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Revista Rumos

Inovação

Publicado em 01 agosto 2001

Por Gilberto Negreiros
Para ter essa competência, não basta comprar tecnologia. Só quem a desenvolve chega lá. Inovação e pesquisa caminham juntas. E começam em casa. Sem essa base, não tem inserção. COMEÇA EM CASA O truque da caixa preta, que possibilitou à economia brasileiros, no passado recente, manter-se entre as dez maiores do mundo não surte mais eleito. Caixa preta é a compra da tecnologia pré-fabricada, mas nunca de última geração e sempre condicionada exclusivamente à realidade imediata do país comprador. Está longe de ser verdadeira receita de inovação. E pouco para ser de tato feliz, internamente, e muito menos para ganhar espaço lá fora. Hoje, mais do que nunca, está provado que o pulo do gato, nessa área, começa em casa. Estão aí a Embraer e a Petrobras para provar. Na era do comércio globalizado, oferecer produtos com o diferencial da inovação tecnológica é questão de sobrevivência. É a regra de ouro na luta por um lugar no espaço no ultra competitivo mercado planetário. É um cenário de disputa feroz e, nele, o Brasil aparece em obscuro 43° lugar no índice da Organização das Nações Unidas (ONU) que avaliou a capacidade de 72 países para transformar ciência e tecnologia em desenvolvimento econômico. O atraso brasileiro na inovação tecnológica foi recentemente medido em estudo inédito, coordenador, pela economista, Virene Matesco no Instituto Brasileiro de Economia (IBRE), da Fundação Getulio Vargas. De acordo com números da Organização Mundial de Propriedade Intelectual (WIPO), no ano 2000, os países líderes em solicitação de patentes foram EUA (42%), Alemanha (13,2%) e Japão (10,3%), num universo de 90.948 pedidos deferidos. A participação brasileira foi de apenas 161 solicitações atendidas. A comparação com as economias emergentes também é amplamente desfavorável. Dados do Escritório de Patentes e Marcas Registradas dos EUA (USPF), citados no trabalho de Virene, revelam que, no ano passado, no mercado americano, foram reconhecidas 98 patentes de origem brasileira. Uma insignificância, em comparação às 4.667 outorgadas a Taiwan, e as 3.314 à Coréia do Sul. Segundo o estudo, no período de 1990 até o ano passado, o Brasil acumulou, em sua balança comercial tecnológica, um déficit de US$ 8,9 bilhões, que cresceu ao ritmo da abertura e da modernização da economia iniciada no fim dos anos 80. No intervalo de uma década, o déficit saltou dos US$ 23 milhões, em 1990, para US$ 1,9 bilhão. Baixa contribuição - Aí está o nó da questão: o setor privado brasileiro contribui com apenas 11% dos investimentos em desenvolvimento tecnológico, mostram dados do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT). Na Coréia e em Taiwan, a participação das empresas é da ordem de 60 a 70%. Não se trata de sabedoria oriental nem de falta de talento brasileiro, já que o país conquistou, dos anos 50 para cá, razoável tradição em pesquisa científica, base de toda inovação tecnológica. A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a Universidade de São Paulo (USP) são pólos de conhecimento que, na avaliação da ONU, se incluem entre os centros mundiais de excelência. O Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), no Rio de Janeiro, é o que existe de mais avançado no gênero em toda a América Latina. Com o mapeamento dos genes da bactéria Xylella fastidiosa, causadora da praga do amarelinho que ataca os laranjais, obteve-se, graças à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fafesp), posição de vanguarda no ramo da biotecnologia dos fitopatogênicos, vital para o aumento da produtividade agrícola. O avanço do quase secular Instituto Oswaldo Cruz, hoje Fiocruz, na produção de fármacos permitiu que, na quebra de patentes para produção de medicamentos a Aids, a razão humanitária predominasse sobre a de mercado dos fabricantes de remédios transnacionais. O Laboratório Nacional de Luiz Síncroton (LNLS), que funciona desde 1997 em Campinas, é motivo para justo orgulho. Constituído pelo MCT com cientistas brasileiros, é o único do hemisfério sul a usar fontes de Luiz Síncroton, obtidas com a excitação de elétrons. O resultado é a emissão de raios X que desvendam a estrutura tridimensional das moléculas de proteína identificadas no seqüenciamento genético. A operação se dá na escala nanométrica (nanômetro é a unidade de medida equivalente a um bilionésimo do metro). A dimensão ínfima alcançada permite pesquisas não só no campo da biologia molecular, mas também em experimentos que chegam até a estrutura atômica de materiais, abrindo caminhos no novíssimo campo da nanotecnologia. Mais doutores - Esses êxitos se somam a anteriores, como o da Embraer, que disputa com a empresa canadense Bombardier o mercado mundial de aviões de linhas regionais; da Petrobras, que hoje é uma das empresas líderes no domínio da extração de petróleo em águas profundas e ainda da Empresa Brasileira de Agropecuária (Embrapa), que estendeu a fronteira agrícola à área dos cerrados, primeiro com a soja e, agora, com a cevada uma cultura típica de climas trios que teve suas sementes adaptadas. Já se pode dar como superada a falta de massa crítica de recursos humanos para respaldar a pesquisa básica. As mais recentes estatísticas divulgadas pelo MCT mostram que, em apenas sete anos, quintuplicou a formação de doutores brasileiros. Em 1993, eram formados mil por ano; hoje são cinco mil, número idêntico ao, do Canadá e da Itália. Há 50 mil doutores, em atividade na universidade e centros de pesquisas do país. No cômputo da produção mundial de trabalho científicos distinguidos por revistas de reconhecimento acadêmico. 1% do que é publicado leva a assinatura de pesquisadores brasileiros. Segundo levantamento da unicamp, anualmente são produzidos seis mil trabalhos. Apesar desse respeitável patrimônio, o Brasil ainda não superou o falso dilema que, no passado, separava a ciência e a tecnologia em compartimentos estanques. A solução da dicotomia se impõe pela necessidade, que a economia globalizada tornou crucial, de unir conhecimento científico e desenvolvimento de produto para a disputa de mercados. O Ministério da Educação mantém, atualmente, em universidades e centros do exterior, 300 grupos de pesquisa, financiados com bolsas da Coordenação de Aperfeiçoamento e Pós-Graduação do Ensino Superior (Capes). Recursos renovados - Para superar o fosso do atraso tecnológico, a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), agência do MCT, ressurgiu das cimas como gestora dos recursos do programa de fundos setoriais. Em 1999, R$ 35 milhões era tudo de que a Finep dispunha para aplicação na inovação tecnológica. Para este ano, a previsão é de R$ 723 milhões, que representam a maior tarifa do total de R$ 1 bilhão a ser arrecadado pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT). O milagre da multiplicação se explica: os fundos setoriais têm como fonte de financiamento royalties cobrados das empresas que assumiram setores privatizados ou abertos ao regime de concessão, como telecomunicações, extração de petróleo e exploração mineral. "Em 2002, os recursos dobrarão para R$ 2 bilhões", anuncia Jorge Ávila, diretor da Finep. Os fundos setoriais compreendem 12 áreas consideradas estratégicas: petróleo, energia, recursos hídricos, transportes, recursos minerais, espacial, informática, telecomunicações, biotecnologia, aeronáutica, saúde e agronegócios. Existem, ainda, os fundos de infra-estrutura, para reaparelhamento dos laboratórios das universidades, e o Fundo Verde-Amarelo, destinado a promover a parceria empresa-universidade, financiado com incentivo fiscal concedido sobre o Imposto de Renda cobrado na importação de tecnologia. A nova estratégia posta em execução pelo Governo federal deverá ser um dos temas principais da Conferência Nacional de Ciência e Tecnologia, que se reunirá este mês em Brasília e retomará uma iniciativa que data de 1935 e foi interrompida. Naquele ano, realizou-se a primeira dessas conferências, que permaneceu única, na medida em que minguavam os recursos para pesquisa. Com a nova convocação a Brasília de academia, empresários, políticos e formadores de opinião, pretende-se discutir os objetivos estratégicos do país para esse segmento, na próxima década. Dois gargalos - Iniciado em 1999, o programa de fundos setoriais tem como propostas básicas a eliminação de dois gargalos: a descontinuidade de recursos para pesquisa e os baixos investimentos em tecnologia na ponta da cadeia produtiva. "Começamos há dois anos, ainda tateando. Só ao longo de 2000 chegamos a um formato que tem em vista a inovação tecnológica", diz Ávila. Em relação às tentativas anteriores de alavancar o setor de ciência e tecnologia, a grande inovação trazida pelos fundos setoriais é o modelo tripartite de gestão dos recursos. Comitês formados por pesquisadores, ministérios e empresas dos setores abrangidos por cada fundo são a instância em que se decide como e onde aplicar os recursos arrecadados pelo FNDCT. "O objetivo é financiar uma pesquisa mais alinhada com a inovação tecnológica", resume o diretor da Finep. No organograma da nova política de ciência e tecnologia, o Conselho Nacional de Pesquisas e Desenvolvimento Tecnológico (CNPq) participa com pesquisa básica e formação de recursos humanos nas universidades. Na segunda fase, entra a Finep, oferecendo a fundo perdido financiamento de pesquisas voltadas para aplicação tecnológica. A terceira frente de atuação dos fundos setoriais é a da viabilização econômica, etapa em que a Finep mostra parcerias com empresas capazes de desenvolver pesquisa autônoma - ou atua por meio do projeto Inovação, que promove a captação de capital de risco com o objetivo de viabilizar pequenas empresas de alta tecnologia. As ações são desenvolvidas também tendo em vista a meta de descentralizar a pesquisa científica, hoje quase restrita ao eixo Rio São Paulo. Abrem-se frentes com projetos que tenham impacto na economia das outras regiões do país. Essa preocupação permitiu que se consolidasse, na cidade goiana de Anápolis, um pólo de pequenas empresas produtoras de fitoterápicos. Outro êxito da descentralização foi o reerguimento, com investimentos em tecnologia e gestão empresarial, das indústrias de calçados do Vaie dos Sinos, no Rio Grande do Sul. "Pela primeira vez, a cadeia está completa. Antes, tinha-se que decidir o direcionamento de recursos entre pesquisa básica ou financiamento da inovação", entusiasma-se Ávila. Velho objetivo - Há motivos para esse otimismo. Os recursos previstos para 2000 são o dobro dos R$ 500 mil que o FNDCT recebeu em toda a década passada. A meta é fazer com que a arrecadação dos fundos setoriais alcance o patamar de R$ 4,2 bilhões em 2005. Será uma proeza, considerando-se que a definição de uma estratégia para suprir a pesquisa científica com recursos é questão que se arrasta desde a era Vargas. O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológica (CNPq), que completou, este ano, meio século de existência, é uma idéia que Getúlio Vargas teve em 1996, a caminho de se tornar ditador. E só conseguiu concretizá-la em 1951, como presidente eleito pelo voto popular, impelido pela cruzada do almirante Álvaro Alberto pela aquisição da nascente tecnologia nuclear. O único fundo setorial em pleno funcionamento é o do petróleo. O CT Petro (veja matéria na seção Ciência & Tecnologia), que começou a ser operado em 1999 e já destinou R$ 234 milhões para pesquisas. Assim como o sucesso da Embraer que no ano passado registrou faturamento de R$ 5,6 bilhões - nasceu da base tecnológica montada por iniciativa estatal no Centro Técnico Aeroespacial (CTAER), de São José dos Campos, em São Paulo, o do fundo do petróleo deve muito à circunstância de operar um setor em que as demandas da Petrobras são a mola propulsora. A diversificação, entretanto, já se faz sentir, com a corrida de grandes empresas privadas. Pirelli, Natrontec. Itautec, Lubrizol e Copene se cadastraram na Finep para receber financiamento de projetos de inovação tecnológica. O diretor Jorge Ávila avalia que o modelo do petróleo poderá ser adotado, células combustíveis, software, equipamento de telecomunicações, instrumentos digitalizados e próteses são produtos oferecidos por pequenas empresas, algumas criadas por mestres e doutores em ciências, que buscam capital de risco para se viabilizar no mercado. Depois de selecionadas pelo projeto Inovar da Finep, cerca de 50 dessas empresas, que têm em comum um perfil de alta tecnologia, foram apresentadas a investidores em fóruns realizados em São Paulo, no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte. Uma delas é a Tecnolab, de São Paulo, que desenvolveu um scanner para inspeção de estruturas de aço e de concreto. A Endo Luminal, de Santa Catarina, patenteou próteses auto-expansíveis e cateteres que permitem procedimentos menos agressivos no tratamento de aneurismas. O programa Inovar atua com elo de articulação entre incubadoras de empresas, fundações estaduais de fomento à pesquisa e universidades. No Centro Incubador de Empresas Tecnológicas (CIET), instalado na Universidade de São Paulo (USP) em parceria com o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), da cidade paulista de São José dos Campos, funciona o maior empreendimento do gênero no país. O CIET foi o berço da Genosys Rio tecnológica, empresa que produziu o hormônio do crescimento humano a partir da modificação genética de, com êxito semelhante, na implementação dos fundos de energia e de telecomunicações, áreas em que o porte das empresai e a existência de centros de pesquisa permitem que se invista em inovação. "Sem a participação do setor privado no avanço tecnológico não se chega a lugar nenhum", enfatiza Ávila, mas também há necessidade, ele ressalta, de uma mudança de mentalidade entre os pesquisadores das universidades: "E preciso criar uma cultura de pesquisa nas empresas e uma cultura empreendedora nas universidades". A coordenadora de Gestão Tecnológica da Fiocruz, Maria Celeste Emerick, concorda. O interesse demonstrado por empresas estrangeiras em pesquisas desenvolvidas nos laboratórios de Manguinhos, no Rio de Janeiro, determinou a criação da Rede de Propriedade Intelectual, Cooperação, Negociação e Comercialização. O nome é intencionalmente grande, explica Maria Celeste, porque a cultura predominante no meio científico mantém 90% dos pesquisadores da área pública olimpicamente alheios a questões como patentes, royalties e direitos autorais. "Mas é preciso considerar que pesquisa é um produto", afirma. Passo à frente - Para o físico Segen Estefen, diretor da Coordenação de Programa de Pós-Graduação em Engenharia (Coppe), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), há uma questão essencial a considerar. "Os fundos setoriais são um passo à frente que se encaixa perfeitamente numa fase de atuação a que nos podemos responder; estabelecendo a parceria entre empresa e universidade", reconhece, ressalvando que não se pode, entretanto, ter a "visão míope" de exigir resultados imediatos. Na Coppe, está em fase final de construção um tanque oceânico para ensaios de equipamento usado na extração de petróleo em águas profundas. Será terceiro no mundo já existem dois, na Holanda e Noruega-, mas ainda não atingiu o padrão tecnológico. A entrada em operação do tanque está prevista para março de 2002: "A universidade não pode esquecer que está inserida na economia, mas seu papel é responder aos requisitos no longo prazo. O que falta é uma política industrial. O programa de fundos setoriais tem esse lado simplificado. Coloca-se a questão da inovação tecnológica, mas não se discute a política industrial". A questão do timing da pesquisa universitária é ressaltada também pelo presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), o físico Carlos Henrique Brito Cruz, da Unicamp. Ele lembra que, no Brasil, a pesquisa da fibra ótica - que hoje interliga o sistema bancário do país - foi iniciada em 1973 na Unicamp, "por um grupo de pesquisadores que, naquela época, eram considerados visionários". Acrescenta, porém, que não se devem criar ilusões: "Não vamos resolver as dificuldades que impedem o desenvolvimento tecnológico das empresas com os fundos setoriais, porque o grande obstáculo é o ambiente econômico praticamente hostil. A economia brasileira tem sido muito instável e o desenvolvimento tecnológico exige tempo de maturação muito grande." Babas e parcerias-Concessão de bolsas a pesquisadores, financiamento de projetos de inovação tecnológica em pequenas empresas e promoção de parcerias entre grandes empresas - como Villares e Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) - e universidades deram notoriedade à Fapesp. A partir de 1997, a agência do governo paulista diversificou sua linha de atuação para possibilitar que pesquisadores brasileiros acompanhassem os avanços que ocorriam fora do país no mapeamento genético. Em apenas três anos, apareceram os resultados. Sob a coordenação do geneticista Edward Simpson, inglês que migrou para o Brasil em 1984, a equipe de pesquisadores do Instituto Ludwig do Câncer de São Paulo realizou os Seqüenciamento da bactéria Xylella fastidiosa e de tumores cancerosos do útero, da cabeça, do pescoço e do estômago, escolhidos por serem os de maior incidência na população brasileira. O sucesso da iniciativa da Fapesp deu visibilidade internacional à pesquisa brasileira elevou o MCT a criar o projeto Genoma Brasileiro, integrando os laboratórios de São Paulo aos de outros estados numa rede que abrange 25 centros e se concentra em dez projetos de seqüenciamento. O objetivo das pesquisas é chegar a proteínas que atuem como defensivos biológicos contra pragas da agricultura e combatam doenças endêmicas. No Instituto Ludwig. trabalha-se, atualmente, na Chromobacterium violaceum, bactéria encontrada na região do Rio Negro, no Amazonas, que tem grande potencial biotecnológico. Além de produzir um antibiótico, a Chromobacterium sintetiza um plástico biodegradável. Após os êxitos com a Xylella e os tumores cancerosos, a pesquisa evoluiu para estágio do proteoma, que visa à identificação do conjunto de proteínas dos organismos - no ser humano são 100 mil. E progrediu ainda mais para desvendar a estrutura das proteínas, nível mais avançado da pesquisa pós-genômica. A pedido do Departamento de Agricultura dos EUA, o laboratório do Instituto Ludwig fez o seqüenciamento de uma variedade da bactéria Xylella que ataca os vinhedos da Califórnia. "Não há dúvida de que o Brasil soube ocupar o nicho do estudo de microorganismos fitopatogênicos, que é de grande importância econômica para a agricultura", diz o bioquímico Paulo Arruda, do Instituto de Biologia Molecular da Unicamp. Em Jaboticabal, interior de São Paulo, já funciona, com apoio da Fapesp, um banco genético que tem em estoque 500 mil clones de DNA. É matéria-prima para pesquisa de proteínas que poderão render patentes de defensivos e mais produtividade agrícola. "Há perspectivas muito boas de parcerias com cooperativas de produtores de cínicos e açúcar", afirma Arruda. Reservas - A forte presença do Estado na promoção da pesquisa científica fez com que o programa de fundos setoriais fosse recebido com alguma reservas na comunidade acadêmica. Ainda existem temores de que se taça uma opção equivocada pela ênfase na inovação tecnológica, em prejuízo do conhecimento básico. Na visão do físico Calos Cruz, os fundos setoriais são "uma idéia brilhante" do ponto de vista das empresas, mas não há de ser com encomenda de projeto às universidades que se conseguirá superar o atraso tecnológico. O ponto traço do programa, aponta o presidente da Fapesp. "está em não considerar o tato de que, no mundo inteiro, é o Estado quem investe na infra-estrutura de ciência e tecnologia, e que às universidades públicas cabe fazer pesquisas na fronteira do conhecimento e formar recursos humanos capazes". O "poder de compra do Estado", prossegue Cruz, é outro fator determinante do avanço tecnológico. "A Nasa, por exemplo, é uma agência do Estado americano com orçamento de US$ 14 bilhões. Mais de dois terços do orçamento da Nasa são gastos na compra de produtos das empresas". A boa notícia, segundo o presidente da Fapesp, é que, concluída a fase da busca de qualidade na indústria, que foi a tônica dos anos 90, "as empresas brasileiras já consideram o conhecimento como insumo essencial de competitividade". Para o presidente da Fapesp, desafio colocado agora diante do empresariado brasileiro é entender que o acesso ao conhecimento se tornou vital: "Esse é o lado bom: o conhecimento entrou na agenda empresarial. Ao mesmo tempo, no entanto, a empresa precisa ser capaz de gerar tecnologia." A inovação tecnológica é papel que cabe, primordialmente, as empresa, porque a força motivado da agregação de conhecimento aos produtos surge na competição do mercado. Essa é a lógica que o físico Roberto Nicolsky, da UFRJ, usa na crítica ácida que faz aos programas dos fundos setoriais: "Adotou-se um modelo linear de injetar recursos para produzir inovação, como se tosse uma salsicharia". Consultor de ciência e tecnologia da Federação da Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) e coordenador de pesquisas na área de supercondutores de energia elétrica, ele diz que "uma cultura equivocada, que domina o nosso país. leva muitos a contundir inovação tecnológica com descoberta científica". A propósito, o físico é bem claro: "A pesquisa científica não tem que, necessariamente, dar resultados aqui e agora. Esse é o caso dos supercondutores, que estão tora de cogitação, por exemplo, como remédio, na crise de energia que vivemos, porque ainda não geraram conhecimento. O que o Brasil precisa é de domínio na fabricação de turbinas, na fabricação de geradores de ciclo combinado para turbinas a gás", afirma Nicolsky. Em vez de formar doutores, prossegue, deve-se dar ênfase aos cursos de graduação universitária. "O Brasil já tem ciência, já superou a Inglaterra em pós-graduação. Há um excedente de doutores, que vão acabar emigrando como acontece na Índia, que tem mais doutores que as suas necessidade", afirma. Inovar no produto é descobrir o que o mercado quer, argumenta Nicolsky. Partindo desse princípio, ele defende que a ênfase da política de ciência e tecnologia deve ser o financiamento da pesquisa nas empresas: "Como não tem acesso a esses recursos, o empresário vai à Europa e ao EUA e compra patente". A importação de tecnologia dos países avançados é, porém, uma saída com os dias contados. As regras da globalização determinam a abertura de fronteiras para a livre circulação de capitais financeiros e do comércio. No entanto, não são nem um pouco liberais quando se trata da disseminação de conhecimento. "Cada vez menos, o empresário brasileiro pode recorrer à caixa preta. A oferta de tecnologia dos países avançados é cada vez mais escassa e de custo cada vez mais alto. O que o empresário consegue comprar no exterior é a caixa preta do momento. Esta, quando é vendida já está superada pelo avanço da tecnologia", atesta o físico Carlos Cruz. "A tecnologia importada tem licença restrita ao país comprador, só funciona em mercado fechado. A abertura impõe desenvolvimento tecnológico autônomo", completa Jorge Ávila, da Finep. Ou seja, nisso, se repetem mais histórias como a do transistor, mina de ouro que ficou intocada até que, na década de 60, os japoneses copiassem a descoberta americana e inundassem o mundo com seus radinhos de pilha. O DURO ESFORÇO DE GARIMPAR O INTANGÍVEL VIRENE MATESCO Durante dois anos, a economista Virene Matesco (foto) garimpou os números do Banco Central em busca do intangível - o conhecimento tecnológico embutido nos preços dos produtos e serviços que o Brasil importa e, em muito menor escala, exporta. A pesquisa mostrou o outro lado do processo de modernização da economia iniciado no fim da década de 80. A demanda por produtos que incorporam inovações desencadeou, ao longo do período que se estende de 1990 a 2000, uma onda de importações muito superior à capacidade interna de gerar bens de alta densidade tecnológica. No intervalo que vai de 1993 ao ano passado, as exportações de produtos e serviços em que está presente o chamado intangível cresceram de US$ 12,6 milhões para US$ 296,9 milhões. Em igual período, as remessas ao exterior geradas por importações com inovações tecnológicas agregadas deram um salto de US$ 233,7 milhões para quase US$ 2,7 bilhões. O resultado foi um déficit acumulado de US$ 8,9 bilhões nos últimos 11 anos. "O déficit da balança tecnológica tende a aumentar porque a demanda por produtos atualizados no Brasil é muito mais rápida que a capacidade interna de atendê-la", afirma Virene. A sofisticação do consumo, a necessidade de modernização das empresas privatizadas e o aumento da participação das empresas transnacionais no mercado interno provocaram, na década passada, uma corrida ao licenciamento de patentes dos países avançados. Não há indícios de arrefecimento dessa demanda gerada pela modernização. A TV com imagem digitalizada, que está às vésperas de chegar ao Brasil, é um exemplo. Seja qual for o modelo de tecnologia adotado, a TV digital vai gerar novos fluxos de importação. "Quando a economia era fechada, a mão-de-obra barata era o atrativo, já que a falta de concorrência não exigia investimento em tecnologia. Agora, as transnacionais vêm para concorrer, e a inovação de produto é o diferencial entre elas o as empresas nacionais. A balança tecnológica é o retrato mais cruel dessa situação", ressalta Virene. O perfil do déficit acumulado de US$ 8,9 bilhões expõe as debilidades da economia brasileira. As importações de serviços técnicos e tecnologia industrial totalizaram, no período 1990-2000, cerca de US$ 6 bilhões. O setor industrial foi responsável pelo maior fluxo de remessas ao exterior, com importações que atingiram US$ 5,9 bilhões. O segundo vilão da balança tecnológica foi o setor de serviços, que abrange as empresas de telecomunicações privatizadas, com o valor global de US$ 3,9 bilhões. "Como, neste quadro de instabilidade cambial que o país enfrenta, o empresário pode decidir sobre investimento em tecnologia, que é incerto e ainda mais custoso que qualquer investimento? O empresário tenta adivinhar o dia-a-dia. Aí vem a competição, uma avalanche de fora para dentro, e ele tem que buscar tecnologia lá fora, onde ela já existe pronta", descreve Virene. A inserção na economia globalizada aumentou o nível de exigência do consumidor brasileiro. Para que o atendimento a essa demanda cada vez mau sofisticada não perpetue uma dependência, o caminho que Virene enxerga é o da co-participação do Estado na atualização tecnológica de produtos: "Mesmo nas economias mais liberais, o Estado se faz presente como co-participante."