Notícia

Veja São Paulo

INOVAÇÕES CIRÚRGICAS

Publicado em 09 maio 2012

Por Claudia Jordão


Após quase quinze anos de trabalho intenso, desenvolvido nos laborá­tórios do Instituto Dante Pazzanese, na Zona Sul da metrópole, o engenheiro biomédico Aron Andrade vive um misto de entusiasmo e apreensão. Ele é o inventor do primeiro modelo de coração artificial brasileiro que atua ao mesmo tempo nos dois ventrículos (cavidades em que o sangue é bombeado) sem a substituição do órgão original. Dentro de um ou dois meses, Andrade começa a testar sua criação em seres humanos. No momento, cuida dos preparativos finais para que cinco pacientes recebam o sis­tema. Eles não reagem mais à medicação e se encontram na fila do transplan­te. Na cirurgia necessária para a instala­ção do equipamento, o coração natural e o artificial serão ligados por canos de plástico - o segundo ajudará o primeiro a dar impulso à cir­culação.

"0 objetivo principal é propor­cionar uma sobrevida de até alguns anos à pessoa, enquanto ela aguarda um doa­dor", diz Andrade. O tratamento será muito importante, considerando-se que hoje metade dos doentes morre nesse período de espera. Todos os beneficia­dos pela nova técnica vão precisar carre­gar fora do corpo um aparelho pouco maior que um sabonete, com a função de comandar a frequência das batidas. A engenhoca pode ser ligada na tomada ou em uma bateria que duas horas (é preciso carregar várias, para de um apagão).

Experiência como essa estão em alta em São Paulo. O total de pedidos de patentes registrados no estado cresceu 16% entre 2007 e 2010. Nesse quadro, as inovações médicas se destacam. “O setor representa de 10% a 15 % do total de inovações”, conta Jorge Ávila, presidente do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi). Uma parcela delas vem despertando a atenção. É o que começa a acontecer, por exemplo, com o trabalho do Biólogo Osvaldo Augusto Sant’Anna, do Instituto Butantan. Bisneto do pesquisador Vital Brazil, ele está testando uma técnica para transformar em doses orais as vacinas subcutâneas. Isso é possível graças à introdução de uma substância no preparo dos medicamentos: a sílica.

Esse componente químico presente na natureza possui a capacidade de proteger as vacinas da ação dos ácidos que agem no estômago. O projeto está em anda­mento há dez anos e consumiu até agora 50 milhões de reais do laboratório priva­do Cristália e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Dentro de aproximadamente um mês, será testado em humanos. "Poderemos economizar uma quantida­de incalculável de seringas e agulhas", ressalta Sant Anna. A Cristália calcula que seu Investimento no negócio, de cerca de 35 milhões de reais, será recu­perado em até quatro anos a partir da chegada do produto nas prateleiras do Brasil e de outros países.

A Universidade de São Paulo, um dos principais celeiros inventores, investiu mais de 2 bilhões de reais em pesquisas em 2011 - o que contribuiu para o pedi­do de registro de 95 patentes no ano. No campus da capital, a farmacêutica Silvia Berlanga descobriu que a pariparoba (um arbusto da Mata Atlântica) tem proprieda­de protetora contra os raios ultravioleta UVB, além de retardar o envelheci mento da pele. A conclusão resultou em um pedido de registro e despertou o interesse da empresa Narura, que adquiriu a licença de uso da planta no desenvolvimento de produtos cosméticos por dois anos. Geralmente, quando uma invenção é patenteada, pesquisador, instituto e inves­tidor dividem os benefícios.A efervescência de projetos no setor de saúde reflete um movimento global. "No mundo inteiro, há um esforço muito grande em inovação nessa área", diz Avila, do Inpi. "Todos querem para si e para os outros maiores chances de cura e melhor qualidade de vida."

Na área médica, o maior mérito das invenções nacionais é baratear o tratamento de doenças. Em geral, os produtos que se originam dessas invenções são muno mais baratos do que os concorrentes de fora. O coração do Dante, por exemplo, custara cerca de 60000 reais. No exte­rior, equipamentos similares ao do hospi­tal paulistano não saem por menos de 945 000 reais. "Estamos em negociação com o Ministério da Saúde para que o produto seja oferecido na rede do SUS", adianta Aron. "Fico ansioso para ver vidas ser salvas," Para que isso aconteça com maior abrangência, cientistas cobram mais investimentos em inovação. De acordo com um relatório da Organização das Nações Unidas para a educação, a ciência e a cultura (Unesco) de 2010, o país investiu 43,5 bilhões de reais na área em 2008 - o que representa 1,09% do produto interno bruto (PlB) daquele ano. A taxa das nações ricas é de 2,28%.