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Inovação e a nova paisagem urbana de São Paulo

Publicado em 07 janeiro 2019

– O ecossistema de inovação na cidade de São Paulo cresce rapidamente, nucleado por corporações que enxergam na parceria com startups oportunidades de negócios, por universidades e por hubs de empreendedorismo tecnológico. Essa expansão está constituindo uma paisagem urbana particular, em que prevalecem a mobilidade compartilhada, o uso de aplicativos para solicitação e pagamento de serviços, entre outras inovações baseadas em tecnologias digitais.

Parte dessa nova geografia paulistana foi percorrida por 54 empresários, pesquisadores e investidores de todo o país, a convite da Mobilização Empresarial pela Inovação (MEI), entidade vinculada à Confederação Nacional da Indústria (CNI), no âmbito do Programa de Imersões em Ecossistemas de Inovações. A iniciativa teve o apoio da FAPESP.

“Esta é a 14ª edição do programa e a terceira realizada no Brasil. O objetivo é contribuir para fomentar política de investimentos mais eficazes, incentivar a inovação e aprimorar o sistema de financiamento”, afirmou Gianna Sagazio, diretora de Inovação da CNI e superintendente nacional do Instituto Euvaldo Lodi (IEL).

Ao longo de três dias, o grupo visitou dezenas de empresas, incubadoras, aceleradoras, hubs de empreendedorismo, entre outros, num percurso entremeado por seminários sobre temas estratégicos para a consolidação do ecossistema.

O ponto de partida foi um encontro na sede da FAPESP, onde participantes foram apresentados às soluções do Sebrae-SP para startups e ao Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE), que apoia, com recursos não reembolsáveis, iniciativas de pesquisas inovadoras de pequenas e médias empresas. “A Fundação recebe em torno de mil solicitações por ano e seleciona cerca de 250. Impressiona o número crescente de empresas com projetos nas áreas de manufatura avançada e tecnologias digitais”, disse Carlos Américo Pacheco, diretor-presidente do Conselho Técnico-Administrativo da Fundação.

A FAPESP também sediou o primeiro seminário do programa, com o tema Hubs de Startups, do qual participaram a 100 Open Startups, Endeavor, Anjos do Brasil e Baita Aceleradora. Operando com o conceito de open innovation, a 100 Open Startups articula grandes corporações e startups por meio de metodologia que envolve desafios tecnológicos e ranking das melhores empresas com soluções para 20 áreas temáticas. “Em três anos, 439 startups fecharam acordo com mais de 300 empresas”, disse Bruno Rondani, CEO da 100 Open Startups.

A Endeavor tem foco em iniciativas que promovam o crescimento de startups. “Empreendedores de alto impacto são os grandes protagonistas”, sublinhou Camilla Junqueira, diretora-geral da Endeavor, citando o exemplo da Ebanx – startup de processamento de pagamentos estrangeiros, com clientes como Alibaba e Airbnb –, que cresceu mais de 700% nos últimos três anos.

O roteiro no ecossistema paulistano de inovação incluiu o Centro de Inovação, Empreendedorismo e Tecnologia (Cietec), gestor da Incubadora de Empresas de Base Tecnológica de São Paulo USP/Ipen – Cietec, no campus do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), na Cidade Universitária.

Criado há 20 anos, o Cietec tem 112 empresas incubadas, 85 delas residentes, entre elas a Reciclapac e a Alchemy, ambas apoiadas pelo PIPE da FAPESP, e a 3D Criar (Para saber mais sobre a Reciclapac acesse pesquisaparainovacao.fapesp.br/725).

“As incubadas faturaram mais de R$ 35 milhões por ano e geraram 557 empregos em 2017”, contou Claudio Rodrigues, diretor-presidente do Cietec. O Centro prepara o início das operações do Cietec II, em área de 20 mil metros quadrados também cedida pelo Ipen. “A meta é chegar a 200 empresas”, afirmou Rodrigues.

Investimento de risco

A visita ao Cubo, hub de empreendedorismo do Itaú Unibanco em parceria com a Redpoint eventures, foi uma das mais longas. Instalado num prédio de 12 andares na Vila Olímpia, a iniciativa conecta 80 startups a 20 empresas mantenedoras, entre elas a Accenture, Dasa, TIM, brMalls, Kroton, e investidores. “As empresas selecionadas têm que apresentar soluções reais para o mundo real com produtos escaláveis”, resumiu Flavio Pripas, ex-diretor do Cubo e atual corporate venture officer da Redpoint eventures.

Desde a criação do Cubo, em 2015, startups residentes fecharam 728 contratos com grandes empresas, 65 deles com o Itaú Unibanco. Apesar dos bons resultados, a conexão de grandes empresas com startups não é simples, a começar pelo cumprimento de exigências para a contratação desses fornecedores, na maior parte das vezes recém-chegados ao mercado. “É preciso simplificar esse processo”, sugere Pripas.

Para empreendedores, tampouco é simples atrair investimentos de venture capital. “Investir em startup se compara a uma curva em formato de J longa e profunda. É preciso resiliência”, diz Erich Acher, sócio-fundador da Monashees, fundo de venture capital criado em 2006, durante seminário sobre essa modalidade de investimento, realizado no Cubo.

“Buscamos empreendedores de alto impacto que, com tecnologia e venture capital, revolucionam o mercado e o país. Já investimos em 81 empresas, inclusive na 99 [a primeira “unicórnio” do Brasil, cujo controle foi adquirido em janeiro de 2018 pela chinesa Didi Chuxing ]. Foram 12 anos para o primeiro retorno.” Unicórnios são as startups avaliadas em mais de US$ 1 bilhão.

O pragmatismo dos investidores privados fez com que a SP Ventures fosse constituída, em 2007, como seed funding do setor público. “Qualificamo-nos como gestor regional do Fundo Criatec do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES)”, lembra Francisco Jardim, CEO da SP Ventures. Nesse primeiro fundo, foram apoiadas oito empresas, metade na área de agronegócios.

Em 2013, a SP Ventures deixou o BNDES, compôs o seu segundo fundo com aporte de recursos da Desenvolve SP, Finep, FAPESP, Sebrae-SP, CAF e Jive Investments e priorizou investimentos nas Agtechs – empresas de tecnologias agropecuárias. Apesar das dificuldades na relação com órgãos reguladores e com as universidades, Jardim afirma que a SP Ventures “está conseguindo criar alguns unicórnios”, já que a agricultura brasileira dá escala para grandes negócios (Para mais informações sobre o Fundo de Inovação Paulista leia matéria nesta edição).

Andrea Calabi, coordenador do projeto de implantação de ambientes de inovação e criatividade no Estado de São Paulo, implementado pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) com o apoio da FAPESP, pondera que a articulação entre empreendedores, startups, venture capital e as universidades deveria ser provida pelo setor público, citando o exemplo da FAPESP.

Participaram do seminário sobre Venture Capital também a Dgf-Investimentos e a e-Bricks Ventures.

A caminho do mercado

O roteiro do programa de imersão no ecossistema paulistano de inovação incluiu visitas à Melicidade, sede do Mercado Livre; ao Eretz bio, incubadora de startups da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein; ao Google Campus; ao hub de inovação Wayra, aceleradora de startups criada em 2011 pela Telefônica; à Estação Hack Facebook; e ao InovaBra Habitat, ambiente de coinovação do Bradesco.

O roteiro encerrou no iDexo, instituto sem fins lucrativos mantido pela Totvs, Banco ABC e Salute, para conectar startups, empreendedores e desenvolvedores. “Prestamos serviços para grandes empresas, contratando serviços de startups”, resumiu Bianca Guimarães, community manager do iDexo. A visita encerrou com um seminário sobre Corporate Ventures.

“O programa foi impactante”, avaliou Cândida Oliveira, coordenadora do Programa Imersões em Ecossistemas de Inovações. “Não tínhamos noção do dinamismo e de quão rápido essas empresas estão mudando a cidade de São Paulo.”

Taynara Tenório Cavalcanti Bezerra, engenheira da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), no Amazonas, participou do programa que lhe permitiu conhecer o ecossistema paulista e iniciar contatos que permitissem levar a “cultura de inovação” para Manaus.

O ganês Salomon Kweku Sagoe Amoah, pesquisador do Laboratório CertBio, em Campina Grande, na Paraíba – instituição certificada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e acreditada pelo Inmetro para análise de toxicidade em prótese mamária e em material volátil –, aderiu ao programa com um interesse específico: buscar alternativas para levar ao mercado um biomaterial desenvolvido pelo laboratório e já patenteado. “A visita ao Eretz bio foi muito importante. Não tínhamos noção da dimensão dessa área. Precisamos mapear grupos, empresas e incubadoras que possam nos ajudar nessa empreitada.”

Claudia Izique | Pesquisa para Inovação / Agência Fapesp