Notícia

A Folha (São Carlos, SP)

Inibidores Protéicos detém parasitas de Doença de Chagas

Publicado em 26 junho 2005

Pesquisa

O trabalho de físicos, químicos, bioquímicos e biólogos paulistas criou moléculas que bloqueiam uma enzima glicolítica que nutre o Trypanosoma cruzi, parasita causador da Doença de Chagas, no sangue humano. As substâncias, desenvolvidas pela equipe do Centro de Biologia Molecular Estrutural (CBME) têm potencial de uso em remédios para a doença. O CBME, um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepids) criados pela Fapesp, conta com a participação do Instituto de Física de São Carlos (IFSC) da USP.
Os pesquisadores do IFSC construíram modelos da estrutura das enzimas e das moléculas. "O Trypanosoma cruzi no sangue utiliza glicose como alimento e as enzimas glicolíticas quebram a glicose, produzindo os componentes e a energia que nutrem o parasita", relata o professor do IFSC, Glaucius Oliva, que coordenou a pesquisa. "Os genes que produzem a enzima foram identificados e por meio da análise de sua estrutura, criaram-se inibidores protéicos, moléculas capazes de bloqueá-la."
Para estudar a estrutura das enzimas, foi utilizada a cristalografia de raio-X. "Depois que os biólogos e bioquímicos clonaram a proteína, ela foi organizada em cristais, e estudada por intermédio de radiação sincrotron", conta Oliva. "O trabalho dos físicos foi definir, com auxilio do computador, modelos tridimensionais da estrutura dos inibidores protéicos e como eles vão se encaixar nas enzimas."
De acordo com o professor, "algumas das moléculas mais promissoras foram extraídas de duas espécies da flora brasileira, o cajueiro (Anacardium occidentale) e o jaborandi (Pilocarpus spicatus), encontrado em áreas de interface do Cerrado com a Mata Atlântica."

Remédios
O professor aponta que desenvolver um fármaco é um processo longo. "Após a descoberta de moléculas promissoras, as indústrias farmacêuticas buscam desenvolvê-las ajustando a solubilidade, estabilidade e a capacidade da substância ser excretável, não ficando no organismo", afirma. "São necessários testes pré-clínicos com três tipos de animais e experiências com voluntários sadios e pacientes do mundo todo, um processo que pode levar de 12 a 14 anos, ao custo de até US bilhão."
Oliva observa que não há interesse das indústrias em produzir remédios para Doença de Chagas. "Como o problema é típico de países pobres, as grandes empresas não enxergam retorno financeiro", lamenta. "Com recursos, seria possível desenvolver remédios em 5 ou 6 anos para testes no Brasil, onde há muitos chagásicos crônicos que precisam ser tratados."
O CBME é um dos Cepids criados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Integram o Centro Pesquisadores do IFSC, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e do Laboratório Nacional de Luz Sincrotron (LNLS), em Campinas. "As pesquisas também abrangem outras doenças infecciosas, como leishmaniose, esquistossomose e malária."
Outras informações podem ser obtidas através do Portal da USP-São Carlos (www.sc.usp.br) ou pelo telefone (16) 3373-9844, com o Prof. Glaucius Oliva. (Agência USP)