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Instrumentos públicos beneficiam empresas com base tecnológica

Publicado em 14 agosto 2009

Por Lucas Alves, Agência Indusnet Fiesp

Três companhias nacionais mostram como os incentivos possibilitaram a ampliação de suas atividades e as colocaram em competição no mercado global

A transformação do conhecimento acadêmico em empreendedorismo tem apresentado resultados surpreendentes. Esta constatação foi discutida na reunião desta sexta-feira (14) do Conselho Superior de Tecnologia (Contec) da Fiesp, conduzida por seu presidente, Carlos Henrique de Brito Cruz.

Os instrumentos públicos de apoio à inovação tecnológica, combinados com investimentos privados, colocaram empresas brasileiras em condições de competir no mercado mundial. Caso das três companhias que apresentaram seus exemplos aos membros do Contec.

A primeira delas, a Opto, do setor eletrônico, foi criada a partir de uma reunião entre professores e alunos da USP de São Carlos. "Sentia falta de componentes ópticos para completar minha pesquisa de doutorado. Percebemos que o setor produtivo também sentia a mesma necessidade", explicou o presidente da empresa, Jarbas Castro.

A competência de seus idealizadores e a vontade de fazer dar certo superou a rápida decisão de criar o negócio. "Começamos a prestar consultoria nas indústrias e isso possibilitou montarmos a empresa", contou.

Eles receberam investimento de um milhão de dólares da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) para aquisição de um equipamento e, a partir de 1996, os negócios deslancharam. A Opto, que se prepara para abrir o capital, passou a atuar em três áreas: aeroespacial, filmes finos e médica.

Para Castro, houve uma mudança cultural no meio acadêmico, que antigamente "crucificava" os universitários que se envolviam com tecnologia nas empresas. "Hoje temos uma evolução grande dos dois lados, sendo que uma das principais fontes de tecnologia para o mercado são universidades e centros públicos de pesquisa", admitiu.

Os números comprovam: dos 368 funcionários da Opto, 70 deles são pesquisadores. A empresa projeta um faturamento da ordem de R$ 160 milhões para 2013 e, caso o processo de aquisição de uma empresa norte-americana do setor se concretize, este valor poderá chegar à casa dos R$ 300 milhões.

Unicamp

A Ci&T, do setor de software, surgiu nos limites da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com a estratégia de buscar nichos de mercado onde possa ser competitiva. "Atualmente, somos proporcionalmente os maiores exportadores de software do Brasil", comentou o presidente da empresa, César Gon.

Segundo ele, 40% de sua receita vêm dos negócios com os Estados Unidos, são cerca de 750 engenheiros e 50 parceiros globais. "Nosso diferencial é investir no capital humano", completou.

Justamente para driblar vantagens de seus concorrentes - localizados nos EUA, China, Índia e Polônia -, como a carga tributária e trabalhista, o empresário busca benefícios comparativos. Tanto que sua companhia aparece na lista das 100 melhores corporações brasileiras para trabalhar.

"Temos uma desvantagem de 140% em relação aos custos de produção da Índia, por exemplo. Mas desenvolvemos técnicas de reuso e automação em partes do processo para superar isso", explicou.

Atraente

O desenvolvimento de um radar meteorológico pela empresa Omnisys, com foco no setor aeroespacial e naval, atraiu investimentos do Grupo Thales.

Desde 2005, os franceses investiram R$ 20 milhões na estrutura de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D). Isso fez com que a companhia conseguisse fechar o ano passado exportando para nove países, com 250 funcionários, dos quais 70 deles são pesquisadores.

"Destinamos 15% de nossa receita para investir em P&D", relatou o gerente de engenharia de desenvolvimento da Omnisys, Bruno Rondani. "Nosso objetivo é nos tornarmos um centro de desenvolvimento para o mercado local e global. Já conseguimos nos destacar dentro de um programa de tecnologia do governo francês", acrescentou. Segundo Rondani, a empresa contou com o apoio "fundamental" da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Consolidação

O presidente do Contec, Carlos Henrique de Brito Cruz, considera que os instrumentos públicos de apoio à inovação tecnológica no Brasil estão consolidados.

"Uma das coisas claras é que estes são exemplos de pessoas que passaram do mundo acadêmico para o mundo empresarial", comentou ao referir-se aos representantes das companhias que apresentaram os cases na reunião. "Outra mudança é que as empresas tomaram a iniciativa de combinar os instrumentos, usando de maneira adequada os incentivos", complementou.

O poder de compra do Estado brasileiro, como a aquisição de produtos para as Forças Armadas, por exemplo, tem viabilizado o desenvolvimento e o incentivo à inovação. "Temos que aproveitar e utilizar idéias comparativas, como no caso da Ci&T, que buscou superar as vantagens da Índia", concluiu Brito Cruz.