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Iniciação científica mostra a força da graduação

Publicado em 27 setembro 2005

Por Clayton Levy

Num país onde o investimento em pesquisa científica não passa de 1% do Produto Interno Bruto (PIB), marca irrisória perto da média de 3% cravada pelas nações desenvolvidas, fazer ciência nunca foi uma tarefa fácil. Mesmo assim, cada vez mais um número maior de jovens dá os primeiros passos em direção a esse terreno, cuja porta de entrada são os projetos de iniciação científica. Este ano, 926 trabalhos estarão expostos nos dias 28 e 29 de setembro durante o XIII Congresso de Iniciação Científica da Unicamp. O número representa um incremento de 3% em relação ao ano anterior e de quase 45% em relação a 2003. Mais do que um salto quantitativo, porém, o evento se consolida como uma das marcas de qualidade responsáveis pelo diferencial no ensino de graduação da Universidade.

Desde a sua criação existiu na Unicamp a convicção de que realizar pesquisas na fronteira do conhecimento teria um reflexo importante na qualidade da formação de nossos alunos de graduação, diz o pró-reitor de Pesquisa, Daniel Pereira. Segundo ele, esse modelo faz com que os ingressantes convivam desde cedo ao lado de profissionais que fazem ciência. Efetivamente, quem ministra as disciplinas nas salas de aula são os mesmos pesquisadores que estão desenvolvendo suas atividades nos laboratórios, destaca o pró-reitor. Gente que publica anualmente cerca de 1,5 mil artigos em revistas indexadas e responde atualmente por cerca de 15% da pesquisa acadêmica produzida no país. Só no ano passado, a Unicamp chegou à média de 1,1 artigo publicado por pesquisador-doutor, o que a coloca no topo da lista da produção per capita, à frente da Universidade de São Paulo (USP), com 0,9% e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com 0,5%.

A relação dos estudantes com estes pesquisadores certamente é um diferencial de qualidade no ensino de graduação, observa Daniel Pereira. Segundo ele, esse relacionamento produz pelo menos dois impactos importantes: uma formação mais qualificada e abrangente, que está acima daquela associada apenas aos livros e textos didáticos; e o contato direto com a pesquisa, que induz os estudantes a desenvolverem uma curiosidade científica maior. O resultado é que muitos acabam escolhendo a carreira científica.

Daniel Pereira fala com a autoridade de quem já trilhou o mesmo percurso. Segundo ele, a participação em projetos de iniciação científica, nos anos de 1978 e 1979, foi decisiva para definir sua atuação como pesquisador na área de eletrônica quântica e laser. À época, ele desenvolveu trabalhos sobre lasers de CO2 com descargas transversais. Foi através de conversas com professores que fiquei particularmente atraído pelo Laboratório de Lasers, recorda. A experiência foi fundamental porque me ajudou a decidir pela pós-graduação na área de lasers e aplicações, na qual continuo atuando até hoje.

Há, porém, outros desdobramentos decorrentes da atividade de pesquisa ainda na graduação. Um deles é a aproximação dos estudantes com as agências de fomento para concessão de bolsas, algo que permeará a carreira de boa parte deles na pós-graduação. Em 2004, foram atribuídas para estudantes da Unicamp 516 bolsas pelo Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (Pibic) do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq); 232 bolsas pesquisa pelo Serviço de Apoio ao Estudante (SAE), da própria Universidade; e 243 bolsas pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). No total, foram 1.134 bolsas. Em 2005, a Unicamp recebeu 1.150 inscrições junto ao Programa Integrado de Bolsas de Iniciação Científica, ainda englobando Pibic/CNPq, SAE e Fapesp, refletindo um aumento de 9,6% em relação à demanda do ano anterior.

Por conta dessa vocação natural para a pesquisa, o estudante de graduação acaba encontrando na Unicamp uma estrutura pouco comum no ensino superior brasileiro. Nesse aspecto, um dos exemplos mais ilustrativos são os laboratórios de ensino. Esses espaços se tornam centros importantes para desenvolver o potencial do estudante, diz Daniel Pereira. Segundo ele, em muitas situações, o aluno entra em contato com pesquisas que estão na fronteira do conhecimento. Além disso, segundo o pró-reitor, estabelece uma idéia mais próxima do que vem a ser fazer ciência e do que é o método científico de investigação, que na verdade é o que faz avançar o conhecimento.

Uma outra vertente desse mesmo cenário, mas com o mesmo grau de importância, é apontada pelo pró-reitor de Graduação, Edgar Salvadori de Decca. Muitas áreas que não incluem necessariamente laboratórios de pesquisa contam com acervos nas bibliotecas e nos arquivos. O acervo bibliográfico, formado por livros e periódicos, é um dos mais importantes da América Latina, destaca De Decca. São ao todo 23 bibliotecas, onde estão cerca de 650 mil títulos de todas as áreas do saber, distribuídos entre livros e teses, além de 16,2 mil títulos de periódicos correntes e não correntes. Tanto as áreas técnicas, quanto biológicas e de humanidades encontram condições muito favoráveis, observa De Decca.

Ainda nesta mesma linha, De Decca chama atenção para os arquivos mantidos pela Universidade, 38 ao todo. Um passeio pelo campus pode colocar o estudante em contato com acervos completos de nomes como Sergio Buarque de Holnada, Alexandre Eulalio, Oswald de Andrade, Cecília Meireles, Menotti Del Picchia, Abílio Pereira de Almeida e Hilda Hilst. Só no Arquivo Central (Siarq) há 247 fundos documentais e coleções, entre os quais os arquivos científicos de Zeferino Vaz, fundador da Unicamp que escreveu muito sobre ensino superior no Brasil, e do físico César Lattes, o brasileiro que mais perto chegou do Prêmio Nobel, além de centenas de outros cientistas da Universidade. Outro destaque é o Arquivo Edgard Leuenroth (AEL), ligado ao Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), que reúne um dos mais importantes acervos sobre movimentos sociais, história da industrialização, direitos humanos, história política e história da cultura. A Coleção Ibope traz todas as pesquisas de opinião pública realizadas pelo instituto desde os anos 1940. As coleções Brasil Nunca Mais e do Teatro Oficina há anos estão entre as mais consultadas.