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Jornal do Brasil

Índios preferem medicina tradicional

Publicado em 06 agosto 2018

A medicina tradicional indígena foi mais eficaz do que remédios convencionais no tratamento da dor entre membros das tribos do Vale do Javari, no oeste do Amazonas. É o que revela pesquisa realizada pela mestra em enfermagem Elaine Barbosa de Moraes, com apoio da Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

A pesquisadora ouviu 45 índios das etnias marubo, canamari e matis, dos quais 80% recorreram à medicina tradicional indígena para o tratamento da dor e 64,5% confirmaram a eficácia desse método. Entre os 87,7% que usaram a medicina convencional, tomando o chamado “remédio de branco”, 22,2% disseram que o tratamento foi eficaz. “Fica bem evidente que, mesmo utilizando mais a medicina convencional, o alívio da dor vem mais com o uso do remédio da medicina tradicional indígena”, concluiu Elaine.

Os tratamentos indígenas mais usados são os chamados “remédios do mato”, feitos com plantas e que são responsáveis pelo alívio da dor de 40% dos entrevistados. Existem outras formas de tratar a dor, como, por exemplo, o uso de gordura animal, de enzimas, de banhos e de rituais de cura, as pajelanças. Para Elaine, uma das causas da eficácia do tratamento indígena é o conhecimento deles sobre o uso de tudo que a floresta oferece. “A medicina tradicional indígena é um conhecimento que tem muito a acrescentar para a saúde da nossa população e poderia, tranquilamente, ser incluída entre as terapias complementares de saúde, assim como já foram incluídas outras terapias.”

A pesquisadora destaca que o Brasil ainda carece de um bom estudo de todos esses tratamentos e de um mapeamento maior dos tratamentos da medicina tradicional indígena. Segundo ela, outra questão que influenciou no resultado da pesquisa e que dificulta a eficácia dos remédios da medicina convencional é a falta de acompanhamento e tratamento adequados pela saúde pública. Os indígenas do Vale do Javari são atendidos por um Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei), que é ligado ao Sistema Único de Saúde (SUS). Elaine entrevistou 36 funcionários do Dsei que prestam atendimento às três tribos para avaliar como os agentes de saúde lidam com a dor dos indígenas. No total, 73% disseram que, durante o atendimento, não investigam a dor dos índios.

A pesquisadora concluiu que os profissionais do Dsei têm pouco tempo de formação e que falta a eles conhecimento específico para lidar com a dor e a saúde indígenas. “A assistência à dor dos indígenas é precária, assim como a de quem não é indígena, porque, em nossa sociedade, a dor ainda não é bem trabalhada. Um acompanhamento melhor resultaria em uma terapêutica mais apropriada, uma vez que o indígena usa muito a medicina convencional. Se eles não sentem um alívio tão grande – somente 22,2% relataram melhoras com a medicina tradicional –, essa dor pode estar sendo mal avaliada”, enfatiza.

Na opinião de Elaine, se houvesse um acompanhamento melhor, com profissionais com mais conhecimento tanto da dor quanto da saúde indígena, o alívio da dor com uso da medicina convencional seria maior. Além disso, a automedicação entre os índios também contribuiu para a baixa eficácia da medicina convencional. “Foi um resultado até inesperado. A automedicação é um grande problema de saúde no Brasil para a população não indígena, em geral”, explicou.

(Agência Brasil)