Notícia

Jornal da USP

Incluir sem esquecer o mérito

Publicado em 08 novembro 2004

Um dos maiores problemas do ensino superior brasileiro continua sendo o descompasso entre a realidade socioeconômica da população e a distribuição dos alunos nas universidades: a média nacional é de apenas 30% de estudantes matriculados na rede pública, enquanto 70% ficam nas instituições privadas. No Estado de São Paulo, a proporção é ainda pior: 10% estudam nas universidades públicas, contra 90% nas particulares. Aumentar as chances e oportunidades para que alunos oriundos da rede pública e das camadas mais pobres ingressem no ensino superior é um caminho inevitável para diminuir as desigualdades no Brasil — mas, para obter melhorias nesse campo, não se pode adotar uma solução única e padronizada. As experiências existentes em diversas universidades mostram que criar alternativas que levem em conta a realidade local e se baseiem em critérios claramente definidos e continuamente avaliados contribui para atenuar as distorções na seleção dos alunos. A mesa-redonda que abriu o 5º Seminário de Cultura e Extensão, realizado nos dias 20 e 21 de outubro no Anfiteatro Camargo Guarnieri, na Cidade Universitária, discutiu exatamente as políticas afirmativas no ensino superior. O professor Mauro Mendes Braga, chefe de gabinete da Reitoria da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). relatou a experiência da instituição, que aumentou o número de vagas nos cursos noturnos e criou um índice (FSE - Fator Socioeconômico) para aferir o perfil dos candidatos e dos aprovados, o que auxilia e orienta as decisões. A UFMG ofereceu, neste ano, 240 vagas a mais em cursos noturnos em relação a 2003, 200 delas em Direito. "O universo dos estudantes é diferente. No noturno, 49% dos alunos trabalham durante o dia e aumentou em 18% o número de aprovados vindos da escola pública", disse Braga. "Mas não há diferença no desempenho Acadêmico nem no Provão. Ou seja, estamos formando à noite um profissional de tão boa qualidade como os do curso diurno." Os maiores problemas para a ampliação das vagas noturnas são as dificuldades orçamentárias e a enorme resistência do corpo docente para trabalhar nesse horário, revelou Braga. Outra conclusão das análises da UFMG é que fazer cursinho - comunitário ou privado, com qualquer duração - influi decisivamente nas chances do candidato. Qualificar melhor os concorrentes para aumentar suas possibilidades no vestibular tem sido uma das opções da USP, que mantém programas para atualização e aperfeiçoamento de professores da rede pública estadual e de alguns municípios e também promove um curso pré-vestibular para cerca de 5 mil estudantes da zona leste de São Paulo. Esses e outros esforços pela inclusão, como a ampliação das vagas, a criação da USP Leste e o aumento na quantidade de isenções para inscrição nas provas - cerca de 60 mil neste ano -, foram apresentados na fala da professora Sônia Penin, pró-reitora de Graduação da USP. Os debatedores concordaram que os programas de ação afirmativa não podem desconsiderar os critérios de mérito dos alunos ingressantes. Para Maria Helena Guimarães de Castro, secretária estadual de Desenvolvimento Social de São Paulo, é preciso também oferecer assistência para que os estudantes se mantenham no curso e não o abandonem por falta de recursos para moradia, alimentação ou material didático. Integração - Na mesa-redonda que debateu as políticas das agências de fomento para as ações culturais e de extensão universitária, Célio Roberto Turino de Miranda, secretário de Programas e Projetos Culturais do Ministério da Cultura (MinC), apresentou as novas iniciativas do governo federal para produção e difusão de material por centros comunitários e associações em todo o País. O Programa Cultura Viva oferece a tecnologia e os recursos para a criação de telecentros nessas unidades e a sua integração por meio do Governo Eletrônico -Serviço de Atendimento ao Cidadão (Gesac). Na USP, o Parque de Ciência e Tecnologia (Cientec) e o Laboratório de Brinquedos da Faculdade de Educação já fazem parte do projeto. Também participaram do debate o professor José Fernando Perez. que está deixando a direção científica da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), e o professor Alfredo Bosi, docente da Faculdade de Filosofia. Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP e membro da Academia Brasileira de Letras (ABL). Bosi lembrou que a extensão é uma espécie de "prima pobre" das atividades da universidade, que privilegia o ensino e a pesquisa, mas salientou que a própria FFLCH possui, neste semestre, cerca de 5 mil alunos matriculados em cursos de extensão abertos à comunidade, especialmente na área de línguas. O fato de esses cursos serem pagos, mesmo oferecidos dentro de uma universidade pública, causa "uma certa inquietação", disse o Acadêmico - preocupação manifestada também por José Marcelino de Rezende Pinto, que falou do campus da USP em Ribeirão Preto, onde é professor do Departamento de Psicologia e Educação. A integração dos diversos campi, por sinal, foi um dos destaques do seminário. Enquanto os palestrantes falavam de São Paulo, debatedores e público acompanhavam tudo ao vivo, em telões instalados nos auditórios de Bauru, Piracicaba, Ribeirão Preto, São Carlos e Pirassununga, com imagem e som transmitidos pela Internet. Depois das falas no anfiteatro da capital, debatedores do interior apresentavam suas intervenções, também acompanhadas em São Paulo num telão. Perguntas aos participantes puderam ser enviadas por e-mail, já que a programação foi integralmente transmitida pela rede mundial de computadores. O seminário foi promovido pela Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária, cujo pró-reitor. Adilson Avansi de Abreu, participou da mesa de abertura, ao lado do reitor da USP, Adolpho José Melfi.