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Jornal da Unesp online

Instituto vai investigar mudanças ambientais na Antártica

Publicado em 13 abril 2009

Por Igor Zolnerkevic

José Alexandre Perinotto, docente do curso de Geologia do câmpus de Rio Claro, é um dos 51 pesquisadores de 16 instituições brasileiras que participam do recém-lançado INCT-APA (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Antártico de Pesquisas Ambientais). Com sede no Instituto de Biologia da UFRJ (Universidade Federal do Rio Janeiro), o INCT-APA agrega os esforços brasileiros para compreender como as atuais mudanças no clima da Terra estão relacionadas com o meio ambiente da Antártica.

"Com forte influência na América do Sul, repercutindo até na Amazônia, o continente Antártico é o mais preservado, porém o mais frágil do planeta", disse a bióloga da UFRJ Yocie Valentin, coordenadora geral do INCT-APA, durante a cerimônia que marcou o início das atividades do instituto, em 1º de abril, no Ministério do Meio Ambiente, em Brasília.

A cerimônia aconteceu após a primeira reunião de trabalho do Instituto, também em Brasília, entre os dias 30 de março e 1º de abril. Os projetos de pesquisas estão agrupados em quatro módulos: Atmosfera Antártica, Impacto das Mudanças Globais, Impacto Antrópico e Gestão Ambiental.

O geólogo Perinotto, do Instituto de Geociências e Ciências Exatas (IGCE), participa dos trabalhos desenvolvidos no interior do módulo Impactos das Mudanças Globais na Antártica, coordenando o estudo "retração de geleiras", um dos quatro sub-temas do módulo. Os demais são "comunidades vegetais", "aves e mamíferos marinhos" e "comunidades bentônicas e espécies exóticas".

No grupo, o docente da Unesp é o único cujo estudo pertence à grande área Ciências da Terra. Os demais, segundo o pesquisador, são biólogos de formação. No entanto, para Perinotto, haverá uma boa integração, pois os estudos se complementam. "À medida que o clima esquenta, uma geleira retrai e dá espaço para a vegetação", ele explica.

Aquecimento global

Nos últimos 50 anos, a temperatura média da atmosfera da Península Antártica aumentou quatro vezes mais que a média mundial. O aquecimento foi responsável pela redução da cobertura de gelo em 7%.

 Neste ano de 2009, Perinotto e uma equipe de colaboradores vão se debruçar sobre os registros históricos do recuo das geleiras, especialmente na Baía do Almirantado. Entre dezembro de 2010 e março de 2011, durante o verão Antártico, o docente viaja para avaliar, in loco, o movimento das geleiras nas rochas da Ilha Rei George.

Especialista em sedimentologia glacial, o geólogo estuda como o gelo age na formação de algumas rochas. Ele estuda principalmente rochas de uma unidade da Bacia Sedimentar do Paraná, chamada Grupo Itararé, formadas há 300 milhões de anos.

A Estação Antártica Brasileira Comandante Ferraz, que abrigará parte dos pesquisadores do INCT-APA durante suas expedições, fica na Ilha Rei George, próxima à ponta da Península. A Rei George é a maior das Ilhas Shetland do Sul, 90% coberta por uma grande calota de gelo. Possui rica vegetação e fauna, como pinguins e focas.

No local há uma grande concentração de estações de pesquisa. A atividade turística também é intensa, com muitos navios aportando e partindo da Baía do Almirantado. A gestão do impacto de todas essas atividades humanas na ilha é um dos objetivos do INCT-APA. "Temos obrigação de registrar o que está acontecendo lá", diz Perinotto.

O docente considera que o tema do INCT será um novo desafio. Ele, que está acostumado a interpretar a ação de geleiras registradas em rochas com centenas de milhões de anos, vai estudar eventos semelhantes, em pleno acontecimento. Ele espera que os estudos do presente o ajudem a compreender melhor os processos do passado, e vice-versa.

O geólogo espera colaborar também com a equipe INCT da Criosfera, um outro estudo dedicado à Antártica, sob a coordenação do glaciólogo Jefferson Simões, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Dentro do INCT da Criosfera, participa outro docente da Unesp, Newton La Scala Júnior, do câmpus de Jaboticabal, com um projeto independente ao de Perinotto, sobre a absorção de gás carbônico pelo solo congelado da Antártica.

INCTs e a Unesp

Os INCTs são uma iniciativa do Ministério da Ciência e Tecnologia que, em 2008, divulgou um edital para integrar grupos de pesquisas brasileiros com propostas semelhantes. Dos 268 projetos submetidos, foram aprovados 123.

Os INCTs terão recursos totais de aproximadamente R$ 581 milhões para os próximos cinco anos. Para tanto, conta com o apoio da Capes e das Fundações de Amparo à Pesquisa do Amazonas (Fapeam), do Pará (Fapespa), de São Paulo (Fapesp), Minas Gerais (Fapemig), Rio de Janeiro (Faperj) e Santa Catarina (Fapesc), Ministério da Saúde e Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Vários pesquisadores da Unesp colaboram com os INCTs. Entre eles, Augusto Shynia Abe, do câmpus de Rio Claro, coordena o INCT de Fisiologia Comparada; Elson Longo, do câmpus de Araraquara coordena o de Ciências dos Materiais em Nanotecnologia; e Tullo Vigevani, do câmpus de Marília, o INCT para o Estudo dos Estados Unidos.