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Correio Popular (Campinas, SP) online

Inteligência artificial no diagnóstico

Publicado em 15 março 2020

“Vamos salvar vidas”. Com esta ideia na cabeça e o desejo de aplicar seu conhecimento científico em benefício da sociedade, a pesquisadora sergipana Sandra Avila, docente do Instituto de Computação (IC) da Unicamp, desenvolveu em parceria com o professor Eduardo Valle, da Faculdade de Engenharia Elétrica (FEEC) da Unicamp, um software que pode diagnosticar o câncer de pele precocemente e com alta precisão, de até 86%, aumentando a chance de cura. O algoritmo classifica as lesões de pele a partir das análises das imagens.

O trabalho inédito, de baixo custo e fácil aplicação e manipulação por profissionais da saúde, passa agora por uma fase de testes em hospitais para depois chegar aos agentes de saúde. “Queríamos fazer algo de aplicação direta para a sociedade com o conhecimento que tínhamos adquirido naquele momento e pensamos em trabalhar com câncer”, lembra Sandra, que teve este impulso em 2013 quando tinha acabado o seu doutorado na França, onde teve o mesmo orientador de Eduardo Valle. Não era a primeira vez que Sandra se sentia motivada a concretizar aquilo que é a razão maior da produção científica: aplicar em benefício da sociedade, nas diversas áreas, o conhecimento e a pesquisa desenvolvida. Ela também já desenvolveu um software junto à Polícia Federal que ajuda no combate ao crime de pedofilia, identificando as imagens e permitindo a prisão. Na prática, ele vasculha o conteúdo do HD ou do celular, evitando que esta busca seja feita de forma manual, o que “normalmente é humanamente impossível, devido ao grande volume de conteúdos”, explica Sandra.

O mais agressivo O desejo de desenvolver um software voltado para a área de saúde, mais especificamente para o tratamento de câncer de pele, se deve ao alto índice deste tipo de tumor maligno no Brasil, que corresponde a 30% de todos os casos de câncer no País. Os pesquisadores definiram, por fim, focar no melanoma que, apesar de ter menor índice, é o tipo mais agressivo de todos. Em 2014, deram início ao desenvolvimento da pesquisa, que é financiada pelo CNPq, e tem o apoio da Capes e da Fapesp. Também obtiveram recursos do Google Latin America Research Awards (Lara), prêmio concedido anualmente, desde 2013, a 25 pesquisas na América Latina, das quais 15 são brasileiras. Por quatro anos seguidos o estudo foi contemplado pelo Lara.

“O projeto foi ganhando força”, diz a professora, que deu início neste mesmo período ao seu pós-doutorado. “Havia muita gente com muitos resultados e vários aplicativos sendo desenvolvidos, mas a comunidade médica reclamava porque não era possível aplicar em qualquer lugar”, descreve Sandra, cuja preocupação maior era desenvolver algo que não fosse restrito ou muito específico. “Nós somos um País grande e cheio de diferenças”, explica. Outro grande desafio para o desenvolvimento do software foi a realização de um trabalho conjunto entre duas áreas distintas: a computação e a área médica de dermatologia. O processo não foi fácil, segundo Sandra, porque são linguagens diferentes e objetivos científicos distintos.

Sandra conta que demorou um certo tempo para achar o processo de entendimento e compreensão do problema, e até de aceitação das coisas. A interface médica foi feita principalmente com Flávia Bittencourt, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O desenvolvimento do software, portanto, não foi simples, mas a sua utilização, garante Sandra, é muito fácil. A imagem obtida pelo dermatoscópio (aparelho que capta a imagem e vê detalhes em relação à lesão que a olho nu não se vê) é processada pelo software e ele dá um resultado, indicando seu índice de malignidade.

Inteligência artificial

O trabalho de inteligência artificial associado à técnica de aprendizado das máquinas através de redes neurais artificiais - conhecida como deep learning - foi realizado com a utilização de cerca de 24 mil imagens. “Mostramos várias lesões malignas e várias lesões benignas e o algoritmo aprende os padrões para identificar qual é maligna e qual é benigna. Por meio de um algoritmo o equipamento é capaz de dar um diagnóstico.” O recurso que garante mais agilidade aos diagnósticos do câncer de pele do tipo melanoma tem baixo custo e pode ser aplicado em postos de saúde, onde muitas vezes não há um dermatologista. Basta ter um dermatoscópio e o software. A próxima etapa será realizar testes em hospitais para avaliação do uso do software, para só depois disponibilizar a tecnologia. Os pesquisadores têm planos ainda de avançar neste mesmo trabalho, de forma que seja possível trabalhar com imagens simples - imagem clínica - que possam ser obtidas, por exemplo, por um celular. O objetivo é desenvolver a aplicabilidade no cotidiano dos centros de saúde. “Nosso anseio é que em breve o sistema possa ser instalado em um celular com uma lente dermatoscópica acoplada, permitindo diagnóstico rápido e seguro, mas sempre como um suporte para o médico, e nunca substituindo o atendimento”, planeja Sandra. De acordo com a pesquisadora, a equipe envolvida no trabalho não o considera concluído porque acredita que é possível aumentar os 86% de precisão, especialmente nesta fase de teste em parceria com os hospitais. “Temos alunos que estão tentando melhorar esse resultado. Não estamos satisfeitos com esse número. Mas, no momento, é importante buscar parcerias em hospitais para fazer a avaliação do software e, consequentemente, melhorar os resultados. Não temos esses parceiros ainda. Mas com a divulgação da nossa pesquisa, eles estão aparecendo.” A jovem professora universitária e pesquisadora da computação, de 37 anos, nasceu em Sergipe e cresceu praticamente dentro da Universidade Federal de Sergipe, onde o pai e a mãe são analistas de sistemas.

Sandra lembra que na infância pensou em ser astronauta ou matemática, mas acabou ingressando também no universo dos algoritmos e sistemas. “Uma coisa eu já tinha em mente: que a tecnologia podia ajudar as pessoas”, diz Sandra, que também realiza projetos para atrair mais meninas à área de Exatas, com o IEEE Women in Engineering (WIE), Women in ICPC, Meninas SuperCientistas, MulherAda Tec. “Estamos plantando uma sementinha.”

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