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Diário de Natal

Instituto em Natal busca planetas fora do Sistema Solar e faz experiências com a gravidade

Publicado em 25 outubro 2009

Por Adriana Amorim

O Rio Grande do Norte, que já tem sido amplamente divulgado por sediar institutos internacionais como o de neurociências e o recém-criado para estudos de física, passa a estar também na vanguarda dos estudos espaciais ao ganhar o Instituto Nacional de Estudos do Espaço (INEspaço). São duas sedes, uma na cidade de São José dos Campos, em São Paulo, e outra em Natal, em parceria com a UFRN, mas sua coordenação é totalmente potiguar, tendo à frente um dos principais nomes da astronomia mundial recente: o professor José Renan de Medeiros. Embora tenha sido aprovado pelo Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) em fevereiro deste ano, após intensas negociações entre as fundações de apoio à pesquisa paulista e potiguar (Fapern e Fapesp), só agora o instituto vem sendo divulgado e já apresenta resultados promissores.

Renan explica que o INEspaço está explorando um grande espectro de questões científicas, desde o desenvolvimento de sistemas e subsistemas para satélites científicos, até a busca por planetas fora do sistema solar e de sinais de extraterrestres, passando por experimentos em microgravidade com produtos agronômicos e fármacos. "Também vamos construir laboratórios até então inexistentes no Brasil, como é o caso da câmara extraterrestre que estamos desenvolvendo para instalar na USP (Universidade de São Paulo)", anunciou, dizendo se tratar de um aparato onde será possível simular as condições extraterrestres dentro de um laboratório sem a necessidade de sair da Terra.

"Será o primeiro do gênero em todo o hemisfério Sul. Também vamos construir um laboratório para simular os efeitos de micro e hipergravidade, que será instalado aqui, na nossa UFRN", adiantou.

Treinamento

Renan destaca que o centro também vem estudando os efeitos da radiação cósmica sobre superfícies metálicas ou não, como uma forma de melhor proteger satélites e naves espaciais. "Tais exemplos representam uma pequena amostragem dos benefícios diretos que as pesquisas do nosso INEspaço trarão para a sociedade, em áreas tão distintas quanto engenharia, genética e medicamentos.

Também estamos montado uma rede nacional voltada para a formação e treinamento de pessoal, tanto a nível de graduação, quanto de mestrado e doutorado". Ao todo, o INEspaço congrega 140 pesquisadores brasileiros, oriundos de dezoito instituições distintas, entre universidades e institutos do MCT. No Estado, são 20 pesquisadores envolvidos, divididos entre UFRN e UERN. O instituto ainda congrega um corpo de cientistas estrangeiros que atua tanto em questões de consultoria, quanto em pesquisa, composto por grandes nomes da Nasa e da Agência Espacial Europeia. "Citaria, a título de exemplo, Amy Rotschild, da NASA, e Nigel Mason, da Open University (Inglaterra), principais nomes mundiais no campo da exobiologia - estudo da vida fora da Terra -, e Annie Baglin, da Agência Espacial Européia, coordenadora da Missão CoRoT", destacou.

Desafio

José Renan explicou que o INEspaço surgiu da iniciativa de cientistas brasileiros inspirados pela bem-sucedida participação brasileira na Missão Espacial Euro-Brasileira CoRoT. "O grupo percebeu que era possível realizar pesquisas espaciais no Brasil, independentemente da área, de forma competitiva com os níveis internacionais", destaca, associado a esse fato a percepção coletiva da ideia de que o nível de desenvolvimento em ciências espaciais tem sido, ao longo dos últimos 50 anos, um dos parâmetros mais sólidos na definição do estado de desenvolvimento e do avanço de um país em pesquisa fundamental e aplicada, bem como na produção de novas tecnologias.

Entrevista - José Renan de Medeiros, astrônomo

Em entrevista ao Diário de Natal, José Renan de Medeiros fala da importância dos estudos espaciais não só para o avanço da ciência, mas também para o desenvolvimento de um país e sua soberania. O cientista diz que o Brasil precisará compensar nos próximos 10 anos o que não fez nos últimos 50 para que seu programa espacial alcance o nível dos mais avançados, mas confia que o país pode recuperar o tempo perdido, com base no trabalho desenvolvido atualmente.

Por que a área das ciências espaciais é tão fundamental no mundo moderno?

O desenvolvimento das ciências espaciais de um país determina claramente não apenas seu nível de desenvolvimento, mas também sua soberania. Tal percepção se perenizou rapidamente na comunidade científica dos países desenvolvidos, levando a um desenvolvimento acelerado de know-how técnico e de uma cultura utilitária dos experimentos espaciais, em um ambiente financeiro favorável.

Nesses países, as missões espaciais começaram a se suceder em ritmo regular, impulsionadas pela necessidade da obtenção de informações para geoprocessamento, defesa, pelas telecomunicações e por fenômenos celestes récem-descobertos ou previstos. O ápice desse esforço levou ao fenomenal avanço das telecomunicações, do monitoramento ambiental, das previsões climáticas, da exploração interplanetária e no surgimento de observatórios espaciais voltados para o estudo do próprio Sol, do Sistema Solar e do Cosmos. Exemplos disso são as viagens exploratórias à Lua, Marte, Saturno e aos confins do sistema solar, o próprio telescópio especial Hubble e o satélite CoRoT.

Como está o campo de estudos espaciais no Brasil?

O Brasil, infelizmente, não tem acompanhado a realidade internacional, ou melhor, do mundo desenvolvido, apesar de alguns esforços e investidas fragmentárias na área. Afirmar que em algumas áreas estamos com um atraso de cerca de 50 anos é pura realidade. Mas vamos sair desta situação e, para isso, é necessário correr contra o tempo. Temos que fazer em 10 anos o que não foi feito em 50. As pesquisas espaciais no país concentram-se sobretudo no INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e no ITA (Instituto Tecnológica de Aeronáutica), sobretudo no contexto de desenvolvimento de tecnologias.

Entretanto, quando se fala de pesquisa científica fundamental, esta se encontra distribuída em um grande número de instituições, mas muitas vezes o trabalho se processa em subcondições dada à falta de apoio. Agora, com o INEspaço, essas subcondições precisam desaparecer.

O que falta para que o país decole - literalmente - na área espacial?

Falta tratar o programa espacial brasileiro como um programa de Estado, da Nação, e não de governos ou grupos políticos, e isso das áreas fundamentais ao desenvolvimento tecnológico.

Por que o senhor, um potiguar, foi escolhido para coordenar tão grande projeto?

Talvez porque as palavras "impossível" e "pessimismo" não existem em meu dicionário, associado ao fato de que já atuei nos principais comitês de assessoramento científico do país e faço gestão e política científica sem fazer politicagem. Sou, antes de tudo, um cientista que só acredita no desenvolvimento da ciência quando a colaboração e a sinergia são os motes principais.