Notícia

Jornal de Piracicaba

Inseto monitora pressão do ar para prever tempestades

Publicado em 15 outubro 2013

Besouros, mariposas e pulgões evitam copular horas antes de tempo ruim; capacidade evoluiu por necessidade de animais se protegerem da água e dos ventos, diz biólogo da USP de Piracicaba.

Insetos possuem um tipo de percepção para algo que humanos não conseguem fazer sem o auxílio de instrumentos: prever o tempo. Um experimento de biólogos da USP acaba de mostrar que esses invertebrados monitoram a pressão atmosférica para antever tempestades.

Segundo os cientistas da Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, de Piracicaba), que publicaram um estudo sobre o trabalho, essa habilidade é tão dissemínada entre insetos que está presente em espécies tão dístíntas quanto besouros, mariposas e pulgões. Para Mauricio Bento, um dos autores do estudo, o fato de essa caro cacteristica ser tão comum nesse grupo de animais surgiu de uma vulnerabilidade especial que eles apresentam a ventos muito fortes e chuvas torrenciais.

“O impacto de uma gota pode parecer pouco, mas é algo forte em organismos diminutos como os insetos”, diz Bento. “Se eles não tivessem a capacidade adaptativa que estamos conhecendo agora com esse trabalho, provavelmente isso prejudicaria a capacidade reprodutiva desses organismos e sua própria presença na Terra.” Amaneira com a qual esses animais conseguem antever um temporal não é por valores absolutos de pressão atmosférica, mas quando esta começa a cair. Uma alteração tão baixa quanto 2 milibares de pressão no ar – imperceptível para humanos – é suficiente para alterar o comportamento de animais.

Na etapa do experimento em que os pesquisadores analisaram um besouro, os cientistas notaram que, sob queda de pressão, machos deixavam de dar tanta atenção ao feromônio da fêmea Na natureza, esses animais estariam mais preocupados em achar abrigo do que em copular naquela circunstância, pois quedas de pressão em geral antecedem temporais em algumas horas.

 

DESPRESSURIZACÃO

 

Para chegar a essa conclusão, os cientistas mantiveram um rígido controle de suas observações, monitorando de hora em hora a pressão atmosférica em Piracicaba. Numa segunda etapa, os cientistas decidiram realizar um experimento mais controlado. Para isso, a bióloga Ana Cristina Pellegrino viajou para a Uníversídade de Ontário Ocidental, no Canadá, para realizar mais testes dentro de uma câmara barométrica, um equipamento que controla a pressão do ar com precisão.

Observando pulgões e mariposas dentro do aparelho, ela notou que fêmeas não se preocupavam em emitir feromônios sexuais durante quedas de pressão simulada. A escolha das espécies para o experimento, diz Bento, considerou que uma delas – o besouro – era mais resistente, e outra – o pulgão – mais frágil (a mariposa está num nivel intermediário). Como insetos de diferente porte exibiram a habilidade, provavelmente ela se estende por toda a classe de animais. O estudo da Esalq, bancado por Fapesp, CNPq e fundos canadenses, foi publicado na revista PLoS One. (Folhapress)