Notícia

Correio Popular

Insetos ajudam a elucidar crimes

Publicado em 12 dezembro 2010

Por Fábio Trindade

Quem acompanha a série de televisão norte-americana CSI: Investigação Criminal com certeza conhece o personagem protagonista Gil Grisson, um entomologista forense que trabalha em um laboratório criminal. A entomologia forense é a aplicação do estudo da biologia de insetos e outros artrópodes em, por exemplo, processos criminais. Estuda evidências em eventos como assassinato, suicídio, estupro e abuso físico para determinar local e tempo dos incidentes de acordo com a fauna encontrada no corpo e o estágio de desenvolvimento. A série de ficção mostra um procedimento extremamente importante dos institutos especializados da vida real e que tem tido grandes avanços. Uma pesquisa coordenada pelo professor Arício Xavier Linhares, do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa (Fapesp), mapeou em diversas regiões os insetos de interesse forense presentes no Estado de São Paulo com o intuito de fornecer melhor embasamento aos peritos.

Os dados levaram em conta as migrações dos insetos em diferentes ambientes: urbano, rural e silvestre, e devido à grande diversidade, os pesquisadores consideram importante a criação de um banco de dados para auxiliar nas investigações. Dotados de órgãos ultrassensíveis a odores, os insetos costumam ser os primeiros a encontrar um cadáver — em alguns casos podem chegar ao local de uma morte em cerca de dez minutos. Podem indicar movimentação no corpo e a presença de substâncias químicas, além do local e até mesmo o modo e a causa da morte. "Tínhamos apenas uma ideia das espécies presente em São Paulo, mas não sabíamos com exatidão a sua distribuição pelos diferentes biomas e regiões do Estado", explicou Linhares.

Para Cláudio José Von Zuben, do Departamento de Zoologia do Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Rio Claro e um dos pesquisadores envolvidos no projeto, o Brasil precisava de um estudo focado na área, pois os países desenvolvidos, como Estados Unidos e parte da Europa, já estão em estado bem avançado na utilização de insetos em assuntos criminais. "Para se ter uma ideia, existe a obrigação do acompanhamento de dois entomologistas nas investigações em alguns países e isso prova como a técnica é bem difundida e fundamental."

O pesquisador explica que a partir da idade e sequência de evolução da larva, assim como as medições de peso e comprimento, estima-se o intervalo pós-morte (IPM). "É preciso levar em conta diversos fatores, como a condição de temperatura. Por isso, a primeira coisa a ser feita é consultar um instituto meteorologia co, porque a temperatura de 3 termina a velocidade de evolução dos insetos", afirmou Vón Zuben. . ú

O perito criminal do Instituto de Criminalística (IC) de Campinas Eduardo Becker disse que se basear apenas nos processos de morte, como a decomposição, torna praticamente impossível saber o IPM. Nas investigações, a morte não é um momento exato, mas sim o período do falecimento da pessoa até o corpo chegar à ossada porque, durante todo esse processo, muitas coisas ainda acontece no cadáver. Com o inseto, é possível saber, por exemplo, se o local é o mesmo onde o corpo foi encontrado. "A técnica permite descartar os achismos para conseguir dados concretos."