Notícia

Jornal da Unesp

Instituto Prodígio

Publicado em 01 setembro 2015

Por Cínthia Leone

Internacionalização, interdisciplinaridade, cooperação com empresas e captação de recursos são as marcas de uma das mais recentes unidades complementares da Unesp – o Instituto de Biotecnologia (Ibtec) instalado em Botucatu em dezembro de 2012. A despeito do pouco tempo de funcionamento, o instituto já tem seis grupos de pesquisa em nível de excelência e vem atraindo de modo crescente a atenção de cientistas de dentro e de fora da Universidade e também do exterior, além de empresários e gestores públicos.

O Ibtec pode ser usado por pesquisadores de todos os câmpus da Unesp e por estudiosos de outras instituições por meio da submissão de propostas. Os cientistas estabelecem cooperação como “laboratório associado” (que utiliza as dependências para etapas específicas da pesquisa) ou como “laboratório residente” (em que o estudioso leva seu projeto para ter pleno desenvolvimento na unidade). Futuramente, o local também deve prestar serviços a empresas e demais interessados mediante pagamento, conforme informa o diretor do instituto, Celso Marino, professor do Instituto de Biociências da Unesp em Botucatu (IBB).

“Unidades complementares como essa devem se autossustentar, seus pesquisadores e docentes devem ser competitivos na captação de recursos em agências de fomento ou na parceria com empresas, e elas precisam ter grande impacto sobre as demais unidades da Universidade”, afirma Maria José Giannini, pró-reitora de Pesquisa da Unesp (Prope). Segundo a gestora, a criação desse tipo de estrutura deve evitar a aquisição em duplicidade dos mesmos equipamentos por mais de uma unidade da Universidade.

Segundo Marino, o Ibtec já captou cerca de R$ 2,8 milhões da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e aproximadamente R$ 2,7 milhões da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) em diferentes editais. “Temos gerado muito interesse do exterior sem que nós tivéssemos que fazer propaganda – eles nos procuram!”, destaca Marino.

Um exemplo de facilidades tecnológicas que o Ibtec já oferece é uma plataforma de mutagênese CRISPR-Cas9, um conjunto de microscópios e nanoinjetores, adquirida com recursos da Fapesp. Com esse instrumento é possível desligar um gene por meio de uma ferramenta de edição de genomas (um recurso para manipulação genética desse material). Os biólogos Jayme Augusto de Souza Neto, professor do IBB, e o francês Julien Pelletier, da Universidade de Keele, na Inglaterra, são os responsáveis por implementar essa plataforma – a única desse tipo no Brasil –, que eles estão utilizando para gerar mosquitos mutantes. “A vantagem dessa tecnologia é que a mutação provocada no mosquito é passada de geração em geração, criando linhagens estáveis desse inseto modificado”, diz Souza Neto.

Ainda sem equipe própria de cientistas, o Ibtec abrirá cinco oportunidades para pesquisa- dores nos próximos anos. “Com as condições de trabalho que oferecemos aqui, o preenchimento dessas vagas deve ser bastante disputado”, afirma Marino.

DOENÇAS TROPICAIS

As doenças tropicais, especificamente dengue e malária, são um dos temas mais destacados de pesquisas do instituto, que mantém dois grandes grupos sobre o assunto que têm atraído a atenção de especialistas do exterior. Um dos times é liderado por Paulo Eduardo Martins Ribolla, do IBB. Ele estuda o mosquito Anopheles darlingi, principal responsável pela transmissão da malária, uma doença ainda sem cura e sem vacina e muito prevalente em áreas significativas da América Latina, da África e da Ásia. Seu projeto analisa a genética da população de mosquitos que transmitem a malária, com parceria de estudiosos dos EUA.

A região escolhida em sua pesquisa foi o Vale do Rio Juá, no Acre, onde um terço dos casos são de malária falcípara, uma das formas mais graves da doença e que pode deixar sequelas ou levar à morte. No resto do Brasil, a forma benigna da doença é a mais comum. “Uma de nossas perguntas é: o que há de diferente naquela região que faz com que existam tantos casos malignos?”, acentua Ribolla.

Outro dado dessa área que contraria as estatísticas da doença no restante do Brasil diz respeito à forma de transmissão – em geral, a moléstia é contraída em regiões de mata, mas ali ela se dá principalmente no meio urbano. “Uma hipótese que estamos investigando é a presença de diversos tanques de piscicultura espalhados pela cidade, onde já detectamos criadouros do mosquito.”

Em um segundo projeto, o professor trabalha com a dengue. Um fato pouco divulgado é que a doença é transmitida não apenas pelo mosquito Aedes aegypti, o mais comum no país, mas também pelo Aedes albopictus, conhecido como tigre asiático por ser prevalente naquele continente, mas também muito presente nas áreas rurais e silvestres do Brasil. “Estudamos a interação ecológica entre as duas espécies. Por exemplo, o macho albopictus esteriliza a fêmea aegypti, um fato que podemos explorar para criar estratégias de controle populacional dos mosquitos”, explica Ribolla. “No Ibtec, nós já conseguimos fazer as colônias dos dois mosquitos e agora estamos analisando a interação molecular entre elas, isto é, o que um mosquito induz no outro em termos de expressão gênica.” Participa dessa etapa o cientista suíço Frederic Tripet, da Universidade de Keele, que tem experiência em projetos de liberação de machos estéreis na natureza.

Existem mosquitos Aedes aegypti que não se contaminam com o vírus da dengue quando entram em contato com ele. Algumas pessoas são picadas pelo inseto infectado, mas não contraem a doença. Há inclusive cidades inteiras há mais de 10 anos sem nenhum caso autóctone de dengue (quando a doença é contraída no próprio local), mesmo estando em regiões com alto índice da epidemia. Fatos como esses têm intrigado Souza Neto.

O grupo liderado por Ribolla está realizando experimentos, por exemplo, para entender como funciona a microbiota – o conjunto de microrganismos – do intestino do mosquito e seu sistema imunológico, dois componentes que influenciam na transmissão do vírus. Segundo o pesquisador, isso pode explicar por que em algumas localidades, por exemplo, 80% dos mosquitos se contaminam e em outras, apenas 20%. “Se conseguirmos determinar o que esses animais têm de diferente, poderemos criar em laboratório um inseto transgênico não transmissor e assim desenvolver uma estratégia de controle da doença”, explica.

Pelletier é parceiro do projeto e estuda por que algumas pessoas atraem o mosquito e outras não. Juntamente com Souza Neto, ele analisa receptores no mosquito que fazem com que o animal distinga o cheiro de cada pessoa e também tenta identificar compostos presentes na pele humana que podem repelir o animal. “Isso ajudará a criar uma outra estratégia de combate à dengue, que seria a adoção de repelentes específicos”, explica.

No caso da malária, Souza Neto enfrentou o desafio de reproduzir em laboratório uma colônia do mosquito Anopheles darlingi. Ele usa uma técnica desenvolvida por Joseph Vinetz, pesquisador da Universidade da Califórnia em San Diego, estudioso da malária no Peru e atualmente colaborador do grupo no Ibtec. Vinetz descobriu que o mosquito se reproduz sob uma luz pulsante que imita a filtragem da luz do sol realizada pela copa das árvores na floresta.

“Antes, os pesquisadores tinham que ir até a Amazônia recolher os exemplares, o que inviabilizava uma série de testes com essa espécie, que é a principal no Brasil”, explica. Agora é preciso aprender a trabalhar em laboratório com o parasita que contamina o mosquito. Atualmente, o Ibtec conta com um banco de protozoários congelados. “Queremos saber se esses patógenos continuam capazes de infectar após o descongelamento”, explica. “Em caso negativo, teremos que aprender a cultivar o parasita em laboratório.” Essa etapa do projeto tem financiamento da Fapesp, com a colaboração do Imperial College London, da Inglaterra.

INOVAÇÃO

O Instituto hoje conta com outros quatro “laboratórios residentes”. O médico veterinário João Pessoa de Araújo Júnior, professor do IBB, coordena um deles, para aperfeiçoar uma ferramenta de diagnóstico da cinomose, doença altamente contagiosa que atinge em especial cães e furões.

“Nós criamos uma tecnologia de nanopartículas que propicia um resultado rápido e visual com uma alteração de cor para a amostra positiva”, explica. O estudo teve grande repercussão e foi capa de uma edição de 2014 da prestigiada revista Analitical Methods. “Hoje usamos toda a estrutura do Ibtec para melhorar essa técnica, para que ela possa ser usada para a obtenção de um diagnóstico rápido de dengue.”

Marino, o diretor do Ibtec, lidera um grupo de tecnologia de espécies florestais com forte parceria de empresas. “Com a biologia molecular nós estamos conseguindo analisar mudas e prever como será essa planta na fase adulta, o que permite avanços significativos para o melhoramento genético de espécies de interesse econômico.”

Um de seus projetos gerou uma patente de propriedade da Unesp e da Suzano, companhia brasileira de papel e celulose, que foi negociada com o auxílio da Agência Unesp de Inovação (AUIN). “A Universidade é detentora do conhecimento e a empresa colabora com financiamento e fornecimento de material biológico, porque o resultado vai ajudar a resolver problemas da cadeia produtiva dessas mesmas companhias”, detalha Marino.

Em agosto, a unidade realizou um workshop de melhoramento florestal com a presença de empresários e pesquisadores do Instituto de Pesquisas e Estudos Florestais (IPEF), buscando a criação de grupos de trabalho e novas parcerias. “Raramente se consegue uma estrutura como a do Ibtec em nosso País; então, aumentar a sinergia entre as empresas e essa unidade vai gerar pesquisas de altíssimo nível”, aposta Paulo Henrique Müller da Silva, representante do IPEF.

CÂNCER

O vírus Epstein-Barr, um dos causadores da herpes, está presente no organismo da maioria dos seres humanos adultos. Embora não gere doenças em grande parte das pessoas, ele pode levar ao desenvolvimento de alguns tipos de câncer. O biomédico Deilson Elgui de Oliveira, da Faculdade de Medicina (FMB) da Unesp de Botucatu, estuda essa interação.

Atualmente ele investiga a atuação desse microrganismo no carcinoma de nasofaringe, uma doença muito letal. “Queremos saber se quando esse câncer é causado pelo vírus ele se torna mais ou menos agressivo”, diz. Sua equipe já conseguiu isolar a proteína LMP-1, que tem o maior potencial de tornar os tecidos malignos, além de ser a responsável pela capacidade do vírus de invadir as células. “A próxima etapa será realizar experimentos em cobaias para assim pensar em estratégias para diminuir a agressividade desse tipo de câncer e neutralizar seu processo de metástase.”

Câncer também é o tema de estudo da geneticista Silvia Regina Rogatto, professora da Faculdade de Medicina da Unesp em Botucatu. Ela coordena um laboratório associado ao Ibtec que busca desenvolver um tratamento “personalizado” para o câncer. Esse tipo de tratamento, também chamado de terapia-alvo, demanda estudos de biologia em nível molecular que dependem da utilização dos equipamentos de alta precisão do Ibtec. Muitos países apostam que inovações dessa natureza podem ser o futuro das drogas antitumorais, porque teriam menos efeitos colaterais do que os quimioterápicos convencionais.