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Mente e Cérebro

Influências francesas no Brasil

Publicado em 01 dezembro 2009

A influência da psicanálise francesa na clínica exercida no Brasil tem início na década de 70, em pleno boom das praticas psi. Nesse momento, majoritariamente sob a égide da International Psycho-analytical Association (IPA), a praxis psicanalítica estava implantada apenas em São Paulo, no Rio de Janeiro e em Porto Alegre - tanto na clínica privada quanto em espaços institucionais, principalmente na saúde pública. As influências teóricas - embora predominantemente ditadas pela orientação inglesa, seja nas vertentes inspiradas nas obras de Melanie Klein, seja nas de Wilfred Bion - eram atravessadas pela tradição higienista de saúde mental americana que marcou as primeiras gerações de analistas brasileiros. A ela se acrescentava certa identificação com a psicanálise americana, tanto a Escola de Chicago, fundada por Franz Alexander e especializada em medicina psicossomática, quanto a Escola de Nova York, liderada por Heinz Hartmann, fundador da psicologia do ego.

Já a hegemonia inglesa era o resultado de idas e vindas a Londres, desde os anos 50, para análises didáticas, participação em seminários teóricos oferecidos pela British Psychoanalytical Society (BPS) e estágios na Tavistock Clinic. Outra rota de acesso ao kleinismo era Buenos Aires, onde muitos analistas se formaram com personalidades renomadas da Associação Psicanalítica Argentina (APA). A partir de meados dos anos 60 foi a vez de os argentinos realizarem curtas estüdias, para seminários clínicos e supervisão, o que resultou, entre outras coisas, na introdução, por Arminda Aberastury em 1970, do tratamento psicanalítico em crianças.

No que se refere ao pensamento francês, afora Jean Laplanche e J.-B. Pontalis, autores do famoso Vocabulário úe psicanálise, traduzido e publicado em 1970, até aquele momento nenhum autor havia interessado as primeiras gerações de analistas brasileiros a ponto de procurarem difundi-lo no pa/s. Porém, mais que um só pensamento dominando essa clínica, o que favoreceu a chegada da escola francesa foi a impossibilidade das instituições vinculadas à IPA de responder à demanda reprimida de formação principalmente de psicólogos, cuja profissão surgiu nos anos 60. Até então, com exceção da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP), só médicos podiam ter acesso a ela.

Portanto, foi no quadro da expansão do freudismo no país e da disputa de reserva de mercado, na brecha deixada pelas instituições ligadas à IPA, que outras escolas de pensamento puderam emergir, como "formação alternativa", sobretudo com base na obra de Jacques Lacan, e também no trabalho do psicanalista de origem russa Igor Caruso que começava a se difundir em Porto Alegre e Belo Horizonte. No que se refere ao pensamento francês, ele chegou inicialmente pela via acadêmica: no meio universitário, nos cursos de psicologia, filosofia e comunicação e, em particular, nas pós-graduações recém-criadas, o que de certo modo foi um paradoxo, visto que entre os analistas lacanianos franceses da primeira geração poucos eram universitários, e a psicanálise se dava ainda por meio do que poderíamos chamar de transmissão oral. Chegou principalmente na bagagem de jovens intelectuais que retornavam da França, onde o lacanismo dominava o cenário intelectual. Alguns haviam sido beneficiados por bolsas de pós-graduação, ou regressavam de viagens culturais, enquanto outros retornavam de exílios políticos ou mesmo "subjetivos".

Um dos primeiros a se interessar pela temática foi o então filósofo Luiz Carlos Nogueira. Marcado por uma formação com os jesuítas, seu interesse surgiu da leitura de Paul Ricoeur, Da interpretação — Ensaio sobre Freuâ, ainda na década de 60, como anos mais tarde ele diria à psicanalista Silmia Sobreira: "Me dei conta de que havia lá uma elaboração a partir da linguagem, (...) e isso me interessou muito, porque eu encontrava aí bases não biológicas para a prática psicanalítica, que era já certa hipótese que eu estava construindo". Ao optar pela psicanálise, entre 1968 e 1973, ele integrou a primeira geração de pós-graduados do Instituto de Psicologia (IP) da Universidade de São Paulo (USP), onde, como em uma bela história de transmissão, defendeu mestrado e depois doutorado sob a orientação de Durval Marcondes, o fundador da psicanálise paulista, assumindo em seguida a cátedra de psicologia, tanto no IP-USP quanto na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Campinas.

Outra pioneira paulista foi Betty Milan. Jovem estudante de medicina, em análise com Isaías Melsohn, da SBPSP, ela ouvira o membro ativo da Escola Freudiana de Paris (EFP) Joseph Attié falar de Lacan. Mas antes de instalar-se na capital francesa -para, entre 1973 e 1978, analisar-se com Lacan, em 1971 - ela organizou com Regina Chnaiderman um grupo de estudos em sua casa, reunindo, entre outros, Miriam Chnaiderman e Fábio Herrmann, sob a orientação de Marilena Chauí. Professora de filosofia moderna da USP, ela acabara de lecionar a disciplina "Merleau-Ponty e a psicologia", na pós-graduação do Instituto de Psicologia da USP.

Nesse meio-tempo, no Rio de Janeiro, Magno Machado Dias, então professor do curso de comunicação da PUC-RJ e das Faculdades Integradas Estácio de Sá, começava a introduzir fundamentos dessa teoria em sua disciplina de graduação, antes de constituir um grupo de estudos sobre Lacan e realizar as primeiras conferências e palestras sobre o tema. O caminho estava aberto para os primeiros comentadores da doutrina, como Horus Vital Brasil, em seu artigo "Psicanálise em crise", de 1974.

O caminho estava aberto também para a implementação da doutrina. A aproximação definitiva entre Luiz Carlos Nogueira e Durval Chec-cinatto ocorreu na capital paulista. Também filósofo de formação, Chec-cinatto acabara de retornar da França, onde frequentara a Escola Freudiana de Paris (EFP) e fora analisado por Moustapha Safouan e se instalara em Campinas. A parceria intelectual e de amizade logo se ampliou para outro encontro importante: com o jesuíta de origem franco-canadense Jacques Laberge. Também membro da EFP, ele havia sido analisado por Christian Simatos. Nessa época, Laberge vivia em Recife, e juntamente com o matemático Ivan Correa dava os primeiros passos nos ensinamentos de Lacan na capital pernambucana, onde, apesar da tradição da psiquiatria social, ainda não havia prática psicanalítica. Aliás, não só em Recife como em diversas outras cidades do país, nos anos 80 a psicanálise foi introduzida pela via do lacanismo.

Antes, porém, em outubro de 1975, esse primeiro grupo com cerca de 30 pessoas disperso entre São Paulo, Campinas e Recife fundou a primeira instituição psicanalítica laca-niana no Brasil, o Centro de Estudos Freudianos (CEF). As dissidências que caracterizariam esse movimento também não tardariam. A primeira ocorreu em 1978, dando origem à Escola Freudiana de São Paulo, sob a liderança de Alduizio Moreira de Sousa. A partir dessa origem, nos próximos anos uma série" de grupos surgiram e desapareceram.

Enquanto isso, no Rio de Janeiro, Magno Machado Dias, após tentativa frustrada de trazer Lacan ao Brasil, instalou-se por alguns meses em Paris para se analisar com seu mestre. Foi quando conheceu Betty Milan

e discutiram a criação do Colégio Freudiano do Rio de Janeiro, fundado no ano seguinte, em 1976. Magno caracterizou-se por uma conduta polêmica que mesclava idolatria ao mestre e uma concepção culturalista, na busca de uma dimensão tropicalista da psicanálise.

A partir de 1976, a presença lacaniana será ressignificada, em particular em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Salvador, Porto Alegre, Belo Horizonte e Recife, com a chegada dos analistas argentinos que fugiam da ditadura. Alguns haviam sido alunos de Oscar Mazzota, o iniciador da doutrina na Argentina, e conheciam os Escritos, de Lacan, publicado em espanhol em 1969, assim como alguns discípulos do autor, como Serge Le-claire, Maud e Octave Manoni, que já haviam estado em Buenos Aires a convite da Associação Psicanalítica Argentina (APA) e tinham seus trabalhos traduzidos.

Agora em dimensão mais continental, outro marco importante para o desenvolvimento da doutrina ocorreu em 1980. Enquanto os discípulos franceses, mergulhados em uma crise profunda, se dilaceravam pela herança lacaniana após a dissolução da Escola Freudiana de Paris (EFP), na América Latina ocorria a famosa Reunião de Caracas, com 300 pessoas, entre as quais Lacan, apesar de bastante debilitado na época. Foi o Primeiro Encontro "Lacanoamericano", para utilizar o significante do mestre.

Já no ano seguinte, após a morte do fundador da doutrina, seu herdeiro testamentario, Jacques-Alain Miller, que compreendera a dimensão desse movimento, fez sua primeira visita ao Brasil. Veio a São Paulo, a convite de Jorge Forbes, para organizar esse campo. Foi a primeira de uma série de estadias regulares efetuadas desde então juntamente com os grandes nomes da Escola da Causa Freudiana, elas possibilitaram a implantação e o controle da corrente milleriana em âmbito nacional, desde a criação da Biblioteca Freudiana Brasileira em 1982. Esse controle fica mais evidente a partir de 1986, quando com Judith, sua mulher, Miller fundou e dirigiu a Coleção Campo Freudiano, tornando-se o responsável pelas versões brasileiras da obra de Lacan, lançadas pela Editora Zahar.

Tal domínio não impediu a circulação, embora restrita, de alguns seminários clandestinos sob a responsabilidade de organizações atravessadas por outras filiações. Também não impediu a proliferação de escolas e grupos, principalmente no Rio, cidade recordista, com cerca de dez instituições, ainda na década de 80. O impacto maior foi, no entanto, provocado pela cisão de 1997, que levou à constituição de diversos fóruns no país filiados ao movimento internacional liderado por Colette Soller.

Na realidade, desde o início, Jac-ques-Alain Miller precisou dividir o cenário com diferentes personalidades da psicanálise francesa, como Piera Aulagnier, antiga analisanda de Lacan, uma das fundadoras do Quatrième Grou-pe. Em 1980, ela realizou conferências e supervisões a convite da SBPSP, embora nessa instituição, ligada à IPA, o pensamento francês só tenha conquistado um real espaço após o ingresso de Luiz Carlos Menezes - que, formado pela Associação Psicanalítica Francesa (AFP), regressou ao Brasil em 1982.

Outro bom exemplo dessa diversidade teórica que ao mesmo tempo aproximou vários grupos e personalidades expressivas desse movimento de diversas regiões do país foi a Associação Psicanalítica de Porto Alegre, APPOA. Fundada em 1989 por Contardo Calligaris, recém-chegado à capital gaúcha, ela se mantém ainda hoje fiel aos seus princípios

UNIVERSIDADE PARIS VIII: cursos de pós-graduação atraíram brasileiros interessados em aprofundar estudos acadêmicos de abertura para diferentes escolas e tendências lacanianas, e de não se submeter ao controle da Associação Freudiana Internacional.

É claro que para essa expansão também contou a significativa presença da psicanálise e em particular do lacanismo na universidade, principalmente nos cursos de pós-graduação em psicologia clínica. A isso se acrescentam as idas de brasileiros em busca de pós-graduação oferecida nas Universidades Paris VII e Paris VIII, o que não acontecia em relação aos analistas da primeira geração lacaniana, visto que a maioria não era do meio acadêmico, sendo Laplanche uma das raras exceções na época. Nessa perspectiva merece destaque a influência de Jac-ques Fedida, analista de alguns brasileiros na década de 70 que acabou constituindo um campo transferencial em São Paulo. Suas estadias no Brasil, sua obra em grande parte traduzida e o lugar que ocupava na Universidade de Paris VII levaram muitos doutorandos brasileiros a Paris nos anos 90, além de terem impulsionado a criação dos diversos laboratórios de psicopatologia fundamental seguidos da Associação Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental, por iniciativa de Manoel Berlinck.

Outra via de transmissão do pensamento francês foram os estágios com Françoise Dolto na Escola Experimental de Bonneuil, fundada por Maud Mannoni. Acrescentam-se ainda trocas de experiências com psicanalistas brasileiros radicados na França e reunidos na Associação Franco-brasileira, que, entre outras atividades, desde os anos 80 organiza encontros e divulga artigos.

A dimensão dessas trocas pode ser medida pelas inúmeras publicações e até mesmo editoras, como a Casa do Psicólogo ou a Escuta, responsável não apenas por traduções como pela vinda de diversos analistas franceses. Além de Serge Leclaire, que desde 1979 era traduzido no Brasil, por iniciativa de Célio Garcia e Chaim Samuel Katz, a partir dos anos 80 várias editoras publicaram obras de autores como Françoise Dolto, François Perrier, Octave e Maud Mannoni, Moustapha Safouan, Piera Aulagnier, Charles Melman, Didier Anzieu, André Green, Joyce McDougal, Jean Laplanche, Elisabeth Roudinesco, Contardo Calligaris, Jacques Fedida, Jacques André, Jean-Jacques Rassial, Michel Plon, Jacques Hassoun, Rad-mila Zygouris e outros.

É interessante notar que de todos esses autores, alguns se tornaram conhecidos através da SBPSP, outros através da APPOA, outros por seus livros ou pela participação em congressos para os quais foram convidados por analistas brasileiros, e outros, ainda, pela via régia da transmissão analítica: o divã, sua obra sendo divulgada basicamente por analisandos e ex-analisandos. Se muitos deles não chegaram a fazer escola por aqui, deixaram marcas significativas na formação dos profissionais brasileiros nos últimos 30 anos. Mas o que chama a atenção é o fato de alguns dos melhores analistas da primeira geração de lacanianos não terem deixado suas marcas em terras brasileiras. Suas contribuições de certo modo passaram despercebidas, apesar do lugar de destaque no movimento psicanalítico francês em sua idade áurea. É o caso de Wladimir Granoff, Serge Leclaire e François Perrier, embora os dois últimos tenham sido traduzidos para o português. Tal desfecho curioso e intrigante talvez se deva ao fato de esses analistas não serem acadêmicos e terem tido maior dificuldade ou menor interesse em exportar sua obra.

Essa ausência na transmissão geracional tem implicações e pode ser sentida na leitura de muitos textos psicanalíticos atuais filiados ao lacanismo. Embora competentes e sérios, alguns deixam a impressão de que estão tentando reinventar a pólvora em relação a temáticas já trabalhadas. Um bom exemplo é o tema da sexualidade feminina, tão bem desenvolvido por Wladimir Granoff e François Perrier a pedido de Lacan para o Congresso de Amsterdã,- o assunto resultou em uma pequena obra-prima intitulada O desejo e o feminino, de 1979. Nesse livro, os autores desenvolveram a hipótese de que, ainda que a perversão não exista stricto sensu nas mulheres, por não comparecer em suas formas sexuais e sobretudo como fetichismo, é possível levar em conta uma perversão específica, fazendo com que a mulher possa se tornar seu próprio fetiche. A dimensão de tal fato se esclareceria na relação mãe-criança que pode, eventualmente, desembocar na erotomania de um "eu sou tudo para ele" no lugar da sublimação.

A criatividade desses autores pode ainda ser acompanhada em obras individuais, como o livro La chaussée D"Antin, de Perrier e O pensamento e o feminino, de Granoff. Neste, o autor vai além do enigma freudiano de "O que quer uma mulher?" para se perguntar o que produz o feminino.

Tendo participado ativamente da tentativa de evitar a expulsão de Lacan da IPA nos anos 50 e 60, integrando a famosa "troika", Granoff foi um dos primeiros a fazer a ponte entre o pensamento francês e o inglês, tornando-se o interlocutor de autores como Winnicott e Bion, além de ter redescoberto a obra de Sándor Ferenczi na França. Isso o levou a se interessar pela formação dos analistas e pela história das transferências, sem a qual, é bem sabido, não existe psicanálise. O assunto é tema de seu livro Filiations, de 1975 — infelizmente não traduzido para o português - , que nos ajuda a entender os caminhos transferenciais desse saber que se transmite de geração a geração.

Para conhecer mais: História da psicanálise. C. Lucia Montechi Valladares de Oliveira. Escuta/Fapesp, 2005.