Notícia

Gazeta Mercantil

Incor terá central on-line para monitorar paciente

Publicado em 28 fevereiro 2000

Por Roger Modkovaski - de São Paulo
Um sistema de monitoramento de pacientes ligado em rede que permite acompanhar doentes cardíacos em qualquer lugar do hospital e que pode ser acessado pelo médico de seu próprio consultório será uma das novidades tecnológicas do Bloco 2 do Incor (Instituto do Coração), que será inaugurado até julho deste ano. À adaptação e a integração do sistema à estrutura de informática já existente no Incor são frutos de um contrato de cooperação técnico-científica firmado entre a Fundação Zerbini, entidade de direito privado que dá suporte financeiro e administrativo ao Incor, e a multinacional de tecnologia alemã Siemens. O sistema de gerenciamento de informações de pacientes críticos, rebatizado de Infinity, foi desenvolvido pela Divisão de Eletromedicina da Siemens. Tem a vantagem de permitir um acompanhamento mais detalhado e imediato do estado do paciente, dando ao médico a possibilidade de tomar decisões mais rapidamente em casos de emergência, além de facilitar a comparação de dados para elaborar estudos, pesquisas e relatórios. O investimento em tecnologias eletrônicas e de informação no novo bloco do Incor é de R$ 25 milhões, ou um quarto dos R$ 100 milhões do investimento total para concluir as obras. Isso inclua, além do Infinity, equipamentos hospitalares, o sistema de gerenciamento do edifício e sistemas de informática em geral. Além da Siemens, empresas como General Electric, Phillips, Agilent, Drago; Oracle, Metronic e Toshiba estão fornecendo tecnologia para o hospital, nas áreas de ressonância magnética, administração hospitalar e fornecimento de marcapassos. "Temos a intenção de continuar a ser um centro de difusão tecnológica internacional, um pólo mundial de desenvolvimento de equipamentos", explica Paolo Guglielmo Bellotti, presidente da Fundação Zerbini. A idéia é manter o índice, de resolutividade, ou seja, de tratamentos concluídos com sucesso. Segundo Bellotti, só cinco hospitais especializados em cardiologia em todo o mundo estão hoje no mesmo nível tecnológico do Incor. O Infinity terá capacidade para monitorar os sinais vitais centrais de até 16 pacientes simultaneamente, cruzando-os com as informações de suas fichas clínicas. Serão conectados ao sistema os doentes em estado mais grave e que necessitem, portanto, de um acompanhamento mais cuidadoso. O sistema permite que médicos e técnicos do hospitais, situados em uma sala, acompanhem, por meio de 59 monitores conectados por uma rede interna, as reações dos pacientes sem precisar se deslocar ao local onde eles estão, como acontece com a tecnologia atualmente em uso. As informações clínicas continuarão sendo coletadas da maneira tradicional, por intermédio de eletrodos implantados no corpo dos pacientes. Poderão ser monitorados doentes em estado pré-operatório, anestesia, operação ou já em processo de recuperação. Usando a tecnologia da telemetria, sensores colocados nos corredores do hospital permitirão o controle de pacientes que estiverem transitando por eles. Caso haja alguma variação brusca dos sinais vitais de algum deles, um sistema de alarme será acionado, permitindo aos médicos tomar decisões com mais agilidade. Os médicos do Incor também poderão consultar os dados de seus pacientes remotamente, em seus consultórios fora do hospital, bastando para isso acessar a Internet e, mediante um código, entrar no sistema. No futuro, segundo Bellotti, a idéia é desenvolver um processo pelo qual um paciente que esteja viajando possa ir a qualquer hospital ou clínica e conectar-se à rede, transmitindo seus dados para que sejam analisados por seu médico que está em São Paulo. Além de novas áreas de cirurgia, internação, ambulatório e UTI, o bloco 2 abrigará instalações do Centro de Pesquisa Incor-Zerbini, que desenvolve estudos em cardiologia e também nas áreas de doenças infecciosas, farmacêuticos, biologia molecular relacionada a doenças cardíacas e imunologia de transplantes e também faz certificação de medicamentos genéricos. Uma linha interessante de pesquisas feita pelo centro, segundo Bellotti, é da área de pneumologia, investigando os distúrbios do sono relacionados às doenças cardíacas. O investimento nas pesquisas é de US$ 8,5 milhões, repartidos entre recursos da Fapesp (Fundação de à Pesquisa do Estado de São Paulo), do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), da iniciativa privada e da Fundação Zerbini. ENGENHEIROS CUIDAM DA SAÚDE DOS HOSPITAIS A engenharia clínica -aplicação dos conhecimentos da engenharia ao ambiente hospitalar- está em crescimento no mercado brasileiro. Ainda não há números oficiais sobre o ramo, que começou a ser explorado no Brasil no início da década de 90, segundo o engenheiro clínico Eduardo Scarpini, mas os hospitais estão se conscientizando da importância de contratar ou consultar profissionais da área. "Até hoje no Brasil, há precariedade e amadorismo na manutenção hospitalar", diz. Aos poucos, começam a surgir empresas especializadas em prestar assessoria aos hospitais e demais estabelecimentos de saúde nos processos de contato com fornecedores, compras, adaptação, regulagem e calibragem de equipamentos. A área também inclui treinamento de pessoal para utilizar os equipamentos, administração hospitalar e, em muitos casos, assessoria para a construção de prédios adequados à prática hospitalar. Esses serviços aumentam a segurança do paciente, além de economizar recursos dos hospitais e tempo dos profissionais de saúde. "Um hospital não sobrevive sem tecnologia planejada", diz Lúcio Flávio de Magalhães Brito, sócio da Engenharia-Clínica, empresa que dá consultoria na área no Estado de São Paulo para clientes como Unimed e Hospital Panamericano. "É preciso ter conhecimento do que está disponível no mercado". O problema é que os profissionais da saúde cada vez têm menos tempo para isso, completa Brito, que é engenheiro mecânico e de segurança e tem certificação em engenharia clínica nos Estados Unidos. "Não adianta ter equipamentos de ponta sem uma estrutura elétrica, predial e de manutenção", diz Crismara Santana, pós-graduada em engenharia clínica e administração hospitalar. A engenharia clínica é um ramo da engenharia biomédica, ciência mais centrada no desenvolvimento de equipamentos de tecnologia para uso hospitalar voltado para a indústria. O engenheiro clínico brasileiro é geralmente alguém com graduação em algum curso na área das engenharias e especializado, em nível de mestrado, em engenharia biomédica. Há cursos de mestrado na matéria disponíveis no Brasil, em universidades como USP (no Laboratório de Engenharia Biomédica), Unicamp e as federais de Santa Catarina, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Paraíba. (R.M.) BLOCO 2 FICA PRONTO EM JULHO A inauguração do bloco 2 do Incor, prevista para julho, ampliaria capacidade do hospital dos atuais 315 para 550 leitos. O número de pacientes internados deverá passar de 790 para 1.200 por mês. O desafio, segundo Paolo Bellotti, presidente da Fundação Zerbini, 6 ampliar o hospital mantendo a qualidade do atendimento, sem fazer apenas "uma obra de hotelaria". O Incor é orna unidade do Hospital de Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo). A construção do prédio do bloco 2, que fica na própria área do Hospital de Clínicas, começou em 1985, mas foi interrompida pela falta de verbas e pelas trocas no governo estadual. Só foram reiniciadas em 1997, quando a Fundação Zerbini obteve financiamento de R$ 55 milhões com o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), para pagamento em sete anos pela TJLP (taxa de juros de longo prazo). O restante dos recursos vem da fundação. A intenção do hospital é manter a atual proporção de 75% de pacientes atendidos pelo SUS (Sistema Único de Saúde) e 25% de convênios médicos. O Incor foi o primeiro hospital público a atender clientes de convênios, há cerca de 20 anos, para aumentar a receita. O Incor tem cerca de 2.500 funcionários. O governo estadual responde por um terço da folha de pagamento. A fundação, pelos outros dois. Entidade criada para prestar assessoria ao Incor, a Fundação Zerbini também apóia instituições como a Casa da Aids (hospital-dia dirigido a portadores do vírus HIV), o Grea (Grupo Inter-disciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do HC) e o Qualis (que oferece medicina preventiva a famílias da periferia de São Paulo). A receita atingiu R$ 130 milhões em 1999, contra R$ 114 milhões no ano anterior. (HM.)