Notícia

FGV

Inovação na gaveta

Publicado em 23 agosto 2010

Os números sobre investimento em pesquisa no Brasil mostram clara evolução nos últimos anos: entre 2006 e 2009, o total aplicado no desenvolvimento de novas tecnologias foi multiplicado por quatro, passando de R$ 2,2 bilhões para R$ 8,8 bilhões. Os valores, entretanto, refletem mais o avanço da pesquisa básica, nas universidades, do que a inovação prática, que gera patentes para novos produtos.

De acordo com o diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Carlos Henrique de Brito Cruz, o setor privado nacional ainda não assumiu seu papel no desenvolvimento de tecnologias. Ele diz que não existe transferência da pesquisa feita nas universidades para a "vida real" porque as empresas ainda não acordaram para a importância da inovação. "Não há como "terceirizar" a pesquisa, apenas fazer uma parceria com uma universidade. O processo tem de ser feito dentro das empresas."

Para o especialista, a dificuldade do setor privado em inovar se reflete na desvantagem em obtenção de patentes em relação a outras nações emergentes - enquanto China, Índia, Rússia e Coreia do Sul evoluíram nos registros ao longo das últimas décadas, o Brasil ficou quase no mesmo lugar. O número de patentes concedidas nos Estados Unidos para brasileiros subiu de 60 para 103, entre 1994 e 2009. No mesmo período, outras nações de economia equivalente ao menos quintuplicaram o registro de novos produtos.

Para Brito Cruz, é preciso que o setor privado ganhe escala na área de pesquisa no Brasil - hoje, os órgãos públicos ainda respondem por dois terços do total investido em desenvolvimento. A letargia das empresas, explica o diretor científico da Fapesp, faz do Brasil um "importador de tecnologias". "É um problema histórico. Até os anos 90, a economia era fechada, o que eliminava a competição. E, antes de 1994, com a instabilidade econômica, era quase impossível para as empresas planejarem investimentos de longo prazo."

Dados do Ministério da Ciência e Tecnologia mostram que o número de empresas que declararam investimentos em pesquisa no País saltou de 140 para 460 entre 2006 e 2009 - expansão de quase 230%. Para o especialista da Fapesp, porém, o investimento privado ainda é relativamente baixo, de cerca de 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB), aquém da média da maior parte dos países em desenvolvimento e muito abaixo dos números das nações desenvolvidas.

Metas. Em 2010, o governo tem a meta de atingir 1,5% do PIB em investimento em pesquisa e desenvolvimento. Isso equivale à metade do porcentual apresentado pelas principais economias mundiais, onde 3% das riquezas são gastas em ciência e tecnologia. Segundo o secretário de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação do MCT, Ronaldo Mota, do total investido, 0,85 ponto porcentual virá do setor público e 0,65 de fontes privadas.

Mota afirma que a relação precisa mudar, pois só assim o País poderá se tornar mais competitivo no mercado mundial. A avaliação, porém, é de que isso não deve acontecer no curto prazo. "O Brasil tem hoje dupla tarefa: continuar com o crescimento dos investimentos públicos e crescer ainda mais os privados. Uma boa meta seria de 2% do PIB para a pesquisa, com 1,2 ponto porcentual do setor privado e 0,8 ponto do público."

De acordo com o secretário, o ideal é que o governo assuma um papel de "retaguarda" no processo de inovação, com o incentivo à pesquisa básica e a criação de mecanismos que propiciem o crescimento da pesquisa no setor privado. Entre as ferramentas já disponíveis está a Lei de Inovação, que garantiu incentivos não-reembolsáveis de R$ 1,5 bilhão a empresas que investiram em pesquisa nos últimos quatro anos.

Dados da Fapesp mostram que o número de cientistas profissionais no Brasil teve forte crescimento ao longo desta década. Em 2000, havia 74 mil profissionais em atividade no País; em 2008, 133 mil - uma evolução de quase 80%. Entretanto, a quantidade de cientistas que atuam no setor privado caiu no período: no início da década, 41% dos profissionais trabalhavam em empresas; em 2008, a relação caiu para 37%.

Empresas. O ranking mundial de empresas inovadoras da Boston Consulting Group (BCG) mostra que o Brasil está em desvantagem em relação a outras nações emergentes em companhias inovadoras. A única companhia brasileira que aparece no ranking de inovação que inclui 50 grandes negócios mundiais é a Petrobrás, na 41.ª posição. A Índia tem duas empresas na lista e a China, quatro. Com exceção da China Mobile (44.º lugar), todas aparecem em posições acima da petrolífera brasileira no ranking.

Embora a inovação nas empresas brasileiras ainda careça de ritmo, há companhias que surgiram com a estratégia de trazer novos produtos ao mercado. A paulista Opto, por exemplo, desenvolve sistemas óticos para os setores aeroespacial e médico. Segundo o diretor-presidente da companhia, Jarbas Castro, a Opto foi contratada para desenhar os sistemas dos satélites a serem construídos em parceria entre Brasil e China. Graças ao contrato, o segmento já representa 35% do faturamento anual da empresa, atualmente em R$ 110 milhões.

Professor titular de física da Universidade de São Paulo, Castro diz que a maior parte das receitas da empresa ainda vem da área médica, com o desenvolvimento de equipamentos oftalmológicos. "Estamos nos posicionando no mercado de "high end" (alto valor agregado) para podermos abrir o mercado internacional." Uma vantagem da Opto, afirma o executivo, é que um setor de atuação ajuda o outro. "A tecnologia que somos pagos para desenvolver para os satélites pode ser aplicada aos equipamentos médicos."