo ou pastagens leva não apenas à diminuição da riqueza local de espécies – a paisagem também se torna mais monótona, até o ponto em que as mesmas espécies sobrevivem em todos os locais.  Por causa disto, serviços como o controle de pragas ou a formação do solo para produção de alimentos deixam de ser fornecidos pela natureza.  Em um projeto liderado pelos pesquisadores Wolfgang W. Weisser da Universidade Técnica de Munique (TUM) e Markus Fischer da Universidade de Berna, 300 cientistas estudaram pela primeira vez as consequências da intensificação no uso do solo em muitos grupos de espécies no nível da paisagem geográfica.  Esse trabalho contou com a colaboração de dois cientistas brasileiros do Instituto de Biologia da Unicamp, Thomas Lewinsohn e Leonardo Ré Jorge, que desde 2012 colaboram com o grupo de Ecologia Terrestre por meio de vários convênios financiados pela agência DAAD, Fapesp e por ambas as universidades.

Geralmente, campos naturais são diferentes entre si, e cada espécie é capaz de encontrar um ambiente adequado em diferentes localidades.  Quando o solo é usado intensivamente (por pastejo, fertilização ou corte do pasto), poucas espécies de plantas e animais se mantêm, o que por sua vez gera a perda progressiva de mais espécies.  Estudos anteriores mostraram esse efeito em certos grupos de seres vivos, como aves, em determinados habitats.  No entanto, esse efeito local poderia ser ainda maior ao se considerar uma região mais extensa e toda a diversidade da vida – desde organismos unicelulares até vertebrados.

Essa questão foi investigada com um conjunto especialmente extenso de dados, em um artigo publicado na Nature de 30 de novembro de 2016.  Pela primeira vez, esse estudo demonstrou que o uso intensificado do solo levou todos os campos a se tornarem mais semelhantes, fornecendo habitats para menos espécies, na maioria dos grupos estudados, um processo conhecido como “homogeneização biótica”.

“Os dados resultaram do projeto “Biodiversity Exploratories”, financiado pela Fundação Alemã de Pesquisa (DFG), e foram coletados em 150 áreas de campos, em três regiões da Alemanha, a partir de 2008,” de acordo com o professor Wolfgang Weisser, do Grupo de Pesquisa em Ecologia Terrestre da TUM (Munique, Alemanha), e o professor Markus Fischer, do Instituto de Ciências Vegetais de Berna (Suiça) que co-lideraram o projeto.  Segundo eles, “esse projeto é um dos mais completos para a pesquisa ecológica de campo em toda a Europa“.

Quatro mil espécies analisadas

As áreas pesquisadas desde 2006 pertencem a três regiões distintas na Alemanha, bastante diferentes em clima, geologia e topografia.  Apesar dessas diferenças, esses campos naturais são utilizados pelos produtores rurais de forma semelhante, típica da Europa.  Um total de mais de quatro mil espécies foi analisado, usando métodos estatísticos avançados para estudar o efeito da variação de intensidade no uso do solo (seja por pastejo, fertilização ou corte do pasto) sobre as diferenças de composição de espécies entre locais.

Um importante aspecto desse estudo foi a inclusão de organismos de solo, como bactérias, fungos e centopeias.  No total, 12 grupos de espécies foram considerados, incluindo organismos de toda a cadeia alimentar e tanto os que vivem sobre como dentro do solo.

Mesmo o uso moderado do solo provoca a homogeneização de espécies

Os resultados mostram que não fez muita diferença se a intensificação de uso era moderada ou alta.  “De acordo com nossas observações, a uniformização de espécies não aumenta proporcionalmente com a intensificação de uso.  Pelo contrário, até mesmo uma intensidade moderada de uso dos campos faz com que um mesmo grupo de espécies, com menores exigências de qualidade ambiental, domine as comunidades em todas as regiões”, disse o professor Martin Gossner, pesquisador do Instituto Federal de Pesquisa WSL na Suíça e líder do estudo publicado na Nature.

“Outra resultado importante é que a uniformização das espécies ocorre também entre paisagens, reduzindo a diversidade de espécies de todos os grupos tanto no nível regional como nacional”, disse Gossner – “na verdade, pensamos que essa consequência da intensificação do uso do solo é até mais negativa e preocupante do que a própria perda local de espécies”.  Segundo Thomas Lewinsohn, um dos autores brasileiros do artigo, “não temos ainda no Brasil nenhuma pesquisa com essa abrangência ampla de biodiversidade.  Embora os resultados não possam ser extrapolado para um país de ecologia e práticas agropecuárias bastante diferentes, é bem provável que o problema central que detectamos também se manifeste em nosso país”.

Menos interações de espécies alteram o funcionamento dos ecossistemas

Uma importante conclusão do estudo é que áreas de campo com pouco uso humano são fundamentais para proteger a biodiversidade, já que a perda de espécies também provoca uma perda de interações entre espécies.  É essa perda das interações que “em última análise causa as mudanças nos processos ecossistêmicos”, segundo Gossner.  Só quando o maior número possível de espécies encontra condições para se manter e interagir no ambiente é que todos os “serviços ecossistêmicos”, que são processos ecológicos que asseguram ou aumentam o bem-estar humano, conseguem ser mantidos de forma sustentável.

Participação da Unicamp

Os participantes brasileiros, ambos do Instituto de Biologia da Unicamp, colaboraram na análise dos dados para esse trabalho.  Thomas Lewinsohn foi um dos autores principais do artigo da Nature, tendo participado da organização e redação do artigo, durante sua estada em abril-maio de 2016, pela Cátedra “August-Wilhelm-Scheer Professor“ da Universidade Técnica de Munique.  A colaboração entre estes grupos foi iniciada em 2012, com apoio do DAAD (Serviço de Intercâmbio Acadêmico da Alemanha) e da Universidade Técnica de Munique na Alemanha, e da Unicamp e Fapesp no Brasil.

Esta semana, Lewinsohn foi também homenageado na Universidade Técnica de Munique com o título de “TUM Ambassador“, junto com o professor Edson Bim, também da Unicamp, e de sete outros pesquisadores de diferentes países.  O título é conferido anualmente pela Universidade Técnica de Munique a cientistas internacionais, como reconhecimento por sua contribuição destacada para pesquisa e inovação de ponta.

(Traduzido e adaptado do release distribuído pela Assessoria de Imprensa da TUM, por Thomas Lewinsohn e Leonardo Ré Jorge)

Publicação

Martin M. Gossner et al: Land-use intensification causes multitrophic homogenization of grassland communities, Nature 2016.

DOI: doi:10.1038/nature20575

Artigo da Nature pode ser acessado aqui.

Edições / 5554, 1 de dezembro de 2016 /

Jornal da Ciência (SBPC)