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Inteligência artificial para o desenvolvimento: hora de virar o jogo no Brasil

Publicado em 08 agosto 2021

Negar à população o acesso à tecnologia significa condenar o país ao atraso

A recente publicação da Estratégia Brasileira de Inteligência Artificial[1] põe em evidência um debate que não pode mais ser colocado em segundo plano no Brasil: a importância da inteligência artificial (IA) para o desenvolvimento do país.

Não há uma definição única para essa tecnologia. De modo genérico, um sistema computacional de IA executa ações normalmente associadas à inteligência humana, operando com diversos níveis de autonomia, a fim de realizar previsões, recomendações ou decisões que influenciam ambientes reais ou virtuais.[2]

A técnica de IA que tem obtido os resultados mais expressivos nos últimos anos é a aprendizagem profunda (deep learning), que utiliza redes neurais multicamadas para as mais diversas funções. Essas redes funcionam a partir de uma quantidade imensa de dados processados por algoritmos que são, basicamente, um conjunto de regras, operações matemáticas e procedimentos lógicos que resolvem um problema ou levam a uma decisão.

Mas por que essa tecnologia é tão inovadora a ponto de se transformar em questão crucial para o desenvolvimento de qualquer país hoje em dia? A razão fundamental reside no fato de que a IA é uma tecnologia de propósito geral, como a eletricidade ou a própria computação. Tecnologias desse tipo afetam todas as demais, causando um impacto enorme na produção de riqueza e nas relações sociais.

A IA tem potencial para aumentar substancialmente a produtividade nos mais variados setores econômicos e contribuir para o crescimento do PIB. Pode igualmente proporcionar avanços na pesquisa científica e abrir um campo inteiramente novo no desempenho de tarefas cognitivas que antes eram prerrogativa da espécie humana.

Considerando a relevância do tema, a OCDE, por meio do seu Conselho de Inteligência Artificial, recomendou em 2019 uma série de ações que podem servir de base para a formulação de políticas nacionais e de cooperação internacional em relação à IA. Foram sugeridas cinco ações políticas específicas:

(1) investimento público e privado de longo prazo em pesquisa e desenvolvimento de IA, com especial atenção para as pequenas e médias empresas;

(2) promoção de um ecossistema digital para a IA, o que supõe a construção de uma infraestrutura que torne possível o compartilhamento adequado de conhecimentos relativos à tecnologia;

(3) criação de um ambiente regulatório favorável para a IA, que seja capaz de assegurar uma transição ágil do estágio de pesquisa e desenvolvimento para a implantação e operação de sistemas de IA, além de estimular a inovação e a competição;

(4) capacitação humana e preparação para a transformação do mercado de trabalho, a fim de que o Estado e a sociedade civil apoiem iniciativas de treinamento ao longo da vida profissional, fomento ao empreendedorismo, apoio às pessoas afetadas por essas mudanças e acesso a novas oportunidades no mercado de trabalho; e

(5) cooperação internacional para uma IA confiável, o que inclui o trabalho conjunto em fóruns globais e regionais para compartilhar conhecimentos. Essa cooperação além-fronteiras será de fato essencial para que o desenvolvimento da IA ocorra de acordo com padrões técnicos globais, baseados no consenso entre as múltiplas partes interessadas.

Tendo em vista o impacto duradouro da IA sobre a economia mundial e a rapidez com que sua adoção vem revolucionando o mundo dos negócios, não há mais como ignorar essas tendências. No século XXI, aumentará de forma estrutural a distância entre os países que abraçaram logo no início essas inovações e aqueles que ficaram para trás.

Dotado de uma economia diversificada e de uma capacidade científico-tecnológica de primeira linha entre os países em desenvolvimento, o Brasil deve dar prioridade e incrementar seus investimentos em IA, sob pena de perder competitividade e permanecer à margem dessas transformações.

Os extraordinários benefícios econômicos e sociais que a IA pode trazer incluem sua capacidade de aprimorar o potencial humano para identificar padrões, prever eventos e chegar a resultados mais eficientes. As atividades humanas de modo geral passam por um processo de tomada de decisão.

A IA processa mais rapidamente e de modo mais preciso as inúmeras variáveis presentes antes de propor um encaminhamento. Além disso, com o desenvolvimento tecnológico atual, o custo da previsão realizada pela IA diminuiu, permitindo que seja adotada mais amplamente pelos agentes econômicos.[3]

Diversos setores poderão ser beneficiados desde já pela utilização crescente da IA. Nos transportes, veículos autônomos e rotas de tráfego otimizadas diminuem os custos de deslocamento, reduzem a poluição e aumentam a segurança. Na ciência, a coleta e o processamento de dados em grande escala aceleram as pesquisas e viabilizam descobertas e avanços científicos de monta.

Na saúde, os sistemas de IA permitem diagnósticos mais rápidos e com altos índices de acerto, assim como tratamentos personalizados. Na agricultura, a IA ajuda no monitoramento da qualidade do solo e na previsão do impacto de fatores ambientais na colheita. Os serviços financeiros podem utilizar a IA para detectar fraudes, tomar melhores decisões sobre concessão de crédito e reduzir os custos de atendimento. São muitas as possibilidades que a tecnologia pode abrir para desenvolver produtos inovadores e trazer benefícios ao consumidor.

Como toda tecnologia, no entanto, a IA também traz desafios. Um dos mais importantes está nas mudanças no mercado de trabalho. Aplicando o conceito econômico da substituição, à medida que as máquinas se tornarem mais eficazes, com menor custo associado, deverão substituir os humanos nas tarefas que puderem ser automatizadas.

O impacto disso para o nível de emprego poderá ser significativo. Segundo o Fórum Econômico Mundial, entre 21 e 38% dos empregos em países em desenvolvimento poderiam ser afetados.[4] É urgente que o Brasil comece a planejar e tomar medidas para lidar com essa questão, como mudanças nos currículos escolares e das universidades, programas de reciclagem para trabalhadores e eventual auxílio para pessoas atingidas pelo desemprego tecnológico.

Outro risco, como já dito, seria aprofundar ainda mais a desigualdade entre os países desenvolvidos e os países em desenvolvimento. A automatização industrial conduzida pela IA reduz a vantagem econômica advinda da mão de obra abundante e da matéria-prima barata que os países mais pobres normalmente possuíam. Fábricas operadas por robôs, instaladas em países ricos, não darão oportunidade para que países menos favorecidos utilizem suas vantagens comparativas tradicionais e se tornem, com o tempo, economias dinâmicas impulsionadas pela tecnologia, como aconteceu com a China e a Coreia do Sul.[5]

No longo prazo, o fosso de riqueza entre as nações poderá aumentar entre os países que adotam ou não adotam a IA e outras tecnologias disruptivas. De 2011 a 2018, 93% do capital privado investido em IA tiveram como origem os Estados Unidos, a China e a União Europeia.[6]

Além da hipótese de que venha a surgir um novo imperialismo digital, em detrimento dos países do chamado Sul Global, já se fala também em uma nova ordem mundial bipolar, dominada pelos Estados Unidos e pela China. Estima-se que, dos mais de 15 trilhões de dólares que a IA irá adicionar à economia global até 2030, 70% deverão beneficiar essas duas “superpotências da IA”, cujas grandes companhias dividiriam o mercado mundial entre si.[7]

À luz desse cenário examinado até aqui, não surpreende que governos em todo o mundo estejam dando uma prioridade crescente ao assunto. Os Emirados Árabes Unidos possuem desde 2017 um ministro de Estado para a Inteligência Artificial, o primeiro a ser nomeado exclusivamente para esse fim. Países se apressam em produzir suas estratégias nacionais para promover a tecnologia.

Na França, estabeleceu-se um órgão de coordenação de IA dentro do gabinete do primeiro-ministro, visando à implementação da estratégia francesa.[8] Na América Latina, o México foi o primeiro a ter a sua própria estratégia, em 2018. A Argentina lançou o seu Plano Nacional de IA em junho de 2019.[9]

A recém-lançada Estratégia Brasileira de Inteligência Artificial (EBIA) vem com algum atraso e recebeu críticas por ser pouco detalhada e não prever recursos orçamentários a serem alocados nas ações estratégicas propostas. Faz-se, sim, referência a esforços empreendidos nos últimos anos, como a Estratégia Brasileira para a Transformação Digital (E-Digital), de 2018, que prioriza a alocação de recursos para pesquisa, desenvolvimento, inovação e capacitação, além do apoio financeiro do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI) para projetos e startups envolvendo IA.[10]

O mais importante, neste momento, é garantir que a EBIA não seja apenas um documento guardado na gaveta e que, como seguimento, seja posto em marcha um processo vigoroso de implementação, bem dirigido e concreto, buscando resultados.

Isso inclui definir metas e atores responsáveis por acompanhar seu cumprimento, em estreita coordenação com o setor privado e a comunidade técnico-científica. Valorizar os pesquisadores, apoiar startups e buscar sinergias com as empresas são pré-requisitos indispensáveis nesse sentido.

A despeito das dificuldades, a ciência brasileira avança, as universidades produzem pesquisa e o setor privado demonstra engajamento e interesse nas novas tecnologias. O crescimento do setor de tecnologia da informação (TI) nas empresas, o número elevado de usuários de Internet e de smartphones no país, além da infraestrutura digital instalada, são indicativos de que condições existem para um salto qualitativo que alie base material, talentos e vontade política.

É hora de colocar em prática um mapa do caminho para a IA no Brasil, que reflita as demandas da realidade brasileira e atenda às expectativas da sociedade, com projetos viáveis, recursos apropriados e prioridades claramente delimitadas. Um caso evidente de interesse nacional, que deve ser estimulado, é o processamento de linguagem natural em português falado no Brasil.

Quem nunca tentou pedir ajuda a uma assistente de voz no celular e se frustrou tantas vezes porque a IA não entendia a pergunta? Se não investirmos em IA que fala português brasileiro, com a devida atenção aos nossos diferentes sotaques regionais, quem o fará?

Felizmente, não partimos do zero. Cumpre recordar que a cidade de São Paulo é líder na América Latina e figura entre os principais polos de ciência e tecnologia do mundo. A Universidade de São Paulo estabeleceu no ano passado o C4AI (Centro de Inteligência Artificial), em parceria com a IBM e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), com sedes no campus Butantã da USP e em São Carlos. O Centro buscará enfatizar a combinação de aprendizado de máquina, tomada de decisão, representação de conhecimento e raciocínio, reforçando a colaboração entre essas áreas e suas aplicações.[11]

Um dos projetos do C4AI visa a coletar dados e produzir ferramentas computacionais que permitam um alto nível de desempenho em língua portuguesa (NPL2), tanto escrita quanto falada. Espera-se constituir um corpus multigênero com milhões de palavras de textos anotados para a construção de modelos robustos de análise, construir redes neurais baseadas em contexto e desenvolver aplicações para reconhecimento de fala, entre outros objetivos.[12]

Há muitas outras iniciativas promissoras em andamento que poderiam ser lembradas. Neste mês de maio, foi anunciada a constituição de seis novos Centros de Pesquisas Aplicadas (CPA) em Inteligência Artificial, com foco nas áreas de saúde, agricultura, indústria 4.0, Internet das Coisas, big data e cidades inteligentes, esforço conjunto do MCTI, da FAPESP e do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br).

Esses Centros serão localizados em diferentes Estados, com unidades em São Paulo, Minas Gerais, Bahia e Ceará, o que contribui para diversificar e disseminar oportunidades para profissionais de distintas regiões. Outros dois CPAs serão selecionados em breve para receber financiamento por um período de até dez anos.[13]

Assegurar a competitividade da economia brasileira exigirá igualmente fazer bom uso da cooperação internacional em parcerias ganha-ganha com os grandes centros tecnológicos mundiais, como o Vale do Silício, na Califórnia. O Ministério das Relações Exteriores, por meio de seu programa de diplomacia da inovação, deve fortalecer seu papel estratégico no diálogo com os ecossistemas estrangeiros de IA, formando massa crítica habilitada a conduzir negociações e estabelecer vínculos com contrapartes em outros países.

Para reforçar essa aproximação, por exemplo, o Brasil ingressou em 2020 na Parceria Global para a Inteligência Artificial, conhecida como GPAI, iniciativa multissetorial de um grupo de países para promover o desenvolvimento responsável da IA, centrada no ser humano.

Com apoio da OCDE, um dos objetivos principais do GPAI é precisamente o de reunir especialistas internacionais para preencher a lacuna entre teoria e prática em atividades de IA aplicada. Oito peritos brasileiros participarão de grupos de trabalho especializados do GPAI, todos eles integrados à Rede MCTI-Embrapii de Inovação em Inteligência Artificial, que se encontra em processo de estruturação.

Para uma nação que almeja crescer e consolidar seu desenvolvimento em benefício de todos, não podemos aceitar um cenário de desindustrialização precoce, com ameaças de retração de investimentos e declínio na produção de bens e serviços de alto valor agregado.

Negar à população o acesso à tecnologia significa condenar o país ao atraso. Daí a necessidade de formação de recursos humanos e mão de obra qualificada à indústria 4.0, robótica, 5G, economia digital, segurança cibernética e modernização das cadeias produtivas, para citar apenas algumas áreas.

Nesses tempos de Olimpíada, é bom lembrar que o progresso tecnológico não é uma prova de 100 metros rasos que dá a vantagem a quem largou primeiro. Assemelha-se mais a uma corrida de longa distância na qual a resiliência, o preparo e o planejamento estratégico são fatores decisivos para o sucesso. É possível virar esse jogo.

Vivemos hoje uma situação trágica de pandemia e é natural que as atenções estejam voltadas para essa luta contra a Covid-19. É certo também que esse período de provações irá acabar e que devemos começar agora a preparar a recuperação.

Segundo previsões baseadas em experiências históricas similares, o pós-pandemia poderá ensejar um forte boom econômico, em função da demanda represada e da retomada dos negócios.[14] Não se trata simplesmente de voltar à normalidade que existia anteriormente, mas de aproveitar a ocasião para fazer melhor do que no passado, ajustar a rota e acelerar rumo ao futuro.

[1] Disponível em: .

[2] OECD. Recommendation of the Council on Artificial Intelligence, 2019.

[3] OECD. Artificial Intelligence in Society, 2019.

[4] WORLD ECONOMIC FORUM. AI Governance: A Holistic Approach to Implement Ethics into AI, 2019.

[5] LEE, Kai-Fu, Inteligência artificial: como os robôs estão mudando o mundo, a forma como amamos, nos relacionamos, trabalhamos e vivemos. Globo Livros: 2019.

[6] OECD. Artificial Intelligence in Society, 2019.

[7] LEE, Kai-Fu, Inteligência artificial: como os robôs estão mudando o mundo, a forma como amamos, nos relacionamos, trabalhamos e vivemos. Globo Livros: 2019.

[8] OECD. Artificial Intelligence in Society, 2019.

[9] Disponível em: .

[10] Disponível em: .

[11] Disponível em: .

[12] Disponível em: . O C4AI também possui projetos voltados para cadeias de produção agrícola e segurança alimentar (AgriBio), clima, oceanos, saúde, futuro do trabalho e outros desafios.

[13] Disponível em: .

[14] What history tells you about post-pandemic booms, The Economist, 1st May 2021. Disponível em: .

André Gualtieri – Eticista de Inteligência Artificial, advogado, doutor em Filosofia do Direito pela PUC/SP, professor da Pós-Graduação em Direito Digital da Universidade Mackenzie, membro da i2AI.Eugênio V. Garcia – Diplomata, doutor pela Universidade de Brasília, pesquisador em inteligência artificial e governança internacional, membro da i2AI

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