Notícia

Jornal do Brasil

Iniciativa privada financia ciência

Publicado em 01 dezembro 1997

Por ALEXANDRE MANSUR
ABALO NAS PESQUISAS - Empresas desenvolvem tecnologia própria e substituem o governo no patrocínio de projetos universitários. Os principais centros de pesquisa científica do país já não se sustentam apenas com verbas dos governos federal ou estadual. O grande filão de verba para os grupos de pesquisa e laboratórios é a iniciativa privada. As empresas começam a perceber que investir em tecnologia própria é vital para manter a competitividade internacional. A Coordenação de Programas de Pós-Graduação em Engenharia (Coppe), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), é um bom exemplo da tendência atual. "O futuro pertence aos investimentos em parceria com empresas", afirma o engenheiro Segen Estefen, diretor acadêmico da Coppe, que assume a diretoria da instituição em janeiro. Um terço do orçamento anual de R$ 50 milhões da Coppe vem da Fundação Coppetec, que administra os investimentos de empresas como Petrobrás, Furnas, Eletrobrás e Companhia Siderúrgica Nacional (CSN). Cerca de 60% das verbas vêm das estatais. "Tradicionalmente, as estatais têm um peso muito grande nos investimentos porque elas sempre desenvolveram pesquisas no país. Historicamente, as multinacionais aplicam mais dinheiro no país de origem. E as nossas empresas privadas não investiam nisso", analisa Segen. "Garantidas por uma certa reserva de mercado, essas empresas não eram obrigadas a investir em competitividade. Mas isso está mudando rápido. A gente sente que as empresas privadas começam a investir mais", afirma. Não é mera impressão. A Coppe estima fechar o ano com R$ 16 milhões oriundos das empresas e esperam crescimento para R$ 20 milhões em 1998. "Acreditamos que a participação privada vai crescer 20% ao ano", calcula Segen. A Coppe, que tem 12 programas nas diversas áreas da engenharia é um pólo de atração para a capacitação tecnológica das empresas. Os pesquisadores estão desenvolvendo, em parceria com a Petrobrás, tecnologia para a exploração de petróleo em águas profundas além dos 2 mil metros. A Coppe projetou e construiu as chamadas câmaras hiperbáricas, que simulam altas pres-spes do ambiente submarino a até 5 mil metros de profundidade. Governo- Apesar da empolgação com a participação privada, Segen lembra que o governo tem papel vital. "As pesquisas precisam de recursos governamentais em qualquer lugar do mundo. Nenhuma entidade de pesquisa sobrevive sem sustentação do governo", defende. A situação da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio, é semelhante à da Coppe. "A maior parte de nossa verba para pesquisas vem de fora do governo", diz Eloi Garcia, presidente da Fiocruz. "Só o laboratório Bioquímico de Insetos recebe R$ 250 mil por ano da União Européia", afirmou. E a Organização Mundial da Saúde (OMS) entra com US$ 1 milhão por ano para projetos de vacinas para doenças tropicais. Para a Fiocruz, confluem recursos da Organização Pan-Americana de Saúde, da Unesco, além de convênios com o Conselho Britânico, o instituto de genética francês Iserm, o Instituto Pasteur de Paris e a Escola de Saúde Pública Francesa. A Fiocruz também recebe verbas do Centro de Controle de Doenças (CDC) e do Instituto Nacional de Saúde (NIH), ambos dos Estados Unidos. "A gente busca dinheiro onde pode para garantir a manutenção e a modernização dos laboratórios", afirma Eloi. A Fiocruz é responsável pela análise de qualidade de diversos produtos usados nas redes privada e pública de saúde. E o laboratório Bio-Manguinhos aumenta a produção própria de vacinas. Mas o forte da instituição são as pesquisas. "Na área de biomédica, existem algumas linhas fundamentais de pesquisa que podem resolver problemas sérios do país e também despertam atenção internacional", lembrou Eloi. O governo paga a maior parte da conta das pesquisas no Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, da UFRJ. Nos últimos quatro anos, o instituto investiu R$ 7,5 milhões para decifrar as bases moleculares dos neurônios humanos ou dos parasitas que afetam os brasileiros. Um dos grupos do instituto está pesquisando o mecanismo de morte das células cerebrais. Esse estudo ajuda a entender doenças degenerativas, como o mal de Alzheimer. Pesquisas - Do dinheiro que entra para pesquisas, 34% vem da financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e 28% do Pronex, do Ministério de Ciência e Tecnologia, contra apenas 0,26% de empresas. Esses recursos não incluem bolsas, apenas fundos para custeio das pesquisas, compra e manutenção de equipamentos e laboratórios. Apesar de contarem com bastante apoio privado, os pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC) concordam que ciência básica depende do governo. "A gente precisa distinguir entre ciência básica e tecnológica. No segundo caso, o governo pode criar mecanismos de incentivo para as empresas. Algo como oferecer uma contrapartida de 50% para os contratos fechados com iniciativa privada", afirma José Antônio Pimenta Bueno, vice-decano de Desenvolvimento do Centro Tecno-Científico (CTC) da PUC. São as empresas que bancam a maior parcela das pesquisas na PUC. "A maior parte vem de outras fontes, não do governo", afirmou Pimenta Bueno. "O governo está diminuindo seu apoio direto e incentivando as universidades a buscarem fundos nas empresas", disse. Para captar verba privada, além do contato direto entre os departamentos e as empresas, a PUC criou a Fundação Padre Leonel Franca e o Escritório de Desenvolvimento. Só nos últimos dois anos, o escritório recebeu R$ 10,8 milhões. EUA INVESTEM MUITO FLAVIA SEKLES - Correspondente WASHINGTON - Sempre que o governo americano aperta os cintos - como fez este ano, durante as negociações entre republicanos e democratas, para chegar a um orçamento equilibrado até o ano 2002 -, a pesquisa é uma das áreas que mais sofrem. No entanto, a queda do investimento federal é compensada por aumentos anuais do investimento privado na área. Segundo a National Science Foundation, os Estados Unidos investiram US$ 185 bilhões em pesquisa e desenvolvimento, só em 1996. Desse total, 61% são investimentos do setor privado. Universidades, governos estaduais e empresas sem fins lucrativos investiram 5% do montante total e o governo federal, 34%. No ano fiscal de 1997, o governo federal está investindo US$ 70 bilhões em pesquisa. Nas universidades, entretanto, o governo federal é de longe o maior financiador de pesquisas, representando 60% - ou US$ 13 bilhões - dos mais de US$ 22 bilhões orçados pelas instituições. Governos estaduais financiaram US$ 1,6 bilhão em bolsas; a indústria privada, US$ 1,4 bilhão; e outras organizações sem fins lucrativos, cerca de US$ 4 bilhões. A maior parte do investimento federal em pesquisa limita-se, no entanto, às maiores universidades americanas. Entre a Segunda Guerra e 1978, o governo federal financiou mais de 50% do total encaminhado à pesquisa; Mesmo quando foi ultrapassado pela indústria privada, no finados anos 70, o investimento oficial continuou crescendo, especialmente durante q governo.de Ronald Reagan, quando os americanos investiram pesado em suas forças armadas. As indústrias privadas que mais aumentaram seus investimentos em pesquisa foram as farmacêuticas é, as empresas de software. Só a indústria de biotecnologia americana investiu mais de US$ 10 bilhões em pesquisa, nos últimos 10 anos. Um exemplo da importância que empresas americanas dão à pesquisa' é a Microsoft, que investe 20% de suas vendas - cerca de US$ 2 bilhões por ano - em pesquisa e desenvolvimento de novos produtos. Consumidor - O governo americano ainda é o maior investidor em pesquisa nas áreas de defesa e desenvolvimento de novas tecnologias espaciais. A razão é simples - o governo é o principal consumidor dessas tecnologias. Além do investimento direto, o governo americano também financia indiretamente o desenvolvimento de outras tecnologias, através de incentivos fiscais. Os beneficiados são empresas que investem em fontes de energia alternativas, novas técnicas de agricultura e outros setores considerados vitais para a economia. Alguns críticos temem que cortes no investimento federal em pesquisa deixem os EUA em desvantagem econômica no futuro. Mas nem todos concordam. Com a economia mais rica do mundo, o país ainda gasta mais do que todos os outros do planeta na pesquisa que garantirá sua proeminência em termos tecnológicos por um bom tempo. Ainda segundo a National Science Foundation, do total de US$ 380 bilhões investido em pesquisa e desenvolvimento no mundo inteiro, 90% são de sete países (EUA, Japão, Alemanha, França, Inglaterra, Canadá e Itália), sendo que 44% dessa fatia é aplicada nos Estados Unidos.