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Injeções de vírus zika destroem tumor cerebral em roedores

Publicado em 10 novembro 2021

Cientistas brasileiros podem ter descoberto uma nova forma de tratamento para o câncer no cérebro a partir do vírus zika. Em pesquisa realizada no Centro de Estudos do Genoma Humano e Células-Tronco (CEGH-CEL) da Universidade de São Paulo (USP), foi possível destruir tumores cerebrais em roedores com apenas três injeções contendo o vírus. Não foram observados danos neurológicos nos animais, segundo os pesquisadores.

Segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), foram registrados 11 mil novos casos da doença no Brasil em 2020. O novo estudo pode representar uma esperança para as pessoas que esperam por tratamento — mesmo que ele ainda leve alguns anos para ser concluído. A próxima etapa da validação envolverá a participação de testes em cachorros.

O grupo de cientistas também foi o primeiro a descobrir que o zika tem potencial para tratar formas agressivas de tumores embrionários do sistema nervoso central, incluindo o meduloblastoma — um tipo de tumor cerebral mais comum em crianças que conta apenas com tratamentos de efeitos adversos graves.

O novo estudo foi publicado em outubro na revista científica Viruses.

Zika vírus contra o câncer

Durante os testes, os pesquisadores aplicaram as três doses da injeção com vírus zika por via intraperitoneal em roedores e as aplicações respeitaram o mesmo intervalo de tempo entre as doses. Segundo os autores, os efeitos da terapia foram tolerados e, durante o tratamento, os animais mantiveram-se normais: não perderam peso, continuaram a se alimentar e apresentaram boas condições clínicas.

Os cientistas também injetaram o zika em um órgão semelhante ao cérebro humano in vitro (em células no laboratório) com células-tronco, chamado organoide cerebral, e detectaram que o vírus impediu a progressão do tumor, chegando a reduzi-lo.

Segundo Mayana Zatz, professora do Instituto de Biociências (IB) da USP e coordenadora do CEGH-CEL, os pontos importantes da pesquisa foram as boas respostas à terapia. No modelo animal, as proteínas que regulam a resposta imunológica (citocinas) suprimiram a progressão do tumor e houve aumento da migração de células de defesa para o cérebro afetado pelo câncer, o que ativou o sistema imunológico contra as células cancerígenas.

Nova fase

Uma nova etapa da pesquisa deve começar em breve, onde os pesquisadores recrutarão cachorros acometidos por tumores cerebrais e a ideia é buscar por animais de raças e tamanhos diferentes, dando maior diversidade para os possíveis resultados.

“Os cães são modelos extremamente importantes antes de pensarmos em testar em pacientes, pois têm tumores muito semelhantes aos seres humanos e sistema imunológico preservado. Será possível analisar tumores diferentes”, disse Zatz à Agência FAPESP.