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Instituto transforma saber em matéria-prima

Publicado em 27 junho 2010

São 109 anos de uma história irretocável. De mudanças significativas, progressos e recomeços. E permanecemos com esse escopo, mais de um século depois da criação daquele que se transformou em um dos maiores e mais importantes institutos de pesquisa do mundo. A corrente de solidariedade formada em torno do Instituto Butantã, após o acidente que há pouco mais de um mês acometeu nossa coleção de serpentes e artrópodes, não fez apenas emergir a nossa importância, mas principalmente nossa credibilidade no mundo todo.

Oriundas de todos os continentes, as manifestações de apoio e confiança ratificaram o papel que atualmente ocupamos na comunidade científica. Hoje, 43 dias após o acidente, já podemos dizer, sem minimizar os danos de nossas perdas, que estamos recuperando boa parte do acervo e com ótimas perspectivas de um recomeço bastante promissor. Lamentamos por aqueles que fizeram uso dos momentos de adversidade para se promoverem por meio de ilações e inverdades. Aproveito, portanto, para elucidar fatos a respeito do Instituto Butantã.

Fruto de um trabalho desenvolvido desde sua criação, em 1901, a produção de soros e vacinas é paradigma de uma receita que o elevou à condição de referência mundial. Trata-se da conjunção de três missões principais que, atreladas, criaram condições exponenciais para o progresso da instituição: pesquisa, produção e difusão do conhecimento.

Produzimos saber e o transformamos em matéria-prima responsável pela saúde de milhões de pessoas. Somos detentores da maior capacidade produtiva da América Latina em imunobiológicos. São mais de 190 pesquisadores responsáveis por grande parte da expertise adquirida pelo Butantã e que tornaram possível a produção de um arsenal reconhecido mundialmente contra doenças preveníveis por vacinação. Hoje, respondemos por quase 100% da produção de soros antivenenos e mais de 80% da produção de vacinas nacionais. Pesquisa e produção devem andar juntas. Institutos congêneres no mundo entraram em decadência pela falta de investimentos em pesquisa. Trabalhamos em sentido contrário.

Crescemos, mudamos e acompanhamos a revolução tecnológica que hoje nos dá subsídios para continuar avançando. Somos alternativa de lazer e aprendizado, detentores de acervos históricos, abrigamos pesquisadores renomados, propagamos conhecimento e transformamos, por meio de produção autônoma, a ciência em produto para a população. Desde 2003, são mais de 1.200 trabalhos científicos publicados, fruto da captação de recursos de agências de fomento (em especial FAPESP e Finep), mais de R$ 50 milhões investidos em pesquisa e R$ 24 milhões em bolsas.

O apoio das agências é resultado de projetos avaliados por cientistas externos à instituição. São eles que atestam a qualidade de nossos pesquisadores. Essa política teve início em 1983 com Willy Beçak, consolidada e ampliada por Isaías Raw e mantida até hoje. Não sou da área básica biomédica, mas a despeito do que erroneamente alguns poucos informam, por falta de conhecimento ou má-fé, a ciência também pautou minha carreira. Fui, entre 1975 e 1983, coordenador dos Institutos de Pesquisa, na Secretaria de Estado da Saúde.

Sou médico e mestre em saúde pública pela USP. Lecionei na Santa Casa e integrei bancas de mestrado e doutorado na Faculdade de Saúde Pública da USP. A inexistência de problemas nas instituições frequentemente traduz mais o imobilismo da gestão do que propriamente sua qualidade. Nós optamos pela inovação. Torçamos pela proliferação de questionamentos e debates profícuos que estejam a altura desta instituição, tão essenciais à produção do conhecimento.

Diretor do Instituto Butantã