Notícia

Gazeta Mercantil

Inteligência como fator estratégico

Publicado em 15 janeiro 2002

Por Ruy Martins Altenfelder Silva*
No limiar dos anos 90, quando a globalização começava a radicalizar o imperativo de competitividade em todos os mercados, estabelecendo novas imposições à sobrevivência das empresas, o escritor alemão, Robert Kurz, no livro "Colapso da Modernização", alertava para um aspecto fundamental: "A concorrência no mercado mundial torna obrigatório um novo padrão de produtividade e qualidade, configurado pela combinação de ciência, tecnologia avançada e grandes investimentos". De fato, as empresas passaram a perseguir padrões de produtividade. Foi um período muito fértil de criatividade e transformação, que exigiu a mobilização e o emprego do crescimento. Assim, tudo indica não Ter sido obra do acaso o fato de, pela primeira vez na história da teoria econômica sobre o desenvolvimento, o conhecimento torna-se elemento explícito numa relação de causa e efeito. Abordagem nesse sentido apareceu, a partir de 1990, nas "Novas Teorias de Crescimento", formuladas por Paul Romer e seus colaboradores (Chicago, EUA). A té então, o conhecimento era considerado variável exógena à teoria econômica. Na prática, as grandes mudanças que delimitaram etapas no processo de evolução sempre contaram com o suporte da tecnologia, mas se calcavam muito empirismo, gerando conhecimento posterior. Agora, o conhecimento antecede ao fato, ao gesto, ao investimento, 'criação de uma empresa ou a um grande negócio internacional. A globalização foi, efetivamente, uma clara e contundente mudança cultural, na qual o conhecimento se transformou em bem de incomensurável valor. Nesse aspecto, nenhuma novidade, pois as distintas fases da evolução humana sempre se basearam em profundas metamorfoses da cultura, do comportamento e atitudes dos indivíduos e da sociedade. As transformações ocorridas entre os séculos XIV e XVII, marcadas pelo Mercantilismo e o Renascimento, contaram com a tecnologia "inovadora" da navegação, dentre outros inventos rudimentares, mas somente se potencializaram quando o advento do tipo móvel para impressão, criado pelo alemão Johann Gutenberg, em 1448, possibilitou a multiplicação de um novo padrão de comportamento na sociedade européia. A revolução industrial, desencadeada em 1760, na Inglaterra, viabilizou-se tecnicamente pela máquina a vapor, o tear mecânico e outros instrumentos, mas aconteceu, de fato, em decorrência da profunda mudança cultural, representada pelo fortalecimento da burguesia, do êxodo rural e do conseqüente nascimento da mão-de-obra operária. A Segunda revolução industrial, a partir de 1870, nos Estados Unidos, Japão, França, Alemanha, Itália, Bélgica e Holanda, foi suportada tecnicamente por novas fontes de energia, produtos químicos, como o plástico, o aço e, sobretudo, a linha de montagem de Henry Ford. Porém, refletiu o crescimento demográfico, a necessidade de ampliar a oferta de emprego e, principalmente, a transformação das sociedades e das nações, que começavam a abandonar o hermetismo, redescobrindo o comércio exterior como fonte de novos mercados. Agora, uma das mudanças culturais mais importantes impostas pela globalização é exatamente a valorização do conhecimento. No Brasil já há exemplos demonstrando isso: itens destacados de nossa pauta de exportações, representando mais de US$ 2 bilhões/ano, são as aeronaves da Embraer, em cuja base industrial está o conhecimento dos engenheiros formados pelo Instituto de Tecnologia Aeronáutica (ITA), em São José dos campos, no Vale do Paraíba (SP); a soja nacional, a de maior produtividade no mundo, qualidade resultante do conhecimento desenvolvido pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), gera divisas anuais de US$ 3 bilhões. Cada vez mais é necessário apoiar a pesquisa e a produção de conhecimento, direção na qual o Brasil caminha, como pode ser observado em São Paulo, onde USP, Unicamp, Unesp, institutos de pesquisas estaduais, como por exemplo, o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) e o próprio ITA, dentre outros, constituem-se em centros avançados de pesquisas. Também deve ser destacado o projeto Genoma, liderado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fabesp). Esses são apenas alguns exemplos e resultados de um avanço significativo: a produção científica brasileira quintuplicou em relação à média da década de 80. Em 2001, o País formou mais de 6 mil doutores e a pós-graduação evoluiu também qualitativamente. Esses indicadores não significam que atingimos o estágio adequado. Há muito o que avançar. Para isso, porém, é necessário desmistificar antigo e inexplicável tabu, de que as empresas estão muito distantes das universidades e institutos de pesquisa. É preciso conceituar corretamente essa relação, sem preconceitos. A ciência é um bem público. Ou seja, o Estado não pode e não deve omitir-se no seu desenvolvimento; para que a ciência e o conhecimento produzam desenvolvimento econômico e social, é necessário que as empresas deles se apropriem, transformando-os em processos tecnológicos. A iniciativa privada deve valorizar os detentores do conhecimento, ampliando o número de cientistas em seus quadros de recursos humanos. Nos Estados Unidos, há 800 mil cientistas fazendo pesquisa em empresas; na Coréia do Sul, 75 mil; no Brasil, menos de 10 mil. Resultado: a Coréia registra 3.500 patentes por ano nos EUA e o Brasil, apenas 100. A grande mudança cultural representada pela globalização tornou o conhecimento inexoravelmente visível como elemento catalisador do novo padrão mundial de produtividade e qualidade. Isso implica, necessariamente, avanço nas planilhas de qualquer investimento ou planejamento estratégico empresarial, nas quais deve estar sempre presente um item imprescindível: inteligência. * Secretário do estado de São Paulo de Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico e presidente do Instituto Roberto Simonsen.