Notícia

Jornal GGN

Insurgências e exploração do trabalho, por César Locatelli

Publicado em 31 outubro 2019

As insurgências pelo mundo afora têm ao menos uma raiz comum: a revolta contra a desigualdade de renda e riqueza que só faz crescer. Talvez, ainda mais grave do que o fosso de direitos entre as pessoas, seja a completa ausência de uma perspectiva que caminhamos para um estado melhor.

“Quem, hoje, afirmaria que vamos para uma sociedade mais acolhedora, mais aberta, trabalhando para reduzir as desigualdades e para maximizar as proteções? A própria ideia de progresso perdeu a coesão.” Robert Castel percebeu essa trajetória em 1998 e, provavelmente, carregaria mais nas tintas para descrever o desânimo com o futuro se escrevesse hoje, mais de vinte anos depois.

O Brasil teve um pequeno intervalo em que voracidade do capital parecia arrefecida. Mesmo assim, desde de muito antes da atual conjuntura, não dos diferenciamos, fundamentalmente, do resto do mundo, como mostra a socióloga Ludmila Abílio, focando o mundo do trabalho:

“A reforma trabalhista vem e destrói as regulações do trabalho, mas 50% da população brasileira nunca está sob essas regulações. A reforma da previdência vem e destrói a possibilidade do envelhecimento, da dignidade, mas 50% da população, ou mais, também não tem essa proteção.”

O assalariamento que minimizava a contradição entre a exploração do trabalho e os direitos da cidadania, nas palavras de Luiz Antônio Machado, e a configuração do Estado como mediador entre o capital e o trabalho, como nos ensina Castel, têm caminhado, ambos, para a extinção. Explica Abílio:

“Quando a gente olha a vida do trabalhador just-in-time nada mais está garantido. Ele se torna inteiramente responsável por sua própria reprodução e ele não tem a garantia de quanto ele vai ter para produzir. É um contexto de total incerteza, onde ele passa a arcar com riscos, custos e se autogerenciar permanentemente.”

Muito mais do que uma inflexão, experimentamos uma generalização da incerteza, continua ela:

“Se a gente olhar para a vida desses 99%, brasileiros e brasileiras, nós vamos ver que isso sempre foi assim, para grande parte da população brasileira. Se você pegar a trajetória ocupacional de um mulher negra da periferia, na vida dela onde nada está garantido, nada mesmo, nem a vida própria, nem do filho etc. A vida dela nunca teve garantia alguma. Ela é uma autogerente de si, permanente. E que vai se engajando e sobrevivendo de acordo com as oportunidades que aparecem. O que está acontecendo agora é uma generalização disso.”

O processo de uberização, que não começa tampouco termina com a empresa Uber, trata-se da formação da nova classe trabalhadora: o infoproletariado, na tradução de Ricardo Antunes e Ruy Braga para o termo cybertariat. Continua a socióloga:

“A uberização é como se fosse mais um passo nesse enorme processo de flexibilização do trabalho… Ela nos transforma em gerentes de nós mesmos. Vamos sair da palavra empreendedorismo, vamos esquecer isso. Na verdade, nós não somos empreendedores de nada, nós só estamos nos gerenciando, ‘nos deram esse direito, essa liberdade’ de dizer ‘ah, eu vou trabalhar doze horas por dia, sete dias por semana’. É essa a liberdade, eu só não sei se começo às oito da manhã ou se viro a madrugada. Essa é a liberdade que está sendo transferida aos trabalhadores.”

Para se contrapor à ideia da perda da centralidade do trabalho, “fábricas sem trabalhadores ou mesmo empresas sem fábricas, Ludmila Abílio traz Christian Marazzi à discussão:

“A primeira consequência importante dos novos processos de valorização do capital é a seguinte: a quantidade de mais-valor criada pelos novos aparatos de extração é enorme. Baseia-se na compressão do salário direto e indireto (aposentadorias, coesões da seguridade social, ganhos de poupanças individuais e coletivas), na redução do trabalho socialmente necessário com os sistemas de redes flexíveis da companhias (precarização, trabalho temporário) e com a criação de uma oferta mais vasta de trabalho gratuito ( o ‘trabalho livre/gratuito’ na esfera do consumo, da circulação, e da reprodução, com um trabalho cognitivo mais intenso).”

Conclui ela:

“É possível afirmar o contrário das teses que apontam para uma acumulação que já não se realiza sobre o trabalho não pago, e das que pensam na redução do trabalho vivo em relação ao desenvolvimento das forças produtivas: a exploração do trabalho está bem viva e central para a acumulação.”

Embora “obscurecidas”, com resultados incertos, formas de resistência brotam.

Notas

1 Para assistir a palestra da socióloga Ludmila Costhek Abílio, no encontro ‘Democracia em Colapso?’, veja em: https://youtu.be/Z3ogFwlYfS4.

2 Esse texto é baseado na palestra acima referida e no livro ‘Sem Maquiagem, o trabalho de um milhão de revendedoras de cosméticos’, de Ludmila Costhek Abílio, pela Boitempo – Fapesp.