Notícia

Diário de Marília online

Indígena da UFScar lança livro didático

Publicado em 19 abril 2015

O estudante indígena Luciano Ariabo Quezo, graduando do curso de Letras da UFSCar, escreveu o livro didático “Língua e Cultura Indígena Umutina no Ensino Fundamental” para ensinar a língua Umutina-Balatiponé a alunos do 4º ano da escola indígena de seu povo, Julá Paré. Foram impressos 180 exemplares do material, que é composto por exercícios bilíngues (umutina-português) e dividido em quatro unidades, abordando a História do Povo; Artesanatos; O corpo humano com classes de animais; e por último as narrativas do povo.

 

Formado por cerca de 600 pessoas, os Umutina vivem em uma reserva em Barra do Bugre, no interior do Mato Grosso, onde moram índios de diferentes etnias. Há apenas uma escola indígena na região e o ensino das línguas locais dependia, antes da disponibilização do livro, exclusivamente da vontade e do esforço dos integrantes da própria aldeia.

 

Luciano, que além de autor é também o ilustrador do livro, notou que havia a necessidade de produzir materiais que auxiliassem os professores no exercício do ensino do idioma originário quando analisava por meio de um outro projeto de pesquisa apoiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) em quais situações eram trabalhadas a língua materna na escola Julá Paré.

 

O indígena é uma das poucas pessoas que falam Umutina no mundo. Aos 25 anos, o estudante conta que aprendeu a falar a língua com um ancião que era seu vizinho. “Às vezes eu dormia na casa dele, e eu desde muito novo já tinha interesse em saber mais sobre a história e a cultura do povo local a que eu também pertenço”, relata o indígena. O ancião, com mais de 100 anos, faleceu em 2004, e atualmente não existem mais idosos com o conhecimento tão amplo quanto o dele. O estudante conta que como não foram todos os jovens que tiveram o privilégio de aprender um pouco da língua, ele quer reforçar a revalorização do idioma.

 

“Como forma de apoiar esta luta enquanto acadêmico em Letras, encontrei essa maneira de colaborar. Com esse livro quero despertar cada vez mais nos jovens o interesse sobre a história e a cultura do povo, através de um produto social imprescindível para uma sociedade, a língua”, relata Luciano.

 

Apesar de ser o primeiro projeto de autoria de um indígena apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), o trabalho não é a primeira iniciativa. Para a construção do livro didático, o estudante buscou outras produções indígenas e o resultado surgiu de diversas inspirações. Durante o processo também houve uma consulta e o acompanhamento dos professores e lideranças que iriam futuramente receber o material. Além de professores, as crianças e as pessoas mais velhas, Luciano conta que a intenção é que o material atinja o povo de maneira mais abrangente, pois seu conteúdo é formado por atividades que exigem pesquisas fora da sala de aula e algumas indagações com o propósito de formar diálogo entre a criança e seus pais, não ficando essa responsabilidade somente aos professores e aos mais velhos.