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Jornal do Commercio (RJ) online

Instituto Butantan: muito além das cobras

Publicado em 31 outubro 2005

Por Rodrigo Squizato, do Jornal do Commercio

Mais de cem anos após a posse do médico sanitarista Vital Brazil no então Instituto Serumtherápico, o nível e vigor das pesquisas do Instituto Butantan continuam a mostrar a razão pela qual a entidade está entre os mais renomados centros de pesquisas relacionados a animais peçonhentos. Embora o estudo dos venenos de cobras, aranhas e escorpiões ainda esteja presente nas principais linhas de pesquisa do Butantan, atualmente os mais de 400 pesquisadores que trabalham no órgão - ligado à Secretaria da Saúde do Governo de São Paulo - apresentam a cada ano um maior número de trabalhos que não estão relacionados aos bichos que fizeram a fama da entidade.
Muitos pesquisadores do Butantan desenvolvem linhas de pesquisa relacionadas à microbiologia. O laboratório de virologia, por exemplo, realiza estudos relacionados ao vírus influenza, responsável pela gripe.Uma das atividades desenvolvidas nesta divisão é a análise genômica deste microorganismo. É este trabalho que permite identificar os diversos tipos de vírus da gripe, como o da atual ameaça da gripe aviária, que colocou o instituto novamente no foco da mídia. O objetivo do Butantan é a saúde pública, lembra a diretora da divisão de desenvolvimento científico, Ana Maria Moura da Silva. Por isso só são aprovadas linhas de pesquisa que se enquadrem neste perfil.
O laboratório de virologia é apenas um dos 13 que funcionam por lá. Além deles também são desenvolvidas pesquisas clínicas no Hospital Vital Brazil, especializado no atendimento de pessoas picadas por animais peçonhentos.
As pesquisas são financiadas em parte pela Estado de São Paulo - que custeia a infra-estrutura e o salário dos pesquisadores - e também por instituições de fomento como a Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) que pagam os mais de 300 bolsistas que realizam pesquisas no Butantan.
O resultado mais visível deste esforço é o grande volume de artigos científicos publicados no Brasil e no exterior. Uma amostra disso pode ser conferida no próprio site da entidade em www.butantan.gov.br.

Analgésico mais potente que morfina
Outra forma de propagação das pesquisas são os seminários, explica a diretora da divisão de desenvolvimento científico do Butantan, Ana Maria Moura da Silva. Mas todo este conhecimento não fica restrito à parte teórica, muito ao contrário. O Butantan tem vasta relação de produtos que nasceram nas salas de pesquisa e essa lista só tende a aumentar.
Ana Maria explica que está em fase de testes um potente analgésico - mais forte do que a morfina - feito a partir de moléculas de soro de cobra cascavel. Além de ser mais potente, o novo medicamento, caso seja aprovado para uso em humanos, tem a vantagem de não causar dependência química, como acontece com a morfina.
Outro produto que está em fases de teste no laboratório é um reagente para ser usado nos exames diagnósticos de câncer. Em parceria com o Hospital das Clínicas, o Butantan desenvolveu este medicamento também a partir de veneno de cobra.
Outras linhas de pesquisa podem ainda gerar frutos no futuro. É o caso, por exemplo, do estudo da saliva de animais hematófagos que podem revelar novas informações a respeito do processo de coagulação humana.
Recentemente, o Butantan também anunciou o início da produção de soro em pó. A entidade conseguiu liofilizar soros contra serpentes dos gêneros Bothrops (jararaca e jararacuçu), Crotálus (cascavel), Lachesis (surucucu) e Micrurus (coral). A grande vantagem desta inovação é que ele dispensa refrigeração, o que o torna acessível às populações que vivem em regiões isoladas. Para usá-los, basta hidratá-lo em água esterilizada.