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Indústria e academia

Publicado em 07 junho 2010

Agência FAPESP * - Qual é o cenário necessário para estimular o setor privado a investir em pesquisa e desenvolvimento em áreas estratégicas ao Brasil, como a bioenergia? Se o desafio tecnológico exigir aprofundamento científico sofisticado, como fazer para estabelecer uma parceria vitoriosa entre empresas e instituições públicas de ciência e tecnologia?

Essas questões foram abordadas pelos participantes do workshop promovido pelo Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE), na semana passada, em Campinas (SP).

O objetivo do evento foi avaliar, junto à comunidade empresarial ligada ao ciclo cana-de-açúcar/etanol, o conjunto de procedimentos no relacionamento do laboratório recém-criado com a indústria.

Representantes de empresas e entidades industriais foram convidados a analisar e trazer sugestões sobre o material discutido, em busca do estabelecimento de parcerias produtivas e de resultados significativos para o país.

Demétrio da Silva Filho, do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), comentou a falta de incentivo a pesquisadores brasileiros que buscam trazer recursos privados para universidades e instituições públicas de pesquisa.

"Em várias regiões dos Estados Unidos, o salário de um professor varia de acordo com a quantidade de recursos privados que ele traz para a instituição. No Brasil, o pesquisador que faz isso aumenta duas coisas apenas: o ego e a dor de cabeça na prestação de contas", disse.

Entre os presentes no encontro o que mais chamou a atenção foram os quesitos ligados à transparência, principalmente nos critérios de seleção de colaborações por parte das instituições públicas, além do acompanhamento de projetos e governanças internas.

"Não pode haver caixa-preta nessa relação. As empresas precisam conhecer como se dá a tomada de decisão dentro das instituições públicas parceiras para o bom andamento de projetos", ponderou Naldo Dantas, da Associação Nacional de Pesquisa, Desenvolvimento e Engenharia das Empresas Inovadoras (Anpei).

Também foi comentada a ideia do CTBE em participar como sócio de possíveis empresas spin offs geradas a partir de resultados de projetos conjuntos. Essa questão, segundo os responsáveis pelo laboratório, ainda esbarra em empecilhos comerciais e na falta de embasamento legal para se tornar realidade.

Rosana Ceron Di Giorgio, gestora de negócios do CTBE, explicou a estratégia de aproximação e pesquisa conjunta com empresas. "Assim que uma proposta de parceria chega, um comitê interno de inovação avalia sua relevância e sintonia com a missão do laboratório. Profissionais envolvidos nesta análise podem ou não assinar um acordo de confidencialidade, caso necessário", disse.

Uma vez aprovado o projeto, questões como escopo, divisão de riscos e condições de sigilo são definidas no momento da assinatura da colaboração. A partir daí a gestão da pesquisa fica a cargo de um comitê gestor enxuto, que conta com representantes do CTBE e das empresas envolvidas.

"Esse comitê agiliza os processos de decisão do projeto, inclusive possibilitando o encerramento da cooperação em caso de desacordo entre as partes", disse Rosana.

Um dos assuntos que mais preocupam a iniciativa privada no desenvolvimento de produtos e tecnologias em conjunto com o setor público é o sigilo de informações.

"Por conta disso, treinamentos sobre confidencialidade e segurança de materiais e dados serão aplicados aos envolvidos em colaborações do CTBE com indústrias, visando a evitar o vazamento de informações confidenciais", disse a gestora.

* Colaborou Luiz Paulo Juttel, do CTBE