Notícia

A Granja

Inovações tecnológicas na aplicação de defensivos

Publicado em 01 fevereiro 2004

Por Prof. Dr. Ulisses Rocha — Antuniassi - FCA/Unesp - Botucatu/SP - ulisses@fca.unesp.br
A previsão de receita do mercado de defensivos no Brasil para o ano de 2004 é de US$ 2,5 bilhões, sendo que cerca de 40% desse total deve ser destinado apenas aos produtos para a soja. Nesse contexto, a aplicação de defensivos corresponde a uma das parcelas de maior importância no custo de produção agrícola, notadamente nos sistemas de plantio direto, no qual somente a aplicação de herbicidas pode representar cerca de 30% dos custos de implantação das culturas. O sucesso da aplicação e o resultado do controle estão diretamente ligados à correta seleção das pontas (bicos) de pulverização, do volume de calda e da velocidade de trabalho, parâmetros que também devem ser adequados as recomendações agronômicas relativas a cada defensivo utilizado. A evolução e a popularização do sistema de plantio direto, a busca por menores custos e maior eficiência e a redução do impacto ambiental têm mudado o perfil tecnológico da aplicação de defensivos no Brasil. Em contraste com os padrões de alto volume de calda e baixa tecnologia empregada nos equipamentos de aplicação utilizados nas décadas passadas, atualmente os agricultores dispõem de técnicas avançadas, como aditivos de calda, pontas antideriva, assistência de ar, pulverização eletrostática, injeção de defensivos e aplicação localizada (agricultura de precisão), entre outros. Citando alguns exemplos dessa evolução, resultados de pesquisas indicam que, para o controle de plantas daninhas em plantio direto, o volume médio de calda utilizado atualmente pelos produtores de soja no Brasil é de 120 litros/ha. Em algumas regiões, esse valor vem sendo constantemente reduzido. Essa tendência mostra a preocupação de agricultores e técnicos brasileiros na constante melhoria da qualidade e eficiência do tratamento fitossanitário. Aditivos de calda — O uso de aditivos de calda tornou-se muito popular, apesar do pouco conhecimento difundido sobre a real função de cada tipo de substância. Seguem abaixo os principais aditivos utilizados atualmente, de acordo com algumas de suas funções esperadas. - Óleos (vegetal e mineral): diminuição de evaporação e facilidade de penetração. - Uréia: absorção. - Sulfato de amônio: adequação do pH. - Espalhantes: aumento da área de contato. - Adesionantes: aumento da adesão das moléculas às plantas. - Quelatizantes: redução da reatividade de íons, facilitando a aplicação conjunta de adubos foliares e/ou uso de água dura. - Dispersantes: redução da decantação. - Umectantes: redução da evaporação. - Emulsificantes: facilitação da mistura. - Redutores de deriva: alguns espessantes diminuem a formação de gotas muito pequenas. Grande parte dos problemas relacionados ao uso de aditivos de calda vem do desconhecimento de sua ação e das implicações de sua utilização. Como exemplo, o processo de formação de gotas a partir da ponta (bico) pode ser significativamente alterado pela modificação de características físicas da calda, notadamente pelo uso de certas formulações e pela adição de surfactantes. Assim, fatores básicos, como tamanho e espectro de gotas, podem ser alterados de maneira mais significativa por variações na calda do que pela própria troca das pontas de pulverização. Por esse motivo, a utilização de aditivos de calda deve ser precedida de um rigoroso estudo das reais necessidades do sistema de aplicação e suas conseqüências, visando maximizar os efeitos benéficos do emprego dessa tecnologia. Tecnologias para redução do volume de calda, redução da deriva e melhoria da cobertura e deposição O volume de calda é um dos parâmetros fundamentais para o sucesso da aplicação. A sua definição depende do tipo de alvo a ser atingido, da cobertura necessária, da forma de ação do defensivo e da técnica de aplicação, dentre outros fatores. O volume de calda influencia também a eficiência operacional da aplicação, pois o tempo gasto nas atividades de reabastecimento altera significativamente a capacidade operacional dos pulverizadores (número de hectares tratados por hora). Usualmente, as aplicações em volumes reduzidos acabam sendo realizadas ' com gotas muito finas, aumentando o risco de perdas, principalmente por evaporação ou deriva. Em geral, recomenda-se que as aplicações, em volumes muito baixos ou ultrabaixos, sejam realizadas com metodologias de controle da evaporação da água, ou mesmo a substituição da água por outro meio. Um exemplo dessa técnica, que vem tornando-se bastante popular no Centro-Oeste, é o emprego de óleo como aditivo em aplicações aéreas em ultrabaixo volume (técnica conhecida como "BVO" - Baixo Volume Oleoso). A utilização de assistência de ar em barras de pulverização também pode reduzir o risco de deriva, assim como melhorar a deposição e a cobertura, dependendo do estágio de desenvolvimento da cultura (quantidade de massa foliar). Em geral, os resultados de pesquisa têm mostrado que a assistência de ar ajuda a reduzir a deriva para aplicações com gotas pequenas em condições climáticas desfavoráveis (vento acima do recomendado, por exemplo), além de melhorar a deposição nas partes inferiores de plantas de maior porte. Entretanto, para plantas de menor porte, o sistema pode não trazer vantagens, ou ainda, até aumentar a perda de calda para o solo. Outra tecnologia que vem sendo discutida é a aplicação eletrostática. Em termos básicos, o sistema carrega eletricamente as gotas aplicadas, causando um efeito de atração entre as gotas e as plantas. Dados apresentados por Souza et al. (2002) mostram que o sistema proporcionou aumento e uniformização dos depósitos de herbicidas em plantas daninhas, para aplicações em pós-emergência inicial. Por outro lado, há relatos de dificuldade de controle em aplicações eletrostáticas quando o alvo se encontra no interior de plantas com grande enfolhamento. Até o momento, não foram publicados dados científicos no Brasil que permitam uma análise detalhada do desempenho desse sistema em todas as condições de trabalho, ao longo de uma safra completa, incluindo os diferentes estágios de desenvolvimento das culturas e das daninhas. Outra tecnologia que vem se destacando no mercado é a ponta de indução de ar. Essas pontas possuem orifícios por onde o ar é succionado pela própria passagem do líquido. Assim, ar e líquido se misturam e as gotas formadas são arremessadas, contendo inclusões (bolhas) de ar. Essas pontas produzem gotas muito grandes, maiores do que as pontas de baixa deriva de tamanho equivalente, reduzindo sobremaneira o risco de deriva. Devido as bolhas de ar, tais gotas podem resultar em cobertura melhor do que das gotas grandes geradas por pontas convencionais. As inclusões de ar facilitam a fragmentação da gota no momento do impacto com o alvo. aumentando a cobertura. Uma característica importante desse tipo de ponta é que a inclusão de ar ocorre de maneira mais efetiva em pressões maiores. Dessa forma, a recomendação básica é que a pressão de trabalho não seja muito baixa (usar pelo menos 3 bar). Entretanto, não se deve perder de vista o conceito de que as gotas geradas por esse tipo de ponta são muito grossas, não sendo recomendadas para aplicações onde sejam necessárias grande cobertura dos alvos e boa capacidade de penetração das gotas na massa de folhas da cultura. Assim, como exemplo, pontas desse tipo não deveriam ser recomendadas para a aplicação de fungicidas de contato no final do ciclo das culturas. Controladores eletrônicos para pulverização — Ao receberem informações como volume de calda desejado, vazão atual, velocidade e largura da barra, os controladores eletrônicos para pulverização processam tais informações e realizam correções na vazão em função de alterações nas demais variáveis, para manter estável o volume de calda resultante. Apesar de oferecer acurada na correção do volume em função de variações de velocidade, os controladores mais comuns fazem esse ajuste alterando a pressão. Assim, para determinada calibração, o aumento da velocidade ocasiona maior vazão (para manter o volume constante), elevando a pressão. Comportamento oposto ocorre no caso de desaceleração. Em função disso, é necessário que o operador fique atento para não variar demais a velocidade, o que pode levar a aplicações com pressões inadequadas. Se um pulverizador é calibrado para operar a 15 km/hora, com pressão de 45 psi, uma aceleração para 20 km/hora elevará a pressão para 80 psi, enquanto uma redução para 10 km/hora, diminuirá a mesma para 20 psi. Essa magnitude de variação de pressão, dependendo do tipo e da vazão do bico. pode ser o suficiente para comprometer o sucesso da aplicação, ocasionando alterações significativas no tamanho das gotas e no ângulo de abertura do leque das pontas. Navegação por GPS e barra de luzes — Os sistemas de navegação por barra de luzes e GPS estão se tornando padrão de mercado para os pulverizadores de grande porte. O equipamento possibilita que o operador seja guiado pela barra de luzes e mantenha a trajetória adequada mesmo sem referência externa. Assim, as faixas de aplicação se mantêm paralelas e o erro de sobreposição é minimizado, até mesmo para aplicações noturnas. Pesquisas mostram, por exemplo, que o erro médio de sobreposição das faixas de aplicação é bem menor com relação ao uso de marcador de espumas (0,14 m para a barra de luzes e 0,70 m para o marcador de espuma), independentemente da velocidade de deslocamento do pulverizador. Hoje, muitos dos sistemas usados em pulverizadores utilizam o GPS, que contém um software interno para otimização dos erros de posicionamento, melhorando sobremaneira a acurada de posicionamento sem que seja necessário o pagamento do sinal de correção diferencial. Além do menor custo, esse sistema ficou mais confiável, pois não há mais a instabilidade de recepção do sinal diferencial via satélite, a qual era motivo de muitas interrupções no trabalho das máquinas no campo. Além da navegação em faixas paralelas (em retas ou curvas), o sistema pode ser utilizado para coletar dados de posicionamento do pulverizador e do volume ou dose aplicados em cada parte do talhão, gerando os mapas denominados "as applied" ("conforme aplicado"). Tais mapas são de extrema utilidade para o gerenciamento operacional, econômico e ambiental do sistema de produção, pois oferecem informações precisas sobre produtos, doses e locais de aplicação, além da velocidade, sobreposição de faixas, falhas na aplicação etc. Os mapas "as applieed" podem ser usados como fonte de informações para os processos de rastreabilidade dos sistemas produtivos. Outra possibilidade de uso do GPS nos equipamentos de aplicação corresponde aos sistemas de autodirecionamento. Dessa forma, a barra de luz é ligada direta-mente ao sistema de direção do veículo (trator ou autopropelido) por meio de componentes hidráulicos e eletrônicos, corrigindo a rota do veículo se necessário, diminuindo assim o trabalho do operador e aumentando a precisão do sistema. Inspeção Periódica de Pulverizadores (EPP) Em busca da otimização do uso de defensivos e a redução do impacto ambiental das atividades agrícolas, mais de 25 países vêm realizando inspeções periódicas em pulverizadores. No Brasil, a aplicação desse conceito poderia melhorar a qualidade das aplicações, a manutenção dos pulverizadores e o treinamento de operadores. Seguindo-se essa premissa, em 1998 surgiu o Projeto IPP - Inspeção Periódica de Pulverizadores na FCA/ Unesp, por meio de um financiamento da Fapesp. A estrutura para inspeções foi estabelecida a partir de uma unidade móvel, a qual transporta os equipamentos usados nas avaliações até as propriedades rurais. O objetivo do Projeto IPP é realizar atividades de inspeção em pulverizadores e incentivar o estabelecimento de um sistema oficial de inspeção periódica no Brasil. No âmbito do Projeto IPP, mais de 200 pulverizadores já foram inspecionados nas Regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Tomando-se como exemplo uma parte da amostra, correspondente a 69 pulverizadores usados por produtores de soja, observou-se que todas as máquinas apresentaram algum tipo de falha. Dentre as principais observações, podem ser citados que 82,4% possuíam problemas relacionados com o manômetro e 76,8% apresentaram falhas em pontas de pulverização. Outro ponto importante se refere aos erros de dosagem. Cerca de 75% dos sistemas avaliados possuíam mais de 5% de erro na dose aplicada, sendo que os erros de sobredosagem (aplicação em dose maior do que a recomendada) foram observados em 42% dos casos. Para esse grupo, o erro médio foi de 20,1%. Essa magnitude de erro pode ser facilmente traduzida em um potencial de desperdício econômico: considerando-se um gasto médio de US$ 120,00 por hectare de soja em aplicações fitossanitárias, esse erro de sobredosagem poderia estar causando prejuízo de mais de US$ 10 mil a cada 1.000 hectares plantados, não incluído o potencial de danos ambientais. Os resultados mostram que é necessário um investimento considerável na melhoria da qualidade das atividades de aplicação e na manutenção de pulverizadores. Assim, um sistema de inspeções periódicas poderia ser de grande valia para a modernização desse setor na agricultura brasileira.