Notícia

Jornal do Brás

Indignação e consciência política

Publicado em 01 maio 2018

Por Marisa Moura Verdade

No Brasil, já faz alguns anos, dia a dia somos confrontados com um sistema de corrupção transformado em método de governo. O crescente número de escândalos incorporou suspeitas e irritação associadas à impunidade, atraindo razoável atenção popular para as altas esferas da Justiça. Descobrimos como é frustrante acompanhar o julgamento de políticos e empresários corruptos no país das liminares, dos habeas corpus, dos desmentidos impossíveis e das protelações intermináveis. E a geração de estresses só aumenta.

Muita gente observa, em si mesmo e nos outros, que as questões políticas e da corrupção despertam reações emocionais cada vez mais intensas. Passamos das decepções e lamentações iniciais para expressões de repulsa e animosidade crescentes. Uma afetividade indigesta instalou-se na polarização do nós contra eles: adversários são vistos como inimigos, conflitos são tratados com mais agressão, não há abertura para diálogos. Sentimos falta das demonstrações de respeito pelos outros, o que tende a provocar medo e desconfiança.

Na crise atual, aquele entorpecimento ético e moral inerente ao descarado "rouba, mas faz", tradicionalmente adotado diante de políticos corruptos, não reflete o estado de ânimo nacional. É visível que tal indiferença deu lugar a uma indignação coletiva. Analistas desse contexto apontam diferentes facetas das manifestações de indignação. Há quem considere que uma parte expressiva delas pode indicar um desejo de acomodação, de afastamento da política e dos seus problemas.

Outras análises sinalizam que expressões de indignação podem disfarçar mera vocação para criticar. Reflexões sobre formas agressivas de indignação evidenciam que todas são injustificáveis. As interpretações propõem que os atos violentos ou ofensivos denotam a exasperação de quem reprime sentimentos de ódio, quase sempre entrelaçados a vivências de injustiça e desrespeito. Nesses casos, mais cedo ou mais tarde, a hostilidade acumulada explode, revelando impotência e bloqueio para avaliar fatos que contrariam o bom senso, a decência e o bem comum. Tratase aqui de uma indignação superficial, estéril em termos de sentimento ético.

Estudos sobre a personalidade ética e moral afirmam que indignação é um dos sentimentos que participam das noções de justiça e respeito. Essa reação afetiva começa a se desenvolver na infância, quando a criança reclama de promessas que não são cumpridas ou de ser castigada por algo que não fez. O progresso ético e moral individual será aprimorado posteriormente, acrescentando reações de revolta diante do desrespeito aos outros. Nesta perspectiva, a indignação refere ao fato de direitos terem sido desrespeitados, portanto alguma injustiça foi cometida.

Afetos, emoções e sentimentos são processos fundamentais da vida psíquica. Têm função importante no autoconhecimento e no autocontrole, duas habilidades inerentes à verdadeira independência pessoal. Tais elementos de maturidade são relevantes nos momentos de crise, pois promovem mudanças de comportamento, exercendo influência direta na maneira de pensar sobre algo. A indignação coletiva que vivemos sinaliza a necessidade de revalorizar a personalidade ética e moral, atributo principal da verdadeira consciência política. Precisamos muito desse processo de conscientização. Ele é fundamental para escolher governantes que tenham a habilidade de defender os interesses da coletividade e não de particulares.

Marisa Moura Verdade é Mestra em Educação Ambiental, Doutora em Psicologia, especializada em Psico- Oncologia, pesquisadora do Laboratório de Psicologia Social da Religião do IP-USP. Autora do livro Ecologia Mental da Morte. A troca simbólica da alma com a morte. (Editora Casa do Psicólogo FAPESP). E-mail: mmverdade@gmail.com