Notícia

Gazeta Mercantil

Instituto dos EUA patrocina pesquisa no Brasil

Publicado em 24 novembro 1998

Por Maria Helena Tachinardi - de Washington
Trinta por cento das cirurgias de correção de válvulas no Instituto do Coração (Incor), em São Paulo, são relacionadas com a doença reumática cardíaca, que ocorre depois de uma infecção por estreptococo na garganta. "Uma doença séria e caríssima, que já não é tão importante nos países industrializados, onde o diagnóstico e o tratamento são mais rápidos", diz Jorge Kalil, professor titular da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). Os estudos que está desenvolvendo em seu laboratório de imunologia, com um orçamento de US$ 1,5 milhão, "já permitem pensar em uma vacina para aquela bactéria". Kalil é um dos sete "scholars" brasileiros selecionados pelo Howard Hughes Medical Institute (HHMI), instituição americana privada com um orçamento de US$ 11 bilhões para patrocinar a pesquisa biomédica nos EUA e no exterior. A entidade, localizada no estado de Maryland, nos arredores de Washington, foi criada com a doação de um milionário para apoiar especialistas em biologia celular e estrutural, genética, imunologia e neurociência. Seus mais de 330 pesquisadores trabalham em 72 centros médicos e universidades dos EUA. Há dois anos, o HHMI passou a cooperar com a América Latina fornecendo US$ 15 milhões para um programa de cinco anos. Cada um dos 47 pesquisadores da região, incluindo o Canadá, o México, o Brasil, a Argentina, o Chile e a Venezuela, recebe de US$ 50 mil a US$ 80 mil anualmente para investigar moléstias como câncer, mal de Alzheimer, doença de Chagas, leishmaniose e febre amarela. Para Kalil, a doação do Hughes "não é a mais importante. Mas é o dinheiro de mais prestígio que tenho, porque só é dado a pesquisadores de primeiríssima linha". Os 47, "scholars" se reunirão no Rio, de 19 a 22 de janeiro, para discutir o avanço em seus experimentos depois da primeira conferência regional do HHMI em Buenos Aires, em 1997. O encontro pretende chamar a atenção da mídia, do governo e do setor privado para a importância dos trabalhos científicos realizados pelos pesquisadores brasileiros, diz Joseph G. Perpich, vice-presidente de programas especiais do instituto. "O que é impressionante no Brasil é a sua força em física, química e biologia estrutural com o uso de síncroton. Muitos dos acadêmicos que apoiamos no País são líderes nessas áreas. Em biologia, uma vez que se tem informação sobre o gene (unidade hereditária que determina as características de um indivíduo), resta saber como as proteínas assumem sua função no organismo. Isso será a grande onda da pesquisa e vai afetar a medicina e a indústria farmacêutica. O Brasil está bem posicionado nesse campo", avalia. Dos sete brasileiros selecionados pelo Howard Hughes, quatro estudam as proteínas. O professor Glaucius Oliva, do Instituto de Física de São Carlos, pertencente à USP, investiga a forma e a função das proteínas que causam doenças tropicais endêmicas na América Latina. Alguns de seus testes estão a bordo dos ônibus espaciais americanos. Jerson Lima Silva, do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), focaliza o problema das cadeias de aminoácidos que se dobram, e como esse processo funciona na montagem proteica para a formação do vírus. Lúcia Mendonça Previato, do Instituto de Microbiologia da UFRJ, estuda a doença de Chagas. Seu colega, Sérgio Ferreira, dedica-se às proteínas, e Maria Rita Passos Bueno, da USP, trabalha na identificação dos genes que exercem influência no desenvolvimento da face e da cabeça humanas. Fernando Reinach, também da USP, investiga como as mensagens moleculares são transmitidas dentro e entre as células, permitindo a realização de muitas atividades relacionadas com a vida. A conferência do HHMI se realizará em plena recessão no Brasil, com cortes nos gastos públicos, que, "sem dúvida, afetarão a pesquisa científica", diz Kalil, responsável pela avaliação do Programa de Núcleos de Excelência (Pronex), criado pelo governo para resgatar os grandes grupos de pesquisa. "Os projetos estão se desenvolvendo muito bem, mas o medo é que sejam interrompidos em 1999. E isso não é como um escritório, que se fecha e depois se abre novamente. O problema é que se perde continuidade", diz o médico do Incor, que no domingo passado reuniu-se no Rio de Janeiro com a sua equipe de avaliadores. "Aqui estamos relativamente protegidos pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que dá muito dinheiro para a pesquisa de qualidade e apóia os bons grupos. Mas fora do estado, depende-se muito de verbas federais, que estão sofrendo cortes." As restrições financeiras do governo também preocupam o HHMI. "Sabemos dessas dificuldades, mas investimentos sólidos em pesquisa biomédica trazem uma grande recompensa para o setor público e privado", diz Perpich. Segundo ele, o Congresso dos EUA "colocou US$ 2 bilhões a mais no National Institute of Health (um grande centro de pesquisa na área de saúde) devido aos benefícios que isso gera para as empresas de biotecnologia e a indústria farmacêutica." O vice-presidente de programas especiais do HHMI está convencido de que a AL "está condenada a um grande salto" na área científica, onde "a infra-estrutura educacional é muito boa". A conferência no Rio terá um painel para jornalistas brasileiros que cobrem assuntos médicos, ciência e tecnologia, e uma discussão sobre a política científica no País, com participação de ministros e dirigentes de órgãos de pesquisa.