Notícia

Gazeta Mercantil

Incor se prepara para testar vacina

Publicado em 31 maio 2002

Por Vanessa D'Angelo - de São Paulo
No início de 2003 pesquisadores do Instituto do Coração (Incor), da Universidade de São Paulo (USP), começarão os testes da vacina contra a febre reumática em animais para, posteriormente, chegarem aos seres humanos. A experimentação com animais deve durar cinco anos. Depois, haverá mais dois ou três anos de ensaios clínicos com seres humanos. A partir daí espera-se ter encontrado uma saída para a febre reumática. Quando não há tratamento adequado, uma simples amigdalite causada pela bactéria estreptococo evolui para estados febris, dores nas articulações e, finalmente, ataque ao tecido do coração. A cada ocorrência da infecção o quadro se repete. Quando partes do tecido cardíaco já foram destruídas, o paciente pode ser salvo por meio de cirurgia, em geral de troca de células mitral ou aórtica, com alto custo, e possíveis seqüelas. Denominada de febre reumática, a doença é alvo de estudo de pesquisadores do Incor. O objetivo é criar uma vacina que previna a doença e também possa ser utilizada para reduzir a carga de antibióticos sobre os pacientes que apresentam febre reumática. Bastaria a vacina para impedir novas infecções em crianças que já têm a doença. Há 12 anos a equipe de pesquisadores, coordenada pela dra. Luiza Guilherme Guglielmi, começou a desvendar os mecanismos que causavam a febre reumática. Durante este tempo, os pesquisadores estavam focados em entender o comportamento da bactéria Streptococus pyogenes, também conhecida como estreptococo do Grupo A. A bactéria não é a causadora direta da febre reumática, porém desencadeia um processo que faz o organismo voltar-se contra si mesmo. "Essa é uma característica das doenças auto-imunes", explica Luiza. Durante todo esse tempo a equipe do Laboratório de Imunologia do Incor, dirigido pelo dr. Jorge Kalil, estudou o comportamento da bactéria para, a partir desses dados, fabricar a vacina. MIMETISMO BIOLÓGICO O tecido cardíaco é composto por proteínas de grande semelhança com as das bactérias. Essa semelhança faz com que as células do sistema imunológico ataquem não a bactéria, mas o coração, por uma reação denominada mimetismo biológico. "A partir daí o organismo estabelece a identificação fatal: passa a atacar não só a bactéria, mas também o tecido", explica Kalil. Para entender a lógica da reação destruidora causada pela bactéria no organismo, Kalil utiliza uma analogia com falantes da língua espanhola. "Se houvesse um sistema capaz de identificar idiomas durante uma ligação telefônica, mas não sotaques, seria impossível identificar, por exemplo, chilenos, pois todos os falantes da língua espanhola seriam identificados pelo sistema." O sistema imune ataca o próprio tecido de quatro a oito semanas depois do inicio da infecção da garganta, que costuma durar de sete a 10 dias, não havendo mais bactérias a combater. Normalmente, o sistema combate a bactéria ativando células do sangue chamadas glóbulos brancos ou leucócitos, responsáveis pela destruição dos. estreptococos. "É essencial brecar o avanço do processo, o que normalmente é feito com tratamento rápido das infecções de garganta com antibiótico, nem sempre possíveis em regiões carentes de serviços de saúde", comenta Luiza. A solução seria evitar o ataque das bactérias por meio de uma vacina capaz de imunizar todas as crianças, as principais vítimas. Nas crianças com suscetibilidade genética ocorre uma agressão ao próprio tecido, a reação auto-imune. O sistema imunológico armazena numa espécie de memória a estrutura da bactéria, que permite que seja reconhecida caso reapareça. Nessas crianças, ele reconhece a estrutura do coração, semelhantes às da bactéria. Num mecanismo denominado reação cruzada, as estruturas passam a ser atacadas. "Esse erro biológico faz com que as doenças auto-imunes sejam profundamente estudadas", diz Kalil. PROTEÍNA M A equipe começou a traçar o caminho da vacina a partir da parede celular do estreptococo. "A bactéria tem uma proteína externa na parede celular, chamada proteína M, que ocasiona a reação cruzada entre as proteínas do coração e as da bactéria, ambas com estruturas semelhantes", diz Luiza. Porém, essa mesma proteína tem regiões que não desencadeiam as reações cruzadas e aparentemente dão proteção contra a bactéria. "Estudamos as duas regiões, as que desencadeiam reações contra o coração e as que não", comenta. Atualmente os especialistas estão cm fase de escolha das regiões das proteínas. Até o final do ano serão analisadas as regiões que já foram identificadas como protetoras. Para a fase de testes em animais serão utilizados camundongos de dois tipos: não manipulados geneticamente, ou isogênicos, e manipulados, os transgênicos, que contém um gene humano que atua no reconhecimento da vacina e é extremamente importante para desencadear a resposta do sistema imune. "Queremos nos aproximar o máximo possível do que seria uma resposta nos seres humanos", diz Luiza. Na fase seguinte, os pesquisadores passarão para o ensaio com primatas e, mais tarde, com seres humanos. CRIANÇAS SÃO O MAIOR ALVO A febre reumática incide, em geral, em crianças de cinco a 10 anos, predominantemente em países pobres. Segundo dados da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), em 1998, 90% das cirurgias cardíacas infantis feitas no Brasil foram ocasionadas a partir da febre reumática. Com adultos, esse índice vai para 30%, ainda considerado alto. Há um total de 10 mil cirurgias por ano, a um custo de US$ 8 mil a US$ 10 mil cada. "A febre reumática é uma doença muito cara para o sistema de saúde de qualquer país", comenta a dra. Luiza Guilherme Guglielmi, coordenadora da equipe que pesquisa a vacina da febre reumática. No Brasil, onde se registram 18 mil novos casos por ano, um paciente de febre reumática com. problemas no coração custa cerca de US$ 10 mil por ano ao Sistema Único de Saúde (SUS). Os trabalhos de pesquisa do Incor contam com investimentos de US$ 3 milhões, em proporções iguais da Fapesp e do Laboratório Teuto-Brasileiro, uma indústria farmacêutica nacional com sede em Anápolis, Goiás, que produz medicamentos genéricos.