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Correio Popular (Campinas, SP) online

Instituto de Zootecnia anuncia primeira clonagem suína da América Latina (224 notícias)

Publicado em 24 de abril de 2026

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Projeto visa usar órgãos de animais geneticamente modificados nos transplantes em seres humanos

O Instituto de Zootecnia (IZ), sediado em Nova Odessa, participou da primeira clonagem suína da América Latina como parte do projeto de se criar animais geneticamente modificados para que seus órgãos sejam usados em transplantes para seres humanos, técnica conhecida como xenotransplantes. O porco nasceu no Núcleo Regional de Pesquisa de Tanquinho do IZ, em Piracicaba, no dia 24 de março e hoje completa um mês de vida. O feito inédito tem ainda a participação da Universidade de São Paulo (USP), Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e parte do financiamento foi feito por uma indústria farmacêutica da região de Campinas. O objetivo da pesquisa é desenvolver uma tecnologia 100% nacional para ser usada no Sistema Único de Saúde (SUS).

O xenotransplante é uma técnica extremamente nova, sendo utilizada até hoje em quatro pacientes desde 2022, com todas as cirurgias sendo realizadas nos Estados Unidos. Esse nome é dado para transplante de células, tecidos ou órgãos de animais para outra espécie. A pesquisa brasileira tem o objetivo de reduzir a fila de espera para cirurgias por meio do desenvolvimento de animais que reduzam a rejeição dos órgãos. Segundo o Ministério da Saúde, há 48.773 pessoas em todo o Brasil à espera de um transplante de órgão, excluindo pele e córneas. O rim representa cerca de 90% dessa demanda e deverá ser o primeiro órgão a ser captado para cirurgias. Atualmente, válvulas cardíacas de porcos já são usadas em transplantes com humanos, assim como a pele é utilizada no tratamento de queimados.

O leitão clonado nascido no IZ ainda não tem as modificações necessárias para o xenotransplante, com os próximos passos da pesquisa envolvendo a alteração genética e a definição da melhor raça a ser usada como doadora de órgãos. “Nosso objetivo agora é acompanhar o crescimento dos clones até a maturidade sexual, fornecendo dados sobre este animal para futuras tomadas de decisões”, explicou a diretora do Núcleo Regional de Pesquisa de Tanquinho do IZ, a pesquisadora científica Simone Raymundo de Oliveira. A utilização de suínos nos xenotransplantes não é por acaso. Os porcos são animais domesticados há séculos pelos seres humanos, possuindo um ciclo de vida rápido, alcançando o peso necessário entre 60 e 90 dias, além de terem uma anatomia interna dos órgãos compatível também com os humanos.

INOVAÇÃO

“Para a produção desses animais, é necessário primeiro dominar técnicas avançadas em engenharia genética. A partir das modificações realizadas, realiza-se uma clonagem, muito semelhante ao que aconteceu com a ovelha Dolly na década de 90, que é um desafio tecnológico muito alto” afirmou Ernesto Goulart, pesquisador do Centro de Estudos do Genoma Humano e de CélulasTronco (CEGH-CEL) do Instituto de Biociências da USP. “E, por fim, produzir os animais de fato, processo que tem que ser realizado em estruturas de altíssimo controle de biossegurança para garantir que os órgãos e tecidos desses estejam livres de patógenos, para não representar riscos aos potenciais futuros receptores”, acrescentou.

A pesquisa envolve uma equipe multidisciplinar, com a participação de médicos, farmacêuticos, veterinários, biólogos e outros profissionais. A técnica de clonagem usada foi desenvolvida pela equipe. Foram utilizadas células de fibroblasto (pele), que são jovens e estão em plena atividade produtiva, de um animal doador introduzidas nos óvulos da porca, que teve seu núcleo removido. A técnica desenvolvida permitiu o desenvolvimento do processo de embriogênese (origem do embrião) com características idênticas às do doador. O embrião foi depois implantado na porca para a gestação. Os pesquisadores já definiram os genes suínos que precisam ser desativados para evitar a rejeição do órgão pelo ser humano. A previsão é iniciar a geração de embriões geneticamente modificados em breve.

O laboratório, que começou a ser construído em 2024 no núcleo regional do Instituto de Zootecnia, tem o acesso restrito aos envolvidos na pesquisa e é capaz de impedir que os germes que circulam fora contaminem os porcos geneticamente modificados. “Até os alimentos que serão fornecidos aos animais serão submetidos a irradiação gama para esterilização e para evitar qualquer possibilidade de ter algum patógeno”, explicou Simone de Oliveira. A equipe de pesquisadores evitou fazer uma previsão de quando os primeiros órgãos suínos geneticamente modificados poderão ser usados em xenotransplante. O Ministério da Saúde e a FAPESP estão apoiando o projeto.

Meta é reduzir a falta de doadores, salvar vidas e diminuir filas

O pesquisador Ernesto Goulart defendeu a discussão ética e de biossegurança envolvendo o xenotransplante. “Não devemos deixar esse debate para o futuro, quando isso estiver avançado; é necessário tratar agora e existem várias perspectivas que precisam ser consideradas, sejam elas da sociedade civil, de diferentes religiões ou outras frentes. O debate é muito importante, primeiramente, para educar, já que existe um grande desconhecimento sobre o assunto e, segundamente, para ouvir esses diferentes estratos da sociedade”, afirmou.

Para o cientista, é preciso levar em consideração, ainda, a preocupação com o bem-estar do animal. “Todos os protocolos de manejo de animal devem ser baseados nos melhores e mais exigentes padrões de qualidade internacional, e revisados por especialistas em comportamento animal, de suínos, principalmente”, acrescentou. As principais vantagens apontadas pelo xenotransplante com órgãos de porcos podem reduzir a falta de doadores, salvar vidas e diminuir filas. Além disso, o desenvolvimento de porcos com órgãos compatíveis permite a reprodução rápida, garantindo oferta contínua e previsível.

“O IZ tem a expertise no animal e tudo o que o envolve: ambiente, comportamento, nutrição, tratamento de efluentes, controle de ar, controle de doenças”, explicou a diretora do Núcleo Regional de Pesquisa de Tanquinho, Simone Raymundo de Oliveira. Porém, o fundador e coordenador do Grupo de Pesquisa, Ensino e Extensão em Ética Animal da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Gustavo Henrique de Freitas Coelho, apontou que há “uma visão excessivamente otimista do xenotransplante, desconsiderando o histórico de pesquisa marcado por inúmeros fracassos, bem como os desafios clínicos inerentes ao procedimento”.

“Há ainda o risco de que, mesmo que o órgão transplantado esteja sadio, poderá permanecer sensível a organismos infecciosos da espécie à qual pertence, ou então que vírus suínos desconhecidos, benignos e latentes, venham a se manifestar anos mais tarde”, disse Gustavo Coelho. Especialistas apontam como alternativas o uso de órgãos artificiais e terapias regenerativas, sem sacrificar vidas animais.