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Correio Popular

Iniciativas pessoais preenchem lacuna deixada pelas bibliotecas públicas

Publicado em 13 fevereiro 2005

É em meio a dezenas de objetos doados pela comunidade e depositados no quintal que se encontra o acervo de cerca de 900 livros do massagista Ademilton de Oliveira Amâncio, que sacia parte da sede de leitura dos moradores dos bairros Jardim Londres e Nóbrega, na região Oeste de Campinas. Esta foi a forma que ele encontrou de levar um pouco de cultura aos moradores do local, uma vez que não existem bibliotecas municipais localizadas na periferia.
Ademilton decidiu colocar seus livros de literatura, escolares e até mesmo de política, filosofia, medicina e religião à disposição da comunidade em 1989 e, desde então, é em suas prateleiras e nas páginas de seus livros que as pessoas encontram seus lugares no mundo literário.
Alguns ávidos leitores da localidade, como o jovem Maurílio Carvalho de Santana, atribuem a ele o gosto que hoje têm pela leitura. "Às vezes, eu sou considerado uma aberração no bairro porque me sento na praça por umas quatro ou cinco horas e fico lendo", conta o rapaz.
De acordo com Ademilton, ou Milton como é chamado na vizinhança, entre 15 e 20 pessoas emprestam livros diariamente em sua biblioteca. Ele não possui uma forma de controle, a não ser um livro com alguns nomes. "É tudo na base da confiança."
Ele conta que muitos livros foram perdidos porque algumas pessoas não os devolveram. "Em compensação, algumas pessoas pegam um livro emprestado e trazem três porque entendem o benefício que é para a comunidade." O curioso é que é ele quem define o tempo que os títulos ficam com cada pessoa, depois de uma avaliação a partir da dinâmica de leitura de cada um. "Eu peço para a pessoa ler um trecho para mim e logo avalio quanto tempo ela pode ficar com o livro de acordo com o número de páginas."
Outra iniciativa que impressiona pela grandiosidade é a do juiz aposentado Alcy Gigliotti. Há cinco anos, ele mantém a biblioteca "Adir Gigliotti" aberta ao público no Taquaral. O juiz, que sempre comprou livros por hobby, abriu seu acervo de 35 mil títulos à comunidade. Atualmente, sua biblioteca possui quase 800 usuários e mais de 10 mil títulos retirados em cinco anos de existência.
Entre os usuários assíduos está o poeta e pintor Etevaldo Selingardi, que diz já ter freqüentado todas as bibliotecas públicas de Campinas antes de conhecer a de Alcy. "Eu moro na minha casa, mas vivo aqui. Esta biblioteca é uma das melhores da cidade por causa do extenso acervo", elogia.
A afirmação é reforçada pela dona de casa Cristiane Lopes, uma das primeiras pessoas a se cadastrar como usuária e que freqüenta o local no mínimo três vezes por semana. "Eu nunca saí daqui sem o livro que estava procurando. O acervo daqui é muito completo. Já as bibliotecas municipais deixam muito a desejar. Além do fato de ter que pegar ônibus para chegar até a mais próxima, eu não encontrava o que estava procurando e sempre tinha que comprar os livros que a escola pedia que minha filha lesse", conta.
Não fossem as iniciativas isoladas de alguns campineiros como Milton, Alcy e outros tantos de quem não se tem notícia, a cidade de mais de um milhão de habitantes não teria livros suficientes para seus leitores com apenas quatro bibliotecas municipais à disposição da população. Como se não bastasse a escassez, elas estão localizadas na região central do município como a "Joaquim Castro Tibiriçá", localizada no Bonfim; a "Prof. Ernesto Manoel Zink", no Centro, e a "Monteiro Lobato", no Guanabara; ou nos distritos, como a "Guilherme de Almeida", em Sousas. Com o acervo de todas estas bibliotecas somado, Campinas possui 76.384 mil títulos, totalizando 0,076 exemplar por habitante.
No ano escolhido pelo Ministério da Cultura, Organização dos Estados Ibero-americanos, Centro Regional de Fomento do Livro na América Latina e Caribe e Unesco como o Ano Ibero-americano da Leitura — Vivaleitura 2005 —, que tem por objetivo implantar programas para aumentar em 50% o índice nacional de leitura (que hoje é de 1,8 livro por brasileiro ao ano), Campinas não tem o que comemorar.
Conforme informações deixadas em relatórios para a atual Administração por funcionários da gestão passada, as bibliotecas municipais deixam muito a desejar aos seus funcionários e usuários no que se refere ao acervo e à estrutura física. Entre as reivindicações dos funcionários está a informatização dos sistemas de cadastro de livros — desde a fundação de cada uma das unidades, ainda se utiliza o precário sistema de fichas para a busca de títulos.
O acervo está estagnado há pelo menos dois anos. Na última compra de livros, realizada em 2003, foram adquiridos 250 títulos para serem distribuídos entre as quatro bibliotecas. As dificuldades são tantas que até mesmo as assinaturas dos jornais e revistas locais e nacionais foram canceladas. "Na Administração passada, foram comprados entre 600 e 800 exemplares para as quatro bibliotecas em três anos. Isso porque, em 2004, nenhuma compra de livro foi efetuada", explicou o bibliotecário João Henrique Cuelbas, ex-coordenador das bibliotecas municipais de Campinas.
Milhares de volumes foram adquiridos pelas bibliotecas por meio de doações, mas, por falta de prateleiras e recursos humanos, ainda não foram colocados à disposição do público e esperam empilhados nos porões das bibliotecas. Alguns foram doados às casas de cultura e cursinhos de sindicatos, mas a grande maioria ainda permanece esquecida.
"Eu sinto muita falta de livros novos. Muitas vezes, venho aqui procurar um livro que nem é tão novo assim, de 2001, por exemplo, e não encontro", disse Benedito Santos Guerra, morador do bairro Santa Lúcia que freqüenta a biblioteca três vezes por semana há três anos.
Entre as reclamações dos funcionários, estão a falta de ventiladores, de computadores com acesso à internet, as inúmeras goteiras do telhado e a falta de rampa de acesso para os portadores de deficiência física na Biblioteca Central, que possui um dos maiores acervos em braille da região.

Literatura chega de ônibus à periferia
Como forma de atingir os bairros periféricos que não têm biblioteca, a Prefeitura de Campinas, em parceria com a Pontifícia Universidade Católica (PUC-Campinas) e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), colocou dois ônibus-biblioteca — cada um com um acervo de 3 mil livros — à disposição da população de 20 bairros de periféricos da cidade, como parte do projeto Leitura em Movimento, no qual a Prefeitura entra com o combustível e pessoal, a FAPESP com os livros e a PUC-Campinas na análise dos dados coletados.
A idéia surgiu de uma pesquisa, mas acabou se transformando num serviço público, tamanha a receptividade dos moradores. "Em alguns bairros há filas imensas à espera do ônibus, chegamos a atender até 90 pessoas por dia no Jardim Uruguai e na Vila Lunardi, por exemplo. Mas há outros bairros em que as pessoas não se interessam tanto", diz Gláucia Maria Mollo Pécora, responsável pelo projeto.
"Mas o que nós pudemos observar é que a maior parte das pessoas tem um grande interesse pela leitura e é a distância que os impede de serem assíduos freqüentadores das bibliotecas. Algumas pessoas reclamam da distância das bibliotecas públicas, e dizem que não têm dinheiro para ir 'lá em Campinas'", completa Gláucia.

Diretora de Cultura promete investimentos
Em entrevista à Agência Anhangüera de Notícias (AAN), a atual diretora de Cultura de Campinas, Mirca Bonano afirmou que constatou as dificuldades pelas quais as bibliotecas municipais vêm passando nos últimos anos em visita aos locais acompanhada do secretário de Cultura, Esportes e Lazer, Rogério Cezar de Cerqueira Leite, e firmou compromisso em investir nas bibliotecas "como nunca foi feito antes". "O nosso primeiro passo será atualizar as assinaturas dos periódicos; em seguida, investir na recuperação física dos espaços. Nós colocaremos mais prateleiras e renovaremos o mobiliário, além de implantar um sistema que viabilize e facilite a catalogação do acervo com urgência", disse.
Mirca se comprometeu a atualizar o acervo depois que os espaços forem reestruturados e os livros doados à Prefeitura forem catalogados e colocados à disposição da população. "Eu entendo que o objetivo da ação pública é atender bem o cidadão. Por isso, vamos investir para que as pessoas possam melhorar sua qualidade de leitores, mas, se não conseguirmos realizar tudo que planejamos — porque há muito para ser feito —, podemos ao menos apontar possibilidades para ações futuras."
Quanto ao fato de não haver bibliotecas nos bairros periféricos da cidade, ela afirma que a Secretaria está aberta a sugestões e que os ônibus-biblioteca continuarão a circular e a frota pode até mesmo aumentar. Além disso, diz que pretender firmar parcerias com as casas de cultura e pessoas interessadas em ajudar a comunidade, como Ademilton de Oliveira Amâncio e Alcy Gigliotti, repassando algumas doações e criando um conseqüente vínculo com as bibliotecas "para que a leitura seja usada de forma mais integrada".
Mirca pretende ainda fazer com que as bibliotecas municipais abram aos finais de semana com programações culturais, como visitas de autores entre outras.