Notícia

Febrafarma

Incubadas entram em nicho de grandes laboratórios

Publicado em 24 janeiro 2006

A indústria farmacêutica é dominada pelas empresas de grande porte. Segundo a Federação Brasileira da Indústria Farmacêutica, as menores empresas têm faturamento na casa dos R$ 30 milhões anuais. Porém, na cadeia produtiva dos medicamentos, há espaço para as pequenas na produção dos fármacos — substâncias utilizadas na produção de remédios.
"Quando se fala de química fina, pode se tratar de empresas bem menores", diz um dos sócios da Alpha, Luiz Carlos Zanotti. A Alpha, uma empresa de pequeno porte incubada no Cietec da USP, desenvolve princípios ativos (substâncias que servem de base para produção de remédios) de alto valor. "Alguns compostos podem ser vendido a até US$ 80 mil o quilo," afirma.
Tanto Zanotti quanto seu sócio, Wiliam Carnicelli, trabalhavam no ramo farmoquímico antes de fundarem a Alpha, em 2002. "Vimos que havia um nicho de mercado a ser atendido. Alguns laboratórios precisavam de princípios caros, mas importá-los é um processo complicado, burocrático, e nem sempre existe a garantia de que o produto recebido vai atender às exigências de qualidade."
Ele acredita que neste nicho as pequenas empresas brasileiras têm espaço para atuar. "Nós temos qualidade e podemos atender um pedido em até duas semanas, o que reduz os estoques dos laboratórios.
Quem optar por importar compostos não consegue ser atendido nesse prazo." O pesquisador e diretor da Biotec Mario Moffa diz que a farmoquímica nacional é muito pequena, e quase desapareceu com a abertura das importações durante o governo Collor.
"A opção mais sustentável é trabalhar com os compostos de alto valor", concorda Moffa. "O investimento necessário para fazer princípios commodities seria o mesmo, mas é praticamente impossível competir com as grandes fábricas por causa do volume.
Como os princípios ativos mais caros são comercializados em gramas, é possível para uma pequena empresa produzi-los."
A Biotec, também incubada no Cietec, produz hormônios femininos. Atualmente, ela atende o Biolab, mas futuramente vai abrir sua produção para outros laboratórios. Para citar um exemplo, uma cartela inteira de anticoncepcionais precisa de apenas 2 miligramas para surtir efeito.
NEGÓCIO CARO
O valor necessário para se criar uma empresa de fármacos é, segundo os empresários, um dos maiores impedimentos para o surgimento de novas empresas. "Um balão de vidro para realizar reações químicas pode custar US$ 100 mil", exemplifica Zanotti. "São raras as pessoas que dominam a tecnologia e estão dispostas a investir."
Moffa cita também a dificuldade de acesso a crédito. "O governo criou muitas linhas de crédito para apoiar o desenvolvimento de tecnologia. Mas as restrições são tantas que, no fim, apenas quem já tem dinheiro consegue mais dinheiro." Ele tem uma outra pequena empresa, a Microbel, de peletização de princípios ativos. "Eu posso fazer no Brasil, pela metade do preço, um processo muito comum lá fora, mas sozinho é muito caro."
Cosméticos e remédios de rã  
A Central Rã, também incubada no Cietec, resolveu apostar num produto com base na sabedoria popular: a empresa pesquisa as propriedades cosméticas e medicinais de substâncias extraídas das rãs. "É muito comum, no Nordeste, principalmente, as pessoas usarem líquidos tirados de rãs para curar ferimentos da pele.
Resolvemos criar a empresa para estudar as propriedades desses animais e desenvolver produtos cientificamente testados", conta o engenheiro de Sistemas e ex-criador de rãs Onessi Rolim de Freitas.
"Existem poucos estudos sobre o assunto e não temos conhecimento de nenhum produto patenteado e certificado dessa natureza com origem nas rãs." Em parceria com o professor de Farmacologia Jayme Sertié, da USP, eles obtiveram o apoio da Fapesp para realizar o projeto e já estão na segunda fase de experimentação, testando o produto em ratos.
Por meio do Programa de Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas , a Central Rã recebeu cerca de R$ 400 mil para criar o laboratório e realizar testes. "Dos nossos bolsos, investimos o suficiente para comprar um carro", diz Freitas. "Há pouco tempo, gastei R$ 1,2 mil em ratos."
A curto prazo, a Central Rã visa a criar produtos para a pele, cujos testes para obter a certificação são complexos, porém, mais baratos. A longo prazo, ele acredita que possam até pesquisar a criação de um antiinflamatório.
"Criar um cosmético ou remédio a partir de substâncias da rã tem muitas vantagens sobre os produtos existentes. Seria muito mais barato e, por enquanto, os testes não mostraram nenhum efeito colateral", explica o engenheiro.