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Cana Oeste

Instituições pesquisam cana do futuro

Publicado em 26 maio 2010

Nos próximos oito anos, cientistas de 32 instituições de pesquisa de São Paulo vão se dedicar a estudar a fundo a cana-de-açúcar e outras espécies vegetais que podem ser usadas como fontes de biocombustíveis. Eles integram o Programa Fapesp de Bioenergia (Bioen), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, que tem como objetivo gerar novos conhecimentos sobre as plantas, sua produção e o processamento da biomassa para o desenvolvimento de biocombustíveis. Com isso, pretende-se ajudar a garantir a posição do Brasil entre os líderes na área de bioenergia.

O Bioen começou em 2008 e tem prazo previsto de duração de dez anos. O programa está estruturado em torno de cinco grandes áreas de pesquisa. Uma delas é sobre biomassa, principalmente no melhoramento da cana-de-açúcar, o que inclui genômica, bioquímica, biologia celular e fisiologia. As outras são o processo de fabricação de biocombustíveis; as aplicações do etanol para motores automotivos; estudos sobre biorrefinarias e alcoolquímica; e impactos sociais e ambientais do uso de biocombustíveis.

Os primeiros projetos de pesquisa do programa foram contratados pela Fapesp em 2009. "Atualmente, temos 55 em andamento, que somam cerca de R$ 55 milhões em investimentos", diz Gláucia Mendes Souza, pesquisadora do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP) e coordenadora do Bioen. "Parte desses recursos é financiada pelas empresas Dedini, Braskem, Oxiteno e Microsoft." No conjunto, os projetos buscam a "cana do futuro", que deverá ter alto teor de sacarose, grande resistência à seca e maior quantidade de biomassa.

Até chegar a isso, no entanto, a ciência ainda precisará percorrer um longo caminho, que passa pelo conhecimento do DNA da cana. O entendimento das diferenças no genoma dos organismos é um dos grandes desafios para o melhoramento genético de uma determinada espécie. Por isso, há um grupo no Bioen, liderado pela pesquisadora Marie-Anne Van Sluys, do Instituto de Biociências (IB) da USP, que trabalha há dois anos no sequenciamento de mil pedaços lineares do genoma da cana, tarefa que deverá se estender por igual período. São áreas do DNA da planta de interesse para o programa, contendo genes associados com o aumento da sacarose e com a resistência e a tolerância à seca.

O Bioen não se limita, no entanto, aos aspectos puramente científicos da bioenergia. Há também preocupação com as diretrizes das políticas públicas para o setor sucroalcooleiro. Essa é a área de atuação do grupo de trabalho liderado por Luiz Augusto Barbosa Cortez, da Faculdade de Engenharia Agrícola da Universidade de Campinas (Unicamp). "Nas nossas pesquisas, procuramos identificar os gargalos da cadeia de produção desse setor", explica. "Chegamos à conclusão que o principal deles é o não aproveitamento integral da cana. Por isso, é preciso desenvolver tecnologias para o aproveitamento racional também da palha e do bagaço. O grande salto do setor será dado quando isso ocorrer."

Para Marcos Buckeridge, que coordena o grupo de trabalho que pesquisa melhores alternativas para a produção de etanol celulósico, o investimento em bioenergia, tem grande potencial de tornar o Brasil um líder mundial em uma área de ciência e tecnologia de ponta. "Se o nosso país mantiver firmes os investimentos e aumentá-los ainda mais, em 10 ou 20 anos deveremos ter um ótimo retorno de toda essa aplicação", acredita. "Por isso, é crucial, neste momento, principalmente de transição política, que os tomadores de decisão que assumirem o governo estejam plenamente conscientes disso."

Fonte: Valor Econômico