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Publicado em 07 novembro 2006

Por Agência FAPESP

Estudo feito a partir de dados obtidos pela missão Cassini-Huygens aponta que condições da atmosfera em Titã, maior lua de Saturno, são similares às encontradas nos primórdios da Terra e que deram origem à vida no planeta

De marcianos inteligentes a bactérias e, agora, ao estado anterior do surgimento de qualquer forma de vida. Vale tudo para tentar descobrir se os habitantes da Terra são ou não os únicos no Universo. Dessa vez, a pista vem de Titã, a maior lua de Saturno.
Desde que o norte-americano Gerard Kuiper descobriu, em 1944, que Titã, diferente das outras luas do Sistema Solar, tem uma atmosfera densa, o satélite tem sido um dos principais alvos na busca por sinais ou condições de vida.
Um estudo que será publicado esta semana na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (Pnas) descreve notáveis similaridades entre a atmosfera atual de Titã e as condições atmosféricas dos primórdios da Terra. Ou seja, em teoria, um cenário que poderia levar à formação de vida.
Os dados usados para o estudo foram obtidos a partir da missão Cassini-Huygens, parceria entre as agências espaciais norte-americana (Nasa), européia (ESA) e italiana (ASI).
Uma das condições mais intrigantes em Titã é a existência de uma densa névoa de aerossóis orgânicos, derivada da reação química induzida por raios ultravioleta entre moléculas de metano e nitrogênio na atmosfera do satélite.
No novo estudo, o grupo coordenado por Margaret Tolbert, do Departamento de Química e Bioquímica da Universidade do Colorado, nos Estados Unidos, simulou vários cenários para condições da infância terrestre. Os resultados obtidos foram similares aos observados pela sonda Huygens em Titã.
Os pesquisadores verificaram, por exemplo que a mistura de nitrogênio e metano produz múltiplos tipos de longas cadeias de hidrocarbonetos, incluindo alguns compostos aromáticos como o benzeno. Observaram também que, com grandes quantidades de metano e dióxido de carbono, foram obtidas névoas contendo diferentes compostos, como aldeídos e éteres.
"Os resultados mostram que os aerossóis produzidos em laboratório podem servir de comparação para a névoa observada na atmosfera em Titã. Experimentos conduzidos em condições prováveis dos primórdios da Terra sugerem que uma névoa espessa também dominou a atmosfera terrestre", escreveram os autores.
De acordo com o estudo, a Terra teria produzido mais de 100 trilhões de gramas de aerossol por ano e esses compostos orgânicos na névoa podem ter servido como fonte primária de material para o surgimento de vida.
O artigo Organic haze on Titan and the early Earth, de Margaret Tolbert e colegas, poderá ser lido por assinantes da Pnas em http://www.pnas.org.

Jornal da Ciência Online - 07/11/2006