Notícia

Jornal do Brasil

INGLÊS VÊ O FUTURO COM PESSIMISMO

Publicado em 06 outubro 1996

Por NELSON FRANCO JOBIM
LONDRES — A globalização da economia está criando um admirável mundo novo marcado pela feroz competição e pelo abandono das classes baixas que aumenta a desordem social e a criminalidade, advertiu o professor Ian Angell, da London School of Economics, no documentário O Estado Oco, apresentado na semana passada pela TV estatal britânica BBC. Como os políticos estão praticamente proibidos de aumentar impostos e gastos pela pressão do mercado financeiro, Angell tem a impressão de que o Estado está ficando cada vez mais fraco e impotente. Sua capacidade de cuidar dos deserdados pelo mercado está reduzida. Isto cria uma massa não de desempregados, mas de não-empregados, pessoas cujos empregos desapareceram e que não atendem às exigências para ocupar as vagas disponíveis no mercado. Para produzir o programa, o jornalista Simon Hoggart foi a Kin Hui, uma cidade chinesa praticamente desconhecida. "Vi o futuro e ele fede", disse o repórter ao jornal The Guardian. Em Xin Hui, a empresa British Polythene está fabricando 21 milhões de sacos plásticos por semana com a inscrição "Mantenha a Grã-Bretanha limpa." Resultado: centenas de empregos desapareceram em Telford, no onterior da Inglaterra. A explicação é fácil. Os trabalhadores chineses ganham cerca de 50 centavos de libra por hora (RS 0,80). Isto eqüivale a 10% do que ganhavam os operários de Telford, mas está bem acima dos US$ 300 por ano que recebem os chineses das províncias onde a liberalização econômica ainda não chegou. Na ânsia de ganhar mais, milhões de chineses estão indo para as zonas econômicas especiais em busca de emprego, numa migração em massa capaz de desestabilizar a frágil estrutura social da China. Hoje, 150 milhões de chineses trabalham na indústria manufatureira do Sudeste do país, que está fazendo praticamente tudo para vender no resto do mundo. E uma força de trabalho maior que as dos Estados Unidos ou da União Européia. Apesar de todas as promessas dos políticos de aumentar a competitividade, é altamente improvável que países desenvolvidos tenham condições de concorrer nos setores de mão-de-obra intensiva. Nesta época em que empregos, dinheiro, mercadorias e pessoas podem ser movimentadas quase sem restrições pelo mundo inteiro, raciocina o professor Angell, os mais inteligentes e qualificados pegam os melhores empregos e o resto disputa ferozmente as vagas restantes. Ele observa que nos EUA, e certamente também na América Latina, os ricos cada vez mais se encastelam nas suas propriedades, consultam médicos particulares e seus motoristas levam os filhos para escolas privadas, entre outros privilégios. Essa camada superior não precisa de transportes nem escolas nem dos serviços de saúde públicos. Em breve, num mundo em que a globalização dos negócios provoca a erosão das lealdades nacionais, podem decidir não pagar mais impostos, mudando-se para paraísos fiscais. Na aldeia global hoje, ao mesmo tempo em que são cada vez maiores as restrições ao direito de asilo, compra-se cidadania. Um dos preços mais altos é o dos Estados Unidos: o famoso "cartão verde" custa US$ 1 milhão. O direito de residência no Canadá é muito mais barato e dá acesso à Zona de Livre Comércio da América do Norte. É uma das opções preferidas pelos chineses, que estão fugindo de Hong Kong antes que a atual colônia britânica seja devolvida à China. Honduras, por apenas U$$ 30 mil, é uma barganha mas, naturalmente, há menos candidatos e com contas bancárias menores. Com o sucesso da Internet, outro fenômeno pós moderno é a compra cada vez maior de mercadorias e serviços através do computador. O Tesouro britânico calcula ter perdido este ano mais de U$$ 6 milhões em ICMS que se evaporaram no universo fluído do ciberespaço. Depois de 17 anos de thatcherismo, a Grã-Bretanha se beneficia da globalização. Recebe 38% do investimento externo na UE. A Siemens alemã, por exemplo, está investindo U$$ 1,76 bilhão numa fábrica de semicondutores no Nordeste da Inglaterra. Aproveita-se da "docilidade" da mão-de-obra britânica, disposta a trabalhar além do limite de 48 horas adotado no resto da UE por salários muito inferiores aos da Alemanha. A LG sul-coreana fez o maior investimento externo realizado até hoje na Europa, porque os salários no País de Gales são menores hoje que os da Coréia do Sul. Por outro lado, com a fragmentação política e o divórcio entre o campo e a cidade, cada vez mais as cidades se consideram o centro da atividade econômica. Londres, por exemplo, como terceiro maior centro financeiro do mundo, pode decidir parar de dividir a riqueza que produz com o resto da Grã-Bretanha, da mesma forma que Hong Kong certamente vai manter a massa de chineses à distância. Na Inglaterra, os preços dos imóveis e aluguéis na capital já são um poderoso fator para manter os deserdados pelo mercado à distância. O sucesso da recuperação econômica dos Estados Unidos, país que mais recebeu investimentos estrangeiros no ano passado, indica que o Ocidente pode sobreviver à ofensiva asiática e prosperar, enquanto o antigo Terceiro Mundo aumenta a sua riqueza. Só que isso exige uma "flexibilização" do mercado de trabalho que se traduz em menos direitos e garantias aos empregados. Se para Hoggart "o futuro fede", para Ian Angel será sombrio, com hordas de desempregados aterrorizando as grandes cidades. O repórter reconhece que o desenvolvimento econômico e tecnológico pode, "através de milagres da engenharia social e econômica", criar um mundo melhor. Mas ele duvida e reforça sua posição citando o escritor Herbert George Wells, autor de A Guerra dos Mundos: "O futuro nunca é tão futurístico quanto parece."