Notícia

JC e-mail

Indução científica, editorial da 'Folha de SP'

Publicado em 13 agosto 2002

Com um pouco de inteligência e de recursos, tem sido possível colocar, ainda que discretamente, o Brasil no mapa da produção científica mundial. Não é pouco Eis a íntegra do editorial: No imaginário popular, grandes descobertas científicas são o resultado do trabalho dedicado de gênios algo excêntricos, que permanecem meses, às vezes anos, isolados em ermos laboratórios. A caricatura guarda poucos traços de realidade. No mundo contemporâneo, alguém que não esteja em estreita comunicação com a comunidade científica dificilmente poderá ser qualificado de cientista. Para começar, desenvolvimentos tecnológicos relevantes costumam exigir investimentos em pesquisa que estão além das posses de cientistas individualmente. Além disso, por maior que seja a concorrência entre grupos rivais, a ciência segue sendo uma obra coletiva, cuja matéria-prima é a troca de informações. Se, para um professor Pardal ou um Thomas Edison, agências de fomento teriam parecido uma excentricidade, no mundo real de hoje elas são inevitáveis, especialmente para países em desenvolvimento como o Brasil, onde os recursos materiais e humanos são muito mais limitados do que no Primeiro Mundo. Exemplo de como a intervenção de agências pode trazer resultados positivos é o projeto Biota, da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de SP). Trata-se de um empreendimento de levantamento sistemático da biodiversidade e de bioprospecção, em que cientistas procuram identificar organismos de potencial farmacêutico. A Fapesp, além de financiar os pesquisadores, desempenhou papel indutor, colocando todos os participantes em rede e uniformizando procedimentos. Criado em 99, o Biota já produziu resultados, incluindo a identificação de organismos úteis. Como a 'Folha de SP' mostrou na edição de ontem (segunda-feira), dois potenciais medicamentos já permitem pensarem patentes: um novo antibiótico e um antimalárico. O papel indutor de agências como a Fapesp não deve ser menosprezado. Com um pouco de inteligência e de recursos, tem sido possível colocar, ainda que discretamente, o Brasil no mapa da produção científica mundial. Não é pouco. (Folha de SP, 13/8)