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O Diário (Mogi das Cruzes) online

Insônia ativa sexualidade e prejudica fígado e o coração

Publicado em 15 maio 2005

Monica Levy Andersen conhece bem a importância de uma boa noite de descanso. Mesmo assim ela já abriu mão de horas preciosas de sono durante meses para se dedicar a uma paixão recente: investigar como longos períodos de privação de sono afetam o organismo. De outubro de 2002 a fevereiro de 2003, Monica se levantou de segunda a sábado às 5h30 e antes das 7 já estava em seu laboratório com uma dezena de ratos preparados para os primeiros experimentos do dia.
Em uma pequena sala do Laboratório do Sono da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), essa biomédica acompanhou nesses meses o comportamento de roedores mantidos acordados por quatro dias seguidos. Seu objetivo inicial era investigar a origem da agressividade e da agitação decorrentes da falta de sono, observadas pela primeira vez no final da década de 1970 pelo médico Sergio Tufik, hoje um dos principais especialistas em distúrbios do sono no país. À frente do Centro de Estudos do Sono, Tufik coordena uma série de pesquisas que mapeiam os distúrbios do sono, capazes de provocar danos aos neurônios e a órgãos como o fígado e o coração.
Monica observou um efeito inesperado que — num primeiro momento — pode até animar os rapazes, além de questionar o conhecimento atual sobre os hormônios sexuais. Depois de tirar os ratos de um tanque com água em que se equilibravam sobre plataformas secas — se dormissem, cairiam na água e acordariam — e os transferir para suas gaiolas individuais, ela notou que metade dos animais passou a ter ereção espontânea e a ejacular antes de cair no sono, mesmo sem nenhuma rata por perto. "Como a privação de sono afeta o funcionamento de uma área do sistema nervoso associada ao prazer, encontrei nesse efeito a oportunidade de avaliar se drogas como a cocaína, a maconha e as anfetaminas de fato melhoram o desempenho sexual, como dizem seus usuários", conta Monica.
E melhorou? Depende. Chamado de hipersexualidade, esse aumento de interesse por sexo tornou-se ainda mais intenso quando a biomédica injetou nos ratos cocaína ou ecstasy, drogas que agem sobre o centro cerebral de reforço do prazer. Todos os animais que receberam um desses dois compostos tiveram ereção — em muitos casos, ereções múltiplas. Antes que algum marmanjo imprudente tente repetir essa experiência, é preciso deixar claro que esse efeito só aparentemente é benéfico. O uso contínuo de cocaína causa impotência sexual e a privação prolongada de sono gera um desequilíbrio bioquímico no organismo capaz de levar à morte.
O estudo aprofundado desse efeito rendeu a Monica, aos 31 anos, uma invejável produção científica. São 34 artigos científicos, 20 deles já publicados e o restante previsto para sair em breve, todos reunidos em uma tese de doutorado de 500 páginas feita em três anos, com apoio financeiro da FAPESP. Esse trabalho permitiu-lhe ainda chegar a uma possível explicação para a hipersexualidade decorrente da insônia forçada: seria um tipo de compensação pelas ereções que ocorrem durante o sono que o roedor deixou de ter enquanto permaneceu acordado.
Alguns mamíferos, entre eles os ratos e os homens, têm ereções espontâneas na mais peculiar das cinco fases do sono: o sono REM (Rapid Eyes Movement), quando os músculos associados ao movimento voluntário ficam paralisados e ocorrem os sonhos. Nessa fase o sistema nervoso central se encontra tão ativo quanto durante a vigília, razão por que o REM também é chamado de sono paradoxal (até uns 80 anos atrás pensava-se que a atividade cerebral era menor durante o sono). Há cerca de cinco anos, o médico Markus Schmidt, do Instituto Ohio de Neurociência e Medicina do Sono, nos Estados Unidos, propôs que essas ereções associadas ao sono REM teriam uma função biológica: servir de treino para a cópula, já que, ao menos na natureza, a sobrevivência depende da reprodução eficiente e os encontros para o acasalamento são imprevisíveis. Portanto, é preciso estar preparado.
Esses indícios levaram Monica e o orientador do seu trabalho, Sergio Tufik, a pensarem na hipersexualidade como um segundo efeito de uma mesma causa: assim como quem não prega os olhos por uma noite inteira precisa de mais horas de sono na madrugada seguinte — é o chamado rebote de sono —, o mesmo ocorre com as ereções espontâneas do sono REM.
O mais importante dessa série de estudos é indicar que o desequilíbrio dos níveis de mensageiros químicos do sistema nervoso — a exemplo dos neurotransmissores dopamina e serotonina sobre os quais agem, respectivamente, a cocaína e o ecstasy — está associado à disfunção erétil de origem neurológica. Disparada pela alteração no ritmo de liberação desses neurotransmissores em regiões do encéfalo ligadas ao desejo sexual e às emoções, essa forma de disfunção erétil é diferente daquela de origem física, provocada pela irrigação sangüínea insuficiente do pênis. "Possivelmente o desejo e o desempenho sexuais dependem de que todos os neurotransmissores se encontrem em níveis adequados no sistema nervoso", diz a pesquisadora.