Notícia

Gazeta Mercantil

Indústria promissora toma corpo na AL

Publicado em 23 abril 2001

Por Lia Vasconcelos, Fernando Teixeira, Eduardo Caspani e Lúcio Casarini São Paulo e Buenos Aires
A Biotecnologia desperta discussões acaloradas. Seja porque lembra o sempre polêmico debate a respeito dos transgênicos - ou organismos geneticamente modificados (OGMs) -, seja porque representa um dos segmentos mais promissores da economia moderna. Calcula-se que os setores de diagnóstico humano, farmacêutico, de sementes, genéricos e veterinários movimentem cerca de US$ 14.6 bilhões por ano no Brasil. Mundialmente, a área de lavouras geneticamente modificadas saltou de 1,7 milhão de hectares, em 1996, para 44,2 milhões de hectares em 2000. Apesar de o cultivo de OGMs ser uma atividade legal no Brasil, na prática a comercialização de transgênicos está proibida pela Justiça. Por isso, o governo promete estimular o debate por meio da Comissão Técnica Nacional de biossegurança (CTNBio). A Comissão vai também revisar as normas de avaliação de risco para a liberação de OGMs. A iniciativa insere-se na estratégia de elaboração do Programa Nacional de Biotecnologia. Até 2003, o Ministério da Ciência e Tecnologia deve destinar ao programa cerca de US$ 114 milhões. Embora autorizações para pesquisas experimentais ainda possam ser emitidas, a CTNBio está proibida de emitir pareceres conclusivos sobre qualquer produto. O estopim da batalha jurídica foi a Comissão ter dado um parecer conclusivo favorável à produção de soja transgênica Roundup Ready, resistente ao herbicida Roundup, da Monsanto, sem ter exigido da empresa um estudo de impacto ambiental (EIA/Rima). Há quatro anos, a norte-americana Monsanto mantém uma disputa jurídica no Brasil com o Instituto de Defesa do Consumidor (IDEC) e com o Greenpeace. Na Argentina, apesar de a venda de OGMs ser permitida, a situação é semelhante à brasileira e os transgênicos ainda geram muita polêmica. Há dois lados bem diferentes: de um, estão os que defendem o uso e a promoção de OGMs, representados basicamente pelos produtores e laboratórios. Do outro, estão as ONGs, representadas, principalmente, pelo Greenpeace. "Na Argentina e nos Estados Unidos, há mais de 320 milhões de pessoas que consomem transgênicos e ainda não foi comprovado nenhum caso de doença", afirma Luis Spanggemberch, do comitê executivo da Coordenadoria das Indústrias de Produtos de Alimentação. No Greenpeace, porém, tenta-se demonstrar que os OGMs podem ter dois efeitos negativos: causar alergias e induzir os consumidores desses produtos a uma resistência a certos antibióticos. A Associação Argentina de Defesa do Consumidor tem a mesma posição do brasileiro IDEC. "Nossa postura é informar. Se o produto tem algum elemento transgênico, isso deve ser informado ao público na etiqueta", diz Pablo Guidarelli, do setor de alimentos da Associação. Atualmente, 90% da soja argentina é transgênica e, em cinco anos, a produção do grão passou de 12 milhões para 26 milhões de toneladas. A Monsanto já comercializa, no país, três produtos transgênicos: a soja Roundup Ready e o algodão e o milho BT - do gene Bacillus Thuringiensis. Enquanto a polêmica dos OGMs continua, as pesquisas em biotecnologia não param e países líderes em estudos no setor, como EUA, Japão, Reino Unido. França e Alemanha, começam a contar com um companheiro inusitado: o Brasil, que tem apresentado, nos últimos dois anos, resultados internacionalmente inéditos no seqüenciamento do genoma humano do câncer, de bactérias e de plantas. "Há uma importância estratégica no desenvolvimento da biotecnologia no Brasil, que tem grandes recursos a serem explorados na biodiversidade e na agropecuária", diz José Fernando Perez, diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que desde 1997 aplicou US$ 45 milhões no Programa Genoma. Há vários projetos de biotecnologia também no setor privado. No Brasil, por exemplo, a Syngenta, fruto da fusão da Zeneca e da Novartis, investe em pesquisas no setor aproximadamente 10% de suas vendas mundiais, que em 2000 foram de US$ 6,9 bilhões. Os principais projetos em andamento na América Latina são de resistência do milho e do algodão a insetos. A companhia possui ainda um acordo com a Universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais, para o melhoramento da soja, visando à eliminação de certas toxinas da semente. Minas Gerais, aliás, conta hoje com o principal pólo de biotecnologia da América Latina, que concentra 58 empresas. Entre 1999 e 2000, seu faturamento passou de US$ 154,13 milhões para US$ 227,81 milhões, um crescimento de 47,8%. Nos últimos quinze anos, a participação do Brasil em publicações científicas internacionais aumentou de 0,5 para 1,4%. Hoje, a produção brasileira de ciência representa quase metade do que é feito em toda a AL. LINHA DO TEMPO QUE MARCA OS AVANÇOS EM BIOTECNOLOGIA 1863 Mendel, em seu estudo sobre ervilhas, descobre que características são transmitidas dos pais para os descendentes por unidades discretas, independentes, depois chamadas genes 1879 Willian James Beal, devoto de Darwin, realiza o primeiro cruzamento clinicamente controlado de milho, com objetivo de elevar as colheitas 1953 James Watson e Francis Crick descobrem a estrutura de dupla hélice do ácido desoxirribonucléico, conhecido como DNA. É o marco da moderna era da genética 1973 Stanley Cohen e Herbert Boyer aperfeiçoam as técnicas de engenharia genética para recortar e colar DNA, por meio do uso de enzimas, e reproduzem novo DNA em bactéria 1976 O seqüenciamento do DNA é descoberto 1980 A Suprema Corte dos EUA aprova o principio de patenteamento de formas de vida desenvolvidas por meio de engenharia genética 1983 A primeira planta transgênica: tabaco resistente a um antibiótico 1985 Plantas geneticamente modificadas, resistentes a bactérias, vírus e insetos, são testadas em campo pela primeira vez 1997 Cientistas escoceses anunciam a clonagem da ovelha Dolly, usando DNA de um animal adulto 2000 Apresentada a versão completa do Genoma Humano