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Inteligência artificial na gestão de operações marítimas

Publicado em 15 janeiro 2019

Soluções Integradas em Ambientes Aquáticos – foi criada em 2014 pelo oceanógrafo Felipe Murai Chagas para prestar serviços na área de consultoria. Um ano depois, a empresa submeteu, com sucesso, proposta à fase 1 do programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE) da FAPESP para testar a viabilidade de projeto de desenvolvimento de um sistema computacional de monitoramento e previsão ambiental em áreas marítimas, utilizando modelos numéricos e inteligência artificial.

Entre 2016 e 2018, a SIAA também contou com o apoio do Programa PIPE - PAPPE Subvenção – constituído por meio de acordo entre a FAPESP e a Financiadora de Inovação e Pesquisa (Finep) – para levar o protótipo ao mercado . "Desenvolvemos o MPV [produto mínimo viável] e, atualmente, estamos realizando a implantação para clientes selecionados, visando a customização do sistema para demandas específicas", diz o fundador da empresa.

O Sistema Integrado de Previsão e Segurança (SIPS) é um módulo do sistema que permite, por exemplo, fazer a previsão das condições de aproximação e amarração dos navios no porto por meio da análise das "forçantes ambientais" – que inclui ondas, marés, ventos, correntes e ressacas.

O objetivo é tornar o setor marítimo brasileiro mais seguro e eficiente. "O SIPS fornece alertas específicos para operações marítimas, podendo ser utilizado para gestão de entrada e saída de embarcações, riscos de inundação em área costeira, agitação por ondas e ventos em marinas, dentre outros.

A ferramenta fornece resultados numa interface web, on-line 24 horas por dia, permitindo ao cliente incorporar esses alertas para manejar operações diárias, aumentar a eficiência, rentabilidade, segurança e padronizar as operações, explica Chagas. "Muitos navios, que poderiam estar atracados, aumentando a eficiência do porto, não o fazem porque os modelos utilizados não dão segurança para um planejamento adequado", diz ele.

Segundo o oceanógrafo, atualmente a maioria dos gestores orienta a entrada de embarcações com base em sua própria experiência e em previsões meteorológicas para grandes extensões de área, o que resulta em menor precisão.

Para obter dados locais, a SIAA roda modelos com base em diversas fontes, incluindo agências de pesquisa internacionais como a NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration), dos Estados Unidos, o Copernicus (Programa Europeu de Observação da Terra), além de empresas de meteorologia. "Conectamos negócios, pessoas e previsão e, para isso, precisamos combinar dados mundialmente estabelecidos com tecnologias locais", diz Chagas.

O sistema desenvolvido pela SIAA pode ser utilizado tanto por terminais portuários, quanto por empresas de navegação, marinas e, até mesmo, pela Defesa Civil de municípios costeiros. Conforme o uso a que se destina, a ferramenta pode agregar diferentes funcionalidades. "O sistema pode, por exemplo, fazer o cálculo da movimentação de navios sob diferentes condições ambientais, avaliando o risco de a embarcação adernar ou tocar o fundo do mar", exemplifica o pesquisador. A criação de um banco de dados específico para cada cliente permite a customização da ferramenta.

A tecnologia será oferecida como serviço, com a cobrança de uma mensalidade. Chagas aposta no aumento da eficiência para atrair seus clientes. "As operações marítimas em geral são caras e movimentam bilhões de reais anualmente. Com maior produtividade, um ano de utilização do serviço pode equivaler ao pagamento de um mês", calcula.

Outro argumento para a venda é a possibilidade de utilização do sistema para a comprovação de requisitos de segurança, necessários à conquista de certificações ambientais portuárias que melhoram a imagem dos portos no mercado externo, atraindo mais negócios. "Cada certificado tem suas próprias exigências, mas todos atestam que um porto ou instalação náutica preocupa-se com o meio ambiente em relação à poluição, emissões de gases, derrames de óleo etc."

Segundo o oceanógrafo, o sistema contribui principalmente para a redução do risco de acidentes próximos à costa. "Um acidente, principalmente no setor de óleo e gás, pode causar impactos severos para o meio ambiente, caso haja derramamentos. São prejudicados os organismos marinhos, as comunidades pesqueiras e tradicionais que tiram o sustento do mar, além do risco à vida dos trabalhadores. Com a adoção do sistema, o risco de acidentes pode ser consideravelmente reduzido, já que antecipa informações de eventos extremos que trazem insegurança às atividades costeiras."

Visão ampliada

Mestre em Ciências do Mar pela Universidade de São Paulo (USP), Felipe Chagas é especialista em modelagem numérica, técnica que, na Oceanografia, utiliza medições e conhecimento sobre o comportamento do oceano para o cálculo de previsões e simulações computacionais. No desenvolvimento dos projetos apoiados pelo PIPE a SIAA contou com o apoio da FAPESP para contratar Bolsistas de Treinamento Técnico. "Contar com profissionais de TI, por meio do apoio da FAPESP, foi essencial ao projeto. Eles possibilitaram o desenvolvimento de sistemas informatizados robustos e confiáveis", diz Chagas.

Segundo o fundador da SIAA, outra importante contribuição da FAPESP foi a capacitação empresarial. Felipe Chagas fez parte de um grupo de 15 pesquisadores de projetos apoiados pelo PIPE que, em novembro de 2015, foi à Inglaterra participar do programa Leaders in Innovation Fellowships Programme (LIF, na sigla em inglês), treinamento promovido pela Royal Academy of Engineering (RA Eng). "Após esta formação, tornei-me apto a orientar o desenvolvimento do sistema com uma visão global, e não focando limitadamente no mercado interno. Faço parte da LIF Community, rede de parceiros da RA Eng que reúne inovadores de todo o mundo. Ao menos uma vez ao ano a Royal Academy promove encontros e treinamentos, a partir dos quais atualizamos nossos conhecimentos em inovação e solucionamos desafios encontrados em nossos projetos", diz Chagas.

As duas semanas de formação na Inglaterra conferiram ao empresário uma visão mais clara e abrangente do mercado no qual pretende inserir seu produto. "A partir do contato com o mercado, visualizamos novas formas de apresentação de dados e novas demandas específicas. Em resposta, concebemos um produto mais completo e que soluciona mais demandas da sociedade civil."

Hoje, além de investir no aprimoramento da interface gráfica do sistema, para web e smartphone, a startup também está expandindo seu campo de atuação: desenvolve, no momento, um novo aplicativo denominado dooClima, que fornecerá previsões ambientais para cidade, mar ou campo com base nos chamados modelos numéricos locais. "Dentro da interface dooClima, o SIPS é o módulo voltado especificamente ao setor marítimo", explica o empresário.