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Brasil Econômico

Indústria química testa linhas exclusivas

Publicado em 21 junho 2011

Por Weruska Goeking

Até 1997, o químico Nilton Pereira Alves trabalhou na filial brasileira da Eastman Kodak Company, onde atuou na área de metrologia de medições de pH e íons. Com a expansão da fotografia digital e a consequente diminuição do mercado para as fotos analógicas, a Kodak perdeu o interesse na área de pesquisa do químico e Alves deixou acabou deixando a empresa.

Com dois colegas de trabalho, Alves fundou Laboratórios Químicos e Metrológicos Quimlab ainda em 1997, em São José dos Campos, interior de São Paulo, com investimento aproximado de R$ 40 mil. "No início o investimento foi praticamente só intelectual", conta

A equipe deu continuidade às pesquisas realizadas na Kodak e se tornou fabricante de padrões químicos destinados à calibragem de equipamento de análises químicas industriais. A própria Kodak era um de seus primeiros clientes.

No ano seguinte a empresa recebeu aporte de R$ 500 mil da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) para a compra de equipamentos de precisão e formação de profissionais necessários às atividades metrológicas dos laboratórios. "Na época isso foi muito importante, porque não havia outra linha de fomento. Com o montante, fizemos intercâmbio nos Estados Unido e compramos equipamentos. O projeto durou dois anos e deu novo fôlego à empresa", conta.

Em agosto de 1999, a Quimlab assinou parceria com a Univerdade do Vale do Paraíba (Univap), tornando-se uma empresa incubada. Foram desenvolvidas pesquisas metrológi-cas e a Quimlab também ofereceu serviços de análises para empresas da região do Vale do Paraíba. Em contrapartida, a indústria química teve à sua disposição toda a infraestrutura necessária para as instalações de laboratórios mais modernos.

A Quimlab ficou no parque tecnológico da Univap até meados de 2007, quando mudou-se para a planta atual, em Jacareí (SP). "A empresa cresceu e precisamos adquirir uma área própria. Saímos de um espaço com 35 m2 para um com 3 mil m2", explica.

Com a expansão física, os negócios da Quimlab também cresceram. Atualmente, a empresa conta com 55 funcionários e produz 1.500 padrões químicos, sendo que 80% dos produtos não possuem concorrência nacional.

Entre seus diferenciais estão a certificação ISO 9000/2008 e processo da produção de padrões químicos certificado pela ISO 9001/2008. Além disso, seus padrões são, desde junho de 2001, rastreados ao Instituto Nacional de Normas e Tecnologia dos Estados Unidos (Nist, do inglês National Institute of Standards and Technology), o que agrega confiabilidade ao produto.

Além disso, a companhia complementa sua linha ao representar cinco indústrias americanas no Brasil.

Os importados ainda dominam esse segmento da indústria química, mas a Quimlab já obtém 10,15% de participação no mercado e Alves planeja crescer ainda mais. Para isso, os investimentos em pesquisa e tecnologia não param. "Temos um mercado muito grande para conquistar", afirma.

No ano passado, 28% do faturamento - ou 75% do lucro - da empresa foram investidos em inovação. "O lucro é quase todo revertido em inovação apostando no médio e longo prazo das tecnologias. Investimos R$ 2 milhões em uma planta de polimerização com recursos próprios nos últimos dois anos", destaca.

A Quimlab ainda conta com parcerias para alavancar os estudos e os negócios. Atualmente estão em andamento projetos com o Centro Tecnológico da Marinha de São Paulo (CTM-SP) e o Centro Técnico Aeroespacial da Aeronáutica (CTA). ¦

RECONHECIMENTO NACIONAL

Quimlab á foi premiada por sua inovação e empreendedorismo

A relevância tecnológica dos produtos desenvolvidos na Quimlab rendeu à companhia o prêmio "Empresa Incubada do Ano 2003", reconhecimento da Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos de Tecnologias Avançadas

(Anprotec). A Quimlab foi escolhida entre 1.000 empresas espalhadas pelo país e foi a primeira do estado de São Paulo a receber o prêmio. Depois de graduar-se na Incubadora Tecnológica Univerdade do Vale do Paraíba (Univap), em 2005, a empresa foi escolhida como "melhor empresa graduada" no Prêmio Nacional de Empreendedorismo Inovador 2010, "Os prêmios abrem muitas portas. É um endosso de que o que fazemos é relevante para o Brasil", conta Nilton Pereira Alves.

Processo industrial inédito tem cinco patentes registradas

Os aportes financeiros realizados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) já trouxeram grandes resultados para a Quimlab que podem beneficiar também toda a indústria química. Em 2006, os pesquisadores da empresa desenvolveram um novo termoplástico com um processo de fusão de poliacrilonitrila em meio de glicerina que pode mudar a forma como a fibra de carbono é produzida no mundo. Dentre diversos produtos, essa fibra de carbono dá origem à aviões e centrífugas de reatores nucleares.

De acordo com Nilton Pereira Alves, sócio-fundador da empresa, o novo processo surgiu com a observação do mercado. "Vimos necessidades que não eram atendidas e desenvolvemos esse novo material, à base de glicerina, que hoje é resíduo industrial de fábricas de biodiesel", explica.

Atualmente, essa glicerina não tem utilização na indústria brasileira e é exportada para a China por aproximadamente US$ 80 cada tonelada. Um valor irrisório para um produto que, no processo descoberto pela Quimlab, é capaz de reduzir em 50% os custos de produção da fibra de carbono.

Ainda em 2006 a empresa registrou a patente do processo no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI)

O novo projeto foi aprovado pela Fapesp naquele mesmo ano e em 2007 a Quimlab patenteou o processo na Organização Mundial da Propriedade Intelectual (Wi-po, do inglês World Intellectual Property Organization), que protege invenções em 150 países. Em dezembro de 2008, a empresa registrou nova patente no INPI referente ao processo de produção e conformação da poliacrilonitrila termo-plástica e em julho de 2009 todas as patentes da empresa foram consolidadas e depositadas no Escritório de Marcas Registradas e Patentes dos Estados Unidos (USPTO USA, do inglês United States Patent and Trademark Office).

Alves acredita que o polímero já possa ser utilizado em escala industrial em até quatro anos. Ele agora estuda a melhor forma de partilhar o conhecimento. As opções são a produção própria, o licenciamento, royalties ou associação com outras empresas. ¦