Notícia

O Liberal (PA)

Inovações x atraso tecnológico

Publicado em 19 julho 2000

Por MIRANDA NETO - Economista
O fosso entre os países detentores de ciência e tecnologia (C&T) e os dependentes desta transferência se aprofunda cada vez mais. Como superar os entraves culturais e burocráticos, identificando os principais problemas que prejudicam o Brasil, por exemplo, de entrar para a 'sociedade do conhecimento'? A nova política de C&T precisa adorar uma linha básica de ação que recomende não permitir a biopirataria, nem a transferência de insumos vitais ao desenvolvimento sem a fiscalização e o controle do Estado brasileiro. A maior inserção do Brasil no mercado global vai depender do progresso tecnológico a partir das inovações aqui geradas. Rira alcançá-lo, toma-se fundamental investir na capacitação profissional, contando com a parceria dos empresários-líderes de cada setor produtivo, que deverão priorizar a melhoria, a diversificação de seus produtos e das pesquisas em C&T para garantir-lhes mercado e competitividade. O apoio da Universidade é imprescindível, deverá ser responsável em intensificar o compromisso com a realidade socioeconômica e as necessidades basilares do setor produtivo. Finalmente, os cinco poderes - Executivo. Legislativo, Judiciário, imprensa e sociedade civil - representando a nação brasileira nas esferas federal, estadual e municipal, precisam renovar a disposição para coordenar esse processo, vital à garantia de novas fontes de financiamento à pesquisa. A fim de se obter êxito na política de C&T torna-se indispensável identificar as interfaces existentes no interior do próprio Executivo, exigindo um levantamento interministerial nas áreas de Educação, Integração Regional, Meio Ambiente, Agricultura, Defesa e Saúde, e a constituição de fundos setoriais de desenvolvimento e pesquisa, que deverão inaugurar um modelo de gestão de programas transdiciplinares de desenvolvimento científico e tecnológico em energia, recursos hídricos, transportes e mineração. Os desafios para desencadear processos de desenvolvimento tecnológico sustentável na indústria tiveram de ser primeiro enfrentados pelo empresariado de São Paulo, que concentra 70% dos doutores. 50% da produção científica, equivalendo a 35% do total de investimentos em C&T efetivados pelo governo federal. A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo - Fapesp - consolidou vários programas como o de incentivo à inovação tecnológica na pequena empresa. Foi a partir desse estímulo que as inovações começaram a surgir, interagindo entre as diferentes áreas do conhecimento, como produção industrial, biotecnologia, informática e meio-ambiente. O ciclo de inovação tecnológica implantado pela Fapesp parte do próprio ambiente empresarial, incrementando um ciclo cultural de pesquisas dentro das indústrias em parceria com núcleos acadêmicos de experimentação tipo 'incubadoras de projetos' da UFPA. A relação universidade-empresa é importante, mas a inovação tecnológica deve brotar de atividades de pesquisa dentro da empresa. A função essencial da Universidade será a de formar quadros competentes para as necessidades do mercado. Ao Estado caberá o financiamento das pesquisas em inovações. A empresa deverá alocar os recursos para a pesquisa nela mesma ou até terceirizando os serviços de outras empresas. O Estado tende a acompanhar a regra geral e participar no financiamento das pesquisas e na capacitação docente na Universidade. Quando se focaliza o esforço de investimento em inovações na pequena empresa está se criando uma cultura de pesquisa dentro da indústria nacional. Antes dessa nova visão estratégica, o empresário garantia seus lucros de forma relativamente cômoda. Hoje, para garantir a competitividade no mercado nacional e internacional, com perspectivas de expansão, a economia aberta exige as condições mínimas para a inovação tecnológica, única alternativa para garantir diferenciais qualitativos. As realidades regionais apresentam diversos níveis de desenvolvimento científico e tecnológico. A descontinuidade dos planos nacionais, a corrupção e o desperdício de recursos mal dimensionados, a permanente crise nas instituições onde mais se realiza a pesquisa científica e sobretudo a ausência de um grande projeto nacional exeqüível lançam um permanente desafio ao pesquisador idealista e arrojado. Com a intensificação e expansão da economia globalizada, a interdependência entre setores, empresas e mercados possibilitou o surgimento de nichos com potencial para gerar inovações competitivas em varias áreas como biotecnologia, software, microeletrônica e química fina. O Brasil despeja mais de dois milhões de toneladas de resíduos plásticos no meio ambiente a cada ano. Só no Estado de São Paulo são descartadas 900 mil toneladas anuais, sendo 40% de embalagens plásticas de origem petroquímica que levariam além de um século para se, decompor. A queima destes resíduos produz compostos altamente tóxicos e a reciclagem exige profunda mudança cultural, cuja implantação pode levar décadas. Ficaram cada vez mais evidentes os enormes transtornos e prejuízos acumulativos resultantes da irracional e irresponsável utilização de produtos plásticos tanto ao meio ambiente quanto à saúde humana. A resistência mecânica, o modo de processamento e a decomposição orgânica em cinco diferentes tipos de solo foram avaliados para os diferentes materiais alternativos. A resina produzida a partir da cana-de-açúcar poderá resultar num material biodegradável a ser utilizado para embalagens, vasilhames, pratos, copos e talheres 'orgânicos'. Até para fins exclusivamente médicos pode ser utilizado o subproduto de origem orgânica como substituto dos pinos de platina implantados em pacientes com fraturas. O organismo acaba absorvendo o material sem necessidade de nova cirurgia para sua remoção. Uma das últimas façanhas do programa de estímulo às inovações foi conseguir desenvolver um material semelhante ao isopor, com a vantagem de ser biodegradável. Trata-se da bioespuma, criada pelo pesquisador e empresário Eduardo Kehl, a partir de produtos naturais renováveis derivados de óleos vegetais, soja e mamona, cana-de-açúcar e amido de milho. Desnecessário se toma ressaltar suas vantagens competitivas como insumo para embalagens descartáveis para os alimentos e como substituto para o PVC e o polietileno, derivados do petróleo altamente poluentes. e-mail: miramazon@expert.com.br