Notícia

Folha do Progresso

Instituto Butantan quer parceria com empresas para desenvolver pesquisas na Amazônia

Publicado em 21 abril 2010

Há mais de quatro anos atuando na Amazônia, o Instituto Butantan quer fazer parcerias com empresas para fortalecer o projeto do Instituto na região. Para atrair a atenção das indústrias, principalmente da área farmacêutica, foi realizado nesta segunda, 19, o seminário Perspectivas do Projeto Butantan - Amazônia para Indústria Brasileira, no qual pesquisadores apresentaram produtos desenvolvidos pelo Butantan na região. O evento aconteceu na sede da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp).

A Amazônia é fundamental para o Butantan em vários aspectos. Só para citar um exemplo, é o único lugar no país em que coexistem os quatro principais grupos de serpentes peçonhentas, disse Otávio Azevedo Mercadante, diretor-geral do instituto. Segundo ele, o Butantan está investindo em um centro de pesquisas em Belterra (PA). O instituto auxiliará na formação de doutores por meio de parcerias com universidades que trabalharão em projetos utilizando a biodiversidade local como material de pesquisa.

Também faz parte do projeto Butantan-Amazônia a recuperação da arquitetura local herdada da Fordlândia, vila fundada pela Ford no início do século 20 com características norte-americanas. O Butantan também distribui panfletos para mais de 100 povoados ribeirinhos, com informações sobre o risco de acidentes com animais peçonhentos. Trata-se da região no país com maior incidência de acidentes do tipo.

Com o financiamento do BNDES, Fapesp, Finep, Capes e CNPq, o Butantan é responsável por 90% das vacinas em território nacional e registra produção crescente. De acordo com Otavio Mercadante, o atendimento ao Programa Nacional de Imunização, por exemplo, tem tanta importância quanto a preservação da biodiversidade e a bioprospecção, sendo que esta pode oferecer também oportunidades e possíveis parcerias público-privadas.

A pesquisa tem o objetivo de buscar autosuficiência, o que envolve a transferência de tecnologia, e aí está o grande desafio. Só há transferência quando existe competência para recebê-la, para abrir essa caixa preta, analisou Mercadante, ao lembrar a tríplice missão do Instituto: produção de imunobiológicos, pesquisa e desenvolvimento e difusão cultural.

Para Otávio Mercadante, a integração entre os cientistas e o setor privado ainda é uma dificuldade a ser superada no desenvolvimento da pesquisa no Brasil. A indústria brasileira agora que está despertando e incluindo na sua estratégia a questão da inovação e do investimento em pesquisa, ressaltou.

Formação

Até agora a atuação do Butantan na Amazônia tem focado a identificação de espécies da biodiversidade que possam ser utilizadas para o desenvolvimento de medicamentos. As ações do Instituto nesse tipo de pesquisa são focadas, principalmente, na utilização de animais peçonhentos.

Com o objetivo de fomentar o desenvolvimento local, o projeto do Butantan na Amazônia pretende formar especialistas, com nível de doutorado, nativos da região, conforme destacou Mercadante. A gente acredita que consegue realmente passar a mensagem do desenvolvimento sustentável da Amazônia, do desenvolvimento científico, principalmente, para que se tenha aquela população tradicional ribeirinha conseguindo realmente dar saltos no conhecimento e se fixar na região.

O ideal, na opinião de Mercadante, é que grande parte desse doutores passem a trabalhar dentro das indústrias. A indústria tem que perceber a importância e empregar doutores na suas unidades de pesquisa e desenvolvimento. Ao contrário de outros países do mundo, o Brasil tem pouquíssimos doutores na indústria. Precisamos ter mais doutores na indústria do que na academia, como acontece em outros países, afirmou.

Spartaco Astolfi Filho, professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), falou da falta de pessoal especializado no Norte do país para se trabalhar com pesquisas de biotecnologia e convidou o Butantan a participar da Rede de Biodiversidade e Biotecnologia da Amazônia Legal (Rede Bionorte), que procura formar doutores dessas áreas nos nove Estados que participam da Amazônia Legal.

Formar doutores locais é uma tarefa das mais importantes. Os doutores criam e lideram grupos de pesquisa, abrem empresas e interagem com a iniciativa privada, disse. Astolfi, que também é consultor da farmacêutica Cristália, apresentou o departamento de pesquisa da empresas que também têm parceria com o Instituto Butantan.