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Correio Popular

Incubadora gera 'professor Pardal

Publicado em 14 maio 2000

Por CÉLIA FROUFE - celinha @cpopular.com.br
Alessandro Pinto, de 26 anos, é proprietário da Smatec, uma empresa de Campinas que desenvolve projetos de alta tecnologia há quatro anos. A precocidade da entrada no mundo dos negócios foi possível para Alessandro e mais dois colegas da mesma idade em função da Ciatec (Companhia de Desenvolvimento do Pólo de Alta Tecnologia). A Ciatec é uma das 39 incubadoras de empresas que existem no Estado e abriga 21 indústrias em suas dependências físicas. Nos seus quatro anos de existência, a companhia graduou três delas. A incubadora de Campinas existe desde 96. No início, a companhia contava com a adesão de seis empresas. A procura por uma vaga na Ciatec é grande: oito empresas estão na fila à espera da graduação de novas indústrias, que se retiram do local dando novas oportunidades para quem está começando. COMPETÊNCIA Para fazer parte de uma incubadora, no entanto, são necessárias competência e dedicação. O empresário tem que elaborar um plano de negócio e, depois do projeto aprovado, ele passa por uma entrevista. A Ciatec divulga suas vagas em Centros de Pesquisa no Diário Oficial e em jornais da cidade. Passada a seleção, o empresário pode se estabelecer no prédio, em sua sala. O único compromisso de quem passou nesse "vestibular" é entregar um relatório semestral aos responsáveis pelo núcleo. Um dado importante: a empresa que quer se habilitar a uma vaga na Ciatec não pode ser poluente. Uma incubadora pode ser comparada a uma colméia. Na prática, as incubadoras são um conglomerado de "professores Pardal". As incubadoras de empresas estão se espalhando pelo País como uma oportunidade para pequenos empresários que querem começar seus negócios. Localizadas em prédios ou galpões, elas são núcleos de desenvolvimento onde as empresas se estabelecem durante um período antecipadamente determinado, que pode variar de dois a quatro anos. DIVISÃO Essas empresas dividem os custos fixos com a manutenção do local. Enquanto estão incubados, os microempresários recebem apoio de parceiros do núcleo e adquirem know-how para que depois de "graduados" possam assumir todos os compromissos de uma empresa. Os módulos ocupados pelas empresas têm uma média de 40 metros quadrados. O aluguel cobrado é de R$ 4,00 o metro quadrado. O barracão da Ciatec, que está localizado no Jardim Santa Cândida, possui 2 mil metros quadrados, dos quais 1,6 mil de ABL (Área Bruta Locável). A vantagem para as empresas que estão estabelecidas em uma incubadora é fundamental para a prosperidade futura da companhia. Além de dividirem despesas, elas contam com apoio de parceiros do núcleo. Em Campinas, o Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio à Micro e Pequena Empresa), por exemplo, oferece cursos e palestras, trabalho de consultoria e ajuda na participação das empresas em feiras e eventos. A Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) é outro parceiro importante. A Ciatec possui parceria com a Prefeitura de Campinas, que oferece a infra-estrutura da administração. Desafio é conquistar mercado Andar com as próprias pernas após a passagem pela incubadora. Esse é o desafio que as empresas Multway, Well Done Automação (WDA) e Orion estão tendo pela frente. As três indústrias estão recém-graduadas, mas afirmam que a grande prova é conquistar - e manter - um espaço no mercado. A Orion, por exemplo, montou uma empresa em Amparo após ter se desligado da Companhia de Desenvolvimento do Pólo de alta Tecnologia (Ciatec). Antes de passar pela incubadora, a empresa prestava serviços para concorrentes. Atualmente, a Orion, além de produzir, também comercializa seus equipamentos. A Orion produz equipamentos médico-hospitalares. "Nós desenvolvemos projetos, mas a mão-de-obra é terceirizada", explica Miguel Martins, que trabalha com desenvolvimento técnico. Os mentores da Orion passaram pela Ciatec no período de agosto a dezembro do ano passado. "A passagem pela Ciatec foi muito boa. Nós tivemos um apoio em consultorias e administração. Até então, não tínhamos idéia de todo o complexo que envolvia uma empresa. Apenas sabíamos produzir, mas não conhecíamos nada de marketing, por exemplo",- conta Martins. As incubadoras podem ter dois perfis: tradicional ou tecnológico. Além de Campinas, apenas existem incubadoras com produção tecnológica no estado em São Paulo, Barretos e São José dos Campos. Para manter o seu funcionamento em ordem, a Ciatec conta com seis funcionários. (CF) 90% dos projetos são da Unicamp Noventa por cento dos projetos são provenientes de estudantes e professores da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). A afirmação é de Décio Sirbone Júnior, diretor da Companhia de Desenvolvimento do Pólo de Alta Tecnologia (Ciatec). Um dos exemplos é Alessandro Pinto, que se formou em Engenharia Elétrica pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em 96. Nesse mesmo ano, ele montou com os colegas a Smatec. Como clientes, os três empresários-mirins têm nada mais nada menos que empresas como Renault, 3M, Motorola e Embratel. Entre os produtos que criaram, está o CAC-100 (Controle de Acesso Compacto), um sistema de abertura de portas com a utilização de uma senha específica para cada funcionário de uma companhia. O aparelho é vendido ao consumidor por R$ 200,00. Um equipamento similar importado não sai por menos de US$ 1 mil. "Temos que estar a par do que está acontecendo lá fora para trazer as novidades para o Brasil", diz Alessandro. A presença de universidades na região onde as incubadoras são montadas facilita seu surgimento e sua manutenção, segundo Décio Sirbone Júnior, diretor da Ciatec. "É fundamental a existência de universidades próximas à Ciatec para que continue sempre operando", diz Sirbone Júnior. Gustavo Vilela Vargas, de 23 anos, também está à frente de uma empresa da Ciatec, a Elemed. Vargas cursa o último ano de Engenharia Elétrica na Unisal (Universidade Salesiana). "Fui contratado para desenvolver um projeto, um eletrocardiograma computadorizado", diz Vargas. O equipamento computadorizado é similar ao eletrocardiograma comum. Sua principal vantagem, no entanto, é possibilitar o acompanhamento médico à distância em casos de urgência. "Quando um paciente tem um problema, ele pode ligar para seu médico que acompanha a leitura do aparelho por meio da Internet", explica Vargas. Um aparelho como esse é encontrado no mercado hoje por R$ 5 mil. A previsão do futuro engenheiro elétrico é que seu projeto chegue ao mercado custando R$ 1 mil, ou seja, um quinto a menos do preço de mercado atual. A Clip Art Localização Técnica S/C Ltda. trabalha com informática e telecomunicações. Os proprietários da empresa possuem 25 projetos em desenvolvimento, "Na Ciatec temos o privilégio de receber consultorias era gestão, jurídica, contábil e marketing. Além disso, recebemos treinamento em vendas, atendimento ao cliente e até como lidar com o fluxo de caixa", diz Guilhermo Porto. O ex-estudante da Unicamp afirma que consegue materializar seus projetos porque também possui o auxílio da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). (CF)